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O silêncio árabe sobre o genocídio uigur não é surpresa alguma

Manifestantes reúnem-se em apoio aos turco-uigures diante de violações de direitos humanos cometidas pelo governo da China, no Parque Orhangazi, em Bursa, Turquia, 20 de dezembro de 2019 [Ali Atmaca/Agência Anadolu]

O silêncio árabe diante do iminente genocídio dos muçulmanos uigures na China é ensurdecedor. Estados árabes supostamente poderosos e influentes assistem inertes enquanto a perseguição continua. Há cada vez mais testemunhos de refugiados uigures e requerentes de asilo sobre as mais inimagináveis formas de crueldade cometidas. Entretanto, quando surgiu a oportunidade de tratar do assunto na ONU, todos os governos árabes na região do Golfo e além optaram por ignorar ou publicamente expressar apoio às violações de direitos humanos executadas pela China. A comunidade internacional possui todas as informações e evidências que precisa para saber que um genocídio está em curso; ainda assim, medidas punitivas contra a China não são exercidas.

A situação do povo uigur, cujo idioma é o turco, é ainda mais perigosa que o surto de coronavírus. Apenas na China, quase 111.500 pessoas foram infectadas e mais de 3.000 pessoas morreram, à medida que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a epidemia uma “emergência de saúde pública de preocupação internacional”. A despeito disso, os campos de “reeducação” na província de Xinjiang – onde possivelmente três milhões de uigures e outros povos nativos são detidos – ainda estão em plena operação, sob risco de se tornarem verdadeiras câmaras de morte, para deleite do governo chinês.

Infelizmente, apesar de algumas condenações e declarações públicas, muito pouco é feito sobre isso em nível internacional. Mesmo a condenação significativa é escassa, muito menos medidas punitivas.

Contudo, o silêncio dos estados árabes não deve ser recebido com espanto algum, dado o virtual abandono de solidariedade em relação aos palestinos, rohingyas e muçulmanos na Índia. Em 2017, os governos de países de maioria islâmica foram acusados reiteradamente de indulgência diante do tratamento de Myanmar ao povo rohingya, que resultou na fuga de 250.000 pessoas ao país vizinho Bangladesh, onde vivem no “maior campo de refugiados do mundo”. Outros milhares foram mortos pelo Exército de Myanmar no estado de Rakhine.

Críticos destacaram os profundos laços financeiros e políticos do Oriente Médio com Myanmar, a fim de esclarecer porque os chamados estados islâmicos simplesmente nada fazem para proteger os muçulmanos rohingyas. A falta de solidariedade da Arábia Saudita foi demonstrada pela repressão implacável contra refugiados rohingya que supostamente entraram no território saudita com vistos de peregrinação, mas permaneceram além do previsto e tentaram obter emprego no país. Cerca de 1.000 refugiados rohingya, incluindo centenas de crianças, foram deportados à força para Bangladesh, após serem mantidos em centros de detenção.

Os rohingyas são agora apátridos, com poucos aliados dispostos a defenderem seus direitos humanos. De fato, trata-se de algo muito parecido com o que ocorre aos palestinos, e ainda mais semelhante ao modo como os nacionalistas hindus de extrema-direita tratam os cidadãos muçulmanos da Índia. É bastante provável que as multidões que agridem muçulmanos na Índia e os políticos que permitem tais linchamentos sintam-se empoderados pela inação dos regimes árabes diante das injustiças contra os povos da Palestina ocupada, os uigures e os rohingyas.

Rohingyas que fugiram das operações militares em curso em Myanmar fazem fila para obter auxílio alimentar em um campo de refugiados estabelecido em Bangladesh, 24 de setembro de 2017 [Safvan Allahverdi/Agência Anadolu]

O Primeiro-Ministro da Índia Narendra Modi, que assumiu o posto em 2014, possui um histórico como ministro-chefe do estado de Gujarat de incitar a perseguição étnica dos muçulmanos na região, em 2002. Modi promoveu a implementação de uma nova lei de cidadania que “cria uma lacuna na lei” para hindus, sikhs, budistas, jainas, parses e cristãos – mas não muçulmanos – serem elegíveis a cidadania. Críticos de todas as comunidades “alegam que a lei ameaça a democracia secular da Índia” como parte de uma “agenda nacionalista hindu”.

