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A hashtag #FreePalestine e cobertura crítica ao Acordo do Século na América Latina

Manifestações da Palestina contra acordos comeciais com Israel. Em abril de 2019. [BDS Argentina]

Desde que o Acordo do Século foi apresentado por Donald Trump, ao lado de Benjamin Netanyahu, na terça-feira, a hashtag #FreePalestine ocupou os topic trends do twitter por nove horas seguidas, até voltar a dar lugar, com a mudança de fuso horário, ao assustador coronavírus e a manifestações no Japão.

A notícia, prometida desde as primeiras reuniões do genro de Trump, Jared Kushner, com governos interessados em seu rascunho de solução de paz, ocupou as manchetes em todo mundo, e igualmente nos países da América Latina onde as agendas políticas e diplomáticas com Israel têm crescido no último período, em particular após a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil . Mas o tom do noticiário serve de termômetro para o tipo de acolhida da opinião pública à novidade.

Sem a participação nem o atendimento às principais demandas palestinas, a começar por Jerusalém, já havia de antemão uma desconfiança sobre o interesse dos dois protagonistas da notícia em roubar a atenção da mídia neste momento. