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A retórica eventualmente normalizará os planos de anexação de Israel

Bandeiras dos Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Israel são expostas na janela de um avião da companhia israelense El Al, adornado com a palavra ‘paz’ em árabe, inglês e hebraico, durante o primeiro voo comercial entre Israel e Abu Dhabi, 31 de agosto de 2020 [Karim Sahib/AFP/Getty Images]
Bandeiras dos Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Israel são expostas na janela de um avião da companhia israelense El Al, adornado com a palavra ‘paz’ em árabe, inglês e hebraico, durante o primeiro voo comercial entre Israel e Abu Dhabi, 31 de agosto de 2020 [Karim Sahib/AFP/Getty Images]

Antes do acordo de normalização entre Emirados Árabes Unidos e Israel, quando eram abundantes as especulações sobre o plano de anexação israelense da Cisjordânia ocupada, o Ministro da Agricultura de Israel Alon Schuster discursou a favor de “cultivar assentamentos”. Seu entusiasmo pela violação da lei internacional foi compartilhado da mesma forma pelo Ministro da Defesa Benny Gantz. Tal medida, segundo ambos os ministros sionistas, beneficiaria tanto palestinos quanto israelenses, na Cisjordânia ocupada, a fim de suposta e ostensivamente “permitir a coexistência, conforme o plano de Trump” – referência ao chamado “acordo do século”, anunciado unilateralmente em janeiro último.

Ao anunciar o pacto de normalização, o premiê israelense Benjamin Netanyahu viu-se alvo de duras críticas por líderes coloniais de Israel, acusado de duplicidade diante das promessas feitas. Netanyahu insistiu que a anexação ainda está sobre a mesa e que o acordo com Abu Dhabi apenas posterga o que seria mais uma flagrante violação da lei internacional.

Gantz busca agora agradar os líderes coloniais israelenses, ao promover a construção de 5.000 unidades residenciais ilegais na Cisjordânia ocupada, recorrendo a mais uma violação normalizada em termos da classificação internacional, a expropriação de mais terras palestinas ocupadas pelo Estado de Israel.

Para Gantz, a construção de assentamentos é uma forma de aproximar-se cada vez mais dos líderes coloniais, que consideram o atual congelamento das obras como artifício para mantê-los “reféns da situação diplomática”. A postergação dos planos de anexação, contudo, podem servir bem ao projeto israelense, desde que a comunidade internacional passivamente submeta-se a esta agenda. Caso Gantz queira agradar os colonos ao construir novas casas, há pouco efetivamente em confronto com o programa expansionista de Netanyahu. A anexação, como disse o premiê israelense, pode vir mais tarde. Os palestinos, diferentemente dos líderes coloniais e seus sicários, são aqueles que permanecem de fato reféns não apenas do pacto de normalização israelo-emiradense, como de cada proposta que recai nos parâmetros de diálogo e negociação da ONU.

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A Autoridade Palestina já retomou sua retórica de negociação com Israel, com base em resoluções existentes e consenso de dois estados, apesar da tentativa de apresentar reações adversas quando anunciado o plano de anexação. Embora a Autoridade Palestina tenha recuado da suspensão temporária das relações com Israel, em resposta à interrupção do plano, líderes palestinos ainda buscam desesperadamente por apoio da comunidade internacional, considerando que muitos países de fato acolheram o pacto de normalização como avanço diplomático, capaz de influenciar a diplomacia de dois estados.

Além disso, Israel sabe bem que já extrapolou os já dilatados parâmetros considerados aceitáveis em termos de consenso internacional. A comunidade internacional reiteradamente denunciou a expansão colonial israelense, mas simultaneamente destacou a anexação como violação maior, ao invés de responsabilizar o processo já em curso e a formalização dos assentamentos ilegais via construção continuada. A partir da distinção, Israel sabe que é possível jogar com duas mãos distintas, como fez em outras ocasiões. Por exemplo, ao converter os bombardeios de larga escala sobre Gaza a bombardeios intermitentes que mal incomodam a comunidade internacional e recebem pouca ou nenhuma cobertura da grande mídia.

Para os palestinos, a diferença entre anexação e expansão colonial é uma linha tênue que, em último caso, leva ao mesmo resultado: mais perda de terras e mais deslocamento forçado, nenhum dos quais desperta qualquer reação efetivamente contrária por parte da ONU. A expansão colonial é um ato político que resguarda consequências desastrosas ao povo palestino. Sobre qual terra o semblante hipotético de um estado palestino será construído, se Israel colonizar todo o território? A agenda humanitária da ONU não deve apenas ser contestada, mas também repudiada e substituída pelo foco em justiça e respeito aos direitos do povo palestino, incluindo os direitos à sua própria terra. Assim como a retórica sobre os assentamentos levou à sua normalização, uma retórica similar eventualmente poderá levar à normalização dos planos de anexação israelenses.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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