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Estados Unidos compraram Sisi por US$ 9 bilhões, mas o povo egípcio não pode ser comprado

Presidente do Egito Abdel Fattah el-Sisi ri com declaração do Presidente dos Estados Unidos Donald Trump em coletiva de imprensa em Nova Iorque, Estados Unidos, 20 de setembro de 2017 [Brendan Smialowski/AFP/Getty Images]

Quando o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou Jerusalém como capital indivisível do Estado de Israel sob o chamado “acordo do século”, o público egípcio questionou se o Presidente Abdel Fattah el-Sisi havia participado da preparação do plano. Seu apoio, afinal, ocorreu apenas meia hora após o anúncio.

Oficialmente, o Egito apoia o estabelecimento de um estado palestino conforme as fronteiras anteriores a 1967, com Jerusalém Oriental como capital. Segundo a rede de notícias egípcia Mada Masr, a declaração de Sisi originalmente incluía uma frase nesse sentido, mas foi mais tarde removida, após passar pela revisão do gabinete presidencial.

Desde quando chegou ao poder, o governo de Abdel Fattah el-Sisi definiu-se decisivamente por ações antipalestinas. Quando o Exército do Egito depôs Mohamed Morsi, em 3 de julho de 2013, uma das primeiras medidas executadas pelos generais egípcios foi o fechamento da travessia de Rafah, entre Gaza e Egito, e a deportação de palestinos que chegavam ao país pelo Aeroporto do Cairo.

Entretanto, em algumas questões, o ditador egípcio tentou preservar o respeito nominal à posição histórica de seu país. Em 2017, foi o Egito que registrou uma moção de repúdio à declaração de Trump de Jerusalém como capital de Israel, diante da indignação global após o anúncio.

O preço da nova posição do Egito foi US$ 9 milhões, quantia prometida no seminário econômico em preparação para o “acordo do século”, realizado no Bahrein em junho último. Trata-se de uma enorme quantidade de dinheiro para o Egito, dadas as condições graves em que se encontra a gestão de Sisi sobre a economia nacional. Tais valores devem conceder bônus generosos aos generais no poder, cuja riqueza sabemos – por meio das denúncias de Mohamed Ali – ter aumentado por meio de corrupção, às custas de seu próprio povo.

De sua parte, Israel conquistou ganhos políticos e econômicos jamais imaginados. Este contexto foi descrito como era de ouro das relações entre Israel e Egito, representadas pela transferência das ilhas de Tiran e Sanafir à Arábia Saudita, o que resultou na abertura do Estreito de Tiran para Israel, além da cooperação de segurança entre os exércitos egípcio e israelense na Península do Sinai.

Como disse certa vez Yehya Okail, ex-parlamentar do Sinai: “Hosni Mubarak era um tesouro para Israel; entretanto, Sisi é muito mais do que isso. Israel jamais imaginou que alguém o serviria de tal forma na história do Egito como fez Sisi.”

O plano de Trump propõe “serviços transnacionais”, incluindo a construção de usinas de energia e dessalinização perto da fronteira entre Egito e Gaza. Observadores debatem há algum tempo os projetos de infraestrutura de Trump para a Península do Sinai, onde há permissão para que os palestinos trabalhem.

À medida que Sisi estabeleceu a base para tais projetos, os beduínos nativos do Sinai sentiram gravemente as consequências dos planos. O governo devastou casas e obliterou terras férteis, sem oferecer qualquer indenização aos habitantes locais por suas perdas. Tudo isso ocorreu sob desculpa de uma suposta “guerra ao terror” no Sinai, combatida pelas autoridades há anos. Além de ser acusado de crimes de guerra cometidos sistematicamente, o Exército do Egito não parece estar mais próximo de uma vitória local sobre os mil militantes estimados na região.

Com o anúncio de Trump, o Egito ganha outra desculpa para intensificar as operações de segurança no Sinai, região já sufocada por um toque de recolher severo e restrições sobre a entrada de bens na península. O povo do Sinai é quem melhor sabe que o aumento da presença de segurança na região é um pretexto para intensificar a repressão. No início da semana, o Egito prendeu 32 mulheres de uma tribo proeminente no Norte do Sinai.

Relatos revelam exigências de líderes militares e da inteligência do Egito para que as forças de segurança estejam em alerta máximo diante dos eventos em Gaza, incluindo uma suposta invasão da fronteira pelos palestinos, para que adentrem no território egípcio. Com isso, o Egito inverteu completamente a narrativa a fim de persuadir o público de que são os palestinos que querem invadir o Sinai, em contraponto com a verdade factual: autoridades egípcias estão se preparando para conceder sua própria terra a comando de Israel e Estados Unidos.

Não é apenas no Sinai que o povo sentirá as consequência da proposta de Trump. Ramy Shaath, cidadão binacional egípcio-palestino, coordenador geral do BDS no Egito, foi aprisionado por denunciar a participação do governo egípcio na conferência do Bahrein. Seu colega, Mohamed El-Massry, também foi preso como parte da repressão do regime contra a solidariedade ao povo palestino. Suas sentenças e condições podem ser ainda afetadas negativamente pelo anúncio de Trump e sua repercussão.

Embora o regime egípcio tenha alterado significativamente sua posição oficial, convencer o público a longo prazo não é tão simples, como tornou-se evidente pela indignação popular em janeiro último, não apenas diante da resposta oficial do governo ao “acordo do século”, mas também porque Israel iniciou na época exportações de gás natural ao Egito no valor de US$ 15 bilhões, conforme acordo que busca normalizar as relações entre os países.

Em seus esforços para convencer corações e mentes, a inteligência do Egito enviou uma série de mensagens de WhatsApp aos mais influentes editores de imprensa no país, com instruções sobre como reportar o anúncio. Requisitou à imprensa que se referisse à proposta como “plano de paz”, ao invés de “acordo do século”, termo repudiado mundialmente, à medida que é visto como esforço americano para assegurar interesses israelenses. Aos editores, foi dito para abordar ou concentrar-se nos elementos nacionais ou religiosos do plano ou indagar a Universidade de Al-Azhar sobre a questão. Também requisitou aos jornalistas que enfatizassem o papel central e histórico do Egito na causa palestina.

Tentativas de controlar a narrativa são generalizadas. Uma fonte do Sinai relatou a mim que duas pessoas foram presas em Arish, na época do Natal, devido a postagens no Facebook sobre Israel. Outro pesquisador relatou que apenas oficiais de alto-escalão do Exército do Egito de fato conhecem a extensão da cooperação entre Egito e Israel no Sinai. Tais incidentes demonstram, contudo, o quão enraizado está o sentimento popular pró-Palestina no Egito, e quão inseguro está o regime. Mas isso não deverá impedir os avanços do “ditador favorito” de Trump, à medida que Sisi pressiona pela implementação do “acordo do século” – em benefício próprio e detrimento de seu povo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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