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Macron faz tudo que pode para retomar o Líbano à França colonial

Presidente do Líbano Michel Aoun realiza um jantar para receber o Presidente da França Emmanuel Macron no Palácio Presidencial de Baabda, em Beirute, capital do Líbano, 1° de setembro de 2020 [Presidência do Líbano/Agência Anadolu]
Presidente do Líbano Michel Aoun realiza um jantar para receber o Presidente da França Emmanuel Macron no Palácio Presidencial de Baabda, em Beirute, capital do Líbano, 1° de setembro de 2020 [Presidência do Líbano/Agência Anadolu]

O Presidente da França Emmanuel Macron foi o primeiro líder regional ou internacional a visitar Beirute após a devastadora explosão, há um mês atrás. Macron chegou a caminhar pelo porto e pela capital, antes mesmo dos líderes libaneses. O povo do Líbano, que já sofria com graves crises políticas, sanitárias, econômicas e sociais, cercou Macron e apelou, em franco desespero: “Senhor Presidente, nos salve!”

O líder francês respondeu: “Amo vocês, Líbano! Amo o Líbano.” No fim de sua visita, destacou: “A França jamais abandonará o Líbano e jamais desapontará o povo libanês.” Macron reiterou sua crença de que os “destinos” de ambos os países possuem ligações “espirituais e históricas”.

Cerca de 60.000 cidadãos libaneses assinaram uma petição solicitando a restauração do mandato francês sobre o Líbano, para salvá-los da elite política corrupta no país, à qual imputam responsabilidade pelas sucessivas crises e pela explosão no porto de Beirute. Tais pessoas, contudo, estão sob grave incompreensão dos fatos históricos: o povo libanês jamais terá qualquer benefício da França, apenas sofrimento.

Os comentário de Macron refletem a crença de que o Líbano ainda é colônia francesa. Em 1250, o Rei da França Luís IX concedeu aos cristãos maronitas na região o status de servos da coroa francesa, ao concedê-los “direitos, privilégios e proteção”, após assistência na invasão de Acre e da costa levantina. O atual líder francês também retoma o pacto do Rei François I com o imperador otomano Suleiman, o Magnífico, em 1535, quando o monarca europeu concedeu certos privilégios aos católicos em território otomano, acordo que afetou os maronitas, em particular, durante o reinado de Luís XIV, entre 1638 e 1715.

Posteriormente, os maronitas ao redor do Monte Líbano mantiveram seu apoio aos cruzados e boas relações com a França, que interveio na região, no século XIX, sob pretexto de ajudar os cristãos locais após guerra civil e fome generalizada. Em 1920, após a queda do Império Otomano, a Liga das Nações concedeu mandato à França sobre o Líbano e a Síria.

Em 1° de setembro de 1920, o general Henri Gouraud, Alto Comissário da França para Síria e Líbano, anexou partes da Síria e Beirute ao Monte Líbano e proclamou a criação do estado do Grande Líbano, dentro de suas fronteiras atuais, com a cidade portuária como capital.

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Segundo a Week Magazine: “No período de mandato francês, entre 1920-1946, o Líbano já possuía uma rede de escolas francesas e falantes do idioma francês, que sobrevivem até hoje, junto de relações amistosas com a França, como mediadores do poder no estado libanês.”

Em artigo publicado pelo Centro de Democracia Árabe, Mohsen Al-Komi relatou que sucessivos presidentes franceses jamais cortaram relação com o Líbano, ao observar que é “compulsório” que visitem o Oriente Médio antes ou depois de assumirem o cargo. Hoje, quase todos os grupos sectários libaneses possuem cerca de 250.000 membros em território da França, além de representantes oficiais.

“Michel Aoun (cristão maronita e fundador do Movimento Livre Patriota) fundou seu partido em Paris, que o apoiou de todas as formas para se tornar seu representante no Líbano”, escreveu Al-Komi. Para o autor, trata-se de um exemplo das relações entre franceses e cristãos libaneses, considerados historicamente pela França como análogos a cidadãos franceses.