O que é comum na Palestina ocupada, Myanmar e Índia é que aqueles por trás da opressão contra as minorias estejam no espectro político da extrema-direita. A limpeza étnica é a ordem do dia.

Muçulmanos em todo o mundo assistiram por décadas ao sofrimento dos palestinos, deslocados à força, submetidos a punição coletiva e negados reiteradamente ao direito legítimo de estabelecer um estado, tudo isso em nome da “segurança”, “autodefesa” e “guerra ao terror” de Israel. Alegações de terrorismo ou apoio ao terrorismo são comuns onde quer que os governos precisem de uma desculpa para oprimir minorias islâmicas.

Hoje, os estados árabes estão abertos à normalização das relações com o estado da ocupação de Israel. Querem beneficiar-se da expertise israelense nos campos de inteligência, militar e segurança, além de obter mais e mais armas e munições israelenses, testadas em campo aberto sobre os palestinos na Faixa de Gaza sitiada e Cisjordânia ocupada.

Esta normalização despudorada, mesmo após a publicação do suposto “plano de paz” de Donald Trump, tende pesadamente em favor de Israel e levanta preocupações de que os estados árabes estejam efetivamente pondo de lado a luta palestina contra a ocupação a fim de proteger laços diplomáticos e econômicos com a Casa Branca. Os mesmo fatores podem ser constatados no fato de que os estados do Golfo contam com a China como um de seus maiores parceiros comerciais – em particular, para exportação de petróleo cru. Deste modo, é fácil perceber por qual razão defender o povo uigur não parece valer a pena para Riad, Abu Dhabi e outros. Assim, os regimes árabes evitam qualquer condenação ao tratamento genocida de Pequim aos uigures islâmicos.

Em campanha agressiva para impedir a discussão sobre os muçulmanos uigures, oficiais da China convenceram muitos países a apoiar seu governo publicamente sobre a questão. Vergonhosamente, os mais notáveis entre estes países são estados islâmicos na África, Ásia e Oriente Médio.

A chamada Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), atualmente adotada pela China, procura construir uma rede de infraestrutura e comércio para conectar Ásia, Europa e África, por meio de rotas comerciais da Antiguidade, muitas delas sobre o Oriente Médio. Até então, Pequim assinou acordos de cooperação da BRI com dezoito estados árabes. Empresas chinesas assinaram contratos no valor de US$ 35.6 bilhões com estes países, dos quais US$ 1.2 bilhões são direcionados a setores de manufatura e energia locais. O comércio entre a China e o mundo árabe alcançou o valor de US$ 244.3 bilhões em 2019.

Quando o Presidente da Turquia Recep Tayyp Erdogan visitou Pequim no meio do último ano, elogiou publicamente a nova “Rota da Seda” para conectar Ásia e Europa e agradeceu os investimentos chineses postos para auxiliar sua necessitada economia. Erdogan manteve silêncio – ao menos em público – sobre o tratamento contínuo dos uigures pelo governo chinês.

Durante uma discussão em podcast com Nury Turkel, advogado residente nos Estados Unidos e defensor dos direitos uigures para a rede internacional The Intercept, Mehdi Hassan destacou que o governo chinês não detém poderes apenas em âmbito doméstico, mas também no exterior. “Sua influência econômica e tamanho significam que governos, inclusive governos ocidentais, não podem ou não irão fazer nada para ajudar os uigures. Como muçulmano, é bastante deprimente ver países de maioria islâmica não apenas se silenciarem sobre este genocídio iminente contra os uigures na China, mas de fato virem a público para apoiar o governo chinês.”

Em momentos como este, manter o silêncio é ser cúmplice da opressão; não se trata, como insistiu celebremente o arcebispo Desmond Tutu da África do Sul, de neutralidade. Os regimes árabes venderam seus irmãos muçulmanos na China pelo preço de laços empresariais com a potência opressora.

É momento para o mundo assumir suas responsabilidades. A opressão ocorre na Palestina ocupada, em Myanmar, Índia e China, ainda hoje. Quem serão as vítimas amanhã? Cidadãos de todos os países devem saber que podem ser os próximos palestinos, rohingyas, indianos islâmicos ou uigures, a menos que os direitos humanos passem a ser tratados com maior seriedade pela comunidade internacional e que não lhes seja permitido serem eclipsados por meras considerações financeiras.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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