Na ausência dos Estados Unidos no Líbano, devido à preocupação americana com suas eleições presidenciais e a mobilização de mais aliados árabes para Israel, a França teve o caminho aberto para apresentar-se como potência hegemônica e abordar os líderes libaneses.

Segundo a rede Politico: “Com foco no simbolismo, Macron emitiu uma mensagem aos líderes dos partidos políticos do Líbano, na majestosa mansão em Beirute que serve como residência oficial do embaixador francês”. O Presidente da França sabe muito bem que esta mesma mansão sediou o governo colonial francês no Líbano, por décadas e décadas.

A mensagem de Macron foi similar a ordens dadas por um general a seus subordinados, para que não o desobedeçam. Em agosto, “o presidente francês concedeu prazo de um mês para que os líderes libaneses deem início ao processo de reforma do sistema político e substituam a corrupção desenfreada e a má gestão, que assola o país desde antes da catástrofe”.

Macron crê que “grandes tragédias podem influenciar as relações internacionais e geopolíticas”, então viajou imediatamente ao Líbano, “com o intuito de não apenas demonstrar solidariedade, mas também sinais de cooperação binacional para a recuperação libanesa. Contudo, esta ‘cooperação’ logo provou-se tentativa real de violar a soberania do Líbano e impor interesses e agendas.”

No mesmo prédio onde o governo colonial francês declarou a criação do estado do Grande Líbano, anunciou Macron: “É momento de responsabilidade no Líbano … Levantamos recursos no passado, mas só podemos fazê-lo novamente caso as autoridades libanesas assumam suas responsabilidades para que possam ajudar, por completo, o povo libanês.” Macron destacou que os líderes do país árabe devem cumprir o prazo estabelecido para executar de fato as reformas políticas nacionais.

Presidente da França Emmanuel Macron consola uma jovem libanesa durante visita ao bairro de Gemmayzeh, um dos mais atingidos pela explosão, em Beirute, 6 de agosto de 2020 [AFP/Getty Images]

Presidente da França Emmanuel Macron consola uma jovem libanesa durante visita ao bairro de Gemmayzeh, um dos mais atingidos pela explosão, em Beirute, 6 de agosto de 2020 [AFP/Getty Images]

A assistência, é claro, poderia ser diretamente entregue à população carente. Sobretudo, aqueles que genuinamente pretendem ajudar não costumam pôr obstáculos no caminho ou estabelecer condições que possam postergar a ajuda. Assistência desesperadamente necessária chegou de diversos países, como Catar, Turquia, Jordânia, Egito e outros, muito antes do auxílio francês.

Mustapha Hadraj, professor libanês de ciências políticas, reiterou à rede Orient TV, na última semana, que um oficial de alto escalão do governo da Turquia chegou a Beirute, imediatamente após a explosão em Beirute, para estabelecer hospitais de campo e trazer toneladas de ajuda, além de oferecer chances de reconstruir o principal porto libanês. Ancara ainda disponibilizou um porto turco para substituir o porto de Beirute, até que este possa voltar a operar com normalidade, sem impor qualquer condição. Diferente de outros países, a França preferiu entregar seus pacotes assistenciais a bordo de um navio da marinha francesa. Trata-se, novamente, de ato simbólico.

Em agosto, cidadãos libaneses cercaram Macron em Beirute para pedir sua ajuda. Acreditavam que a França possuía mais influência sobre o sistema político nacional do que o próprio povo do Líbano.

A resposta de Macron provou que estavam certos: “Garanto a vocês, este auxílio não irá a mãos corruptas”, proferiu o presidente francês à multidão, segundo a agência Reuters. Referia-se, é claro, aos políticos libaneses. “Estou aqui hoje para propor um novo pacto político”, prosseguiu Macron. “Caso não aceitem [minha proposta], assumirei minhas responsabilidades.”

Macron ainda avertiu aos políticos do país árabe: “Caso as reformas não sejam executadas, o Líbano continuará a afundar.” Segundo Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França insubmissa (La France Insoumise), trata-se de “interferência” flagrante nos assuntos domésticos do Líbano. De acordo com reportagem da Reuters, Mélenchon alertou contra tais intervenções e insistiu em não aceitá-las. Declarou: “O Líbano não é protetorado francês”.

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Enquanto Macron estabelece a agenda e dita ordens, os líderes libaneses podem dizer apenas “Sim, senhor”. Concordaram, por exemplo, na indicação de Mustapha Adib como próximo primeiro-ministro, mesmo antes de Macron retornar ao país, para uma segunda visita em menos de um mês. Obediência flagrante: o Movimento Futuro do ex-premiê Saad Hariri retirou sua indicação e declarou apoio a Adib, diplomata próximo a Paris. Walid Jumblatt, líder do Partido Socialista Progressista, a princípio, rejeitou a nomeação de Adib, mas logo cedeu, após telefonema de Macron.

A segunda visita também foi simbólica, ao coincidir com o centenário de criação do estado do Grande Líbano, em 1° de setembro. Macron sugeriu então seu modo de pensar colonialista: “Não há cheque em branco … Caso as reformas, incluindo auditoria do banco central, não sejam aprovadas dentro do prazo, a ajuda internacional será retida”. As reformas desejadas por Macron põem os interesses franceses em primeiro lugar.

O professor Hadraj argumentou que Macron desapontou o Líbano ao recorrer à mesma elite corrupta para instituir o próximo governo. Adib é parte do sistema político que o povo anseia derrubar. Foi Embaixador do Líbano em Berlim, onde – segundo a Orient TV – serviu sobretudo aos interesses franceses, mesmo acima dos interesses do Líbano. O pesquisador Mahmoud Allouch corrobora esta tese, ao alegar que conheceu Adib por dois anos quando o diplomata era professor universitário. Manifestantes libaneses denunciam Adib como “rosto do passado e do presente”, representante direto de governos corruptos.

A escolha e apoio a Adib não representa, portanto, uma demanda libanesa, mas sim insistência da França, mesmo que seja eventualmente um governante corrupto. Macron permanece ao seu lado mesmo que não sejam cumpridas suas reiteradas promessas de que a assistência não seja desviada a bolsos desonestos. Manifestantes gritaram a Macron, para advertí-lo que Adib não manterá sua palavra, durante a visita do presidente francês à cantora libanesa Fayrouz, a fim de condecorá-la com a Legião de Honra, maior láurea francesa. “Queremos Nawaf Salam”, reiteraram os manifestantes.

Quando o jornalista francês Georges Malbrunot revelou que Macron reuniu-se em segredo com Mohammed Raad, parlamentar do Hezbollah, o líder europeu decidiu repreendê-lo publicamente, ao alegar que tal publicação dos fatos prejudicaria os interesses franceses. A rede Orient TV revelou ainda que uma das condições de Macron para indicação do novo primeiro-ministro do Líbano estaria justamente no consentimento do Hezbollah.

Hadraj também reportou que Macron telefonou ao Presidente do Irã Hassan Rouhani duas vezes, nas últimas semanas, para pedir que o Hezbollah facilite o trabalho do novo governo libanês. Em conversa com Rouhani, Macron supostamente disse que é essencial “a todas as potências relevantes … que apoiem o estabelecimento de um governo, capaz de gerenciar a emergência.”

Não é claro se Macron terá êxito ou não em sua missão, mas é evidente que a França colonial decidiu exercer seus melhores esforços para reconquistar o Líbano. Macron pode ser bem sucedido. Como ele próprio afirmou à rede Politico, com sede na Virgínia, Estados Unidos: “É algo arriscado, o que estou fazendo, estou ciente … Estou colocando a única coisa que tenho sobre a mesa: meu capital político.”

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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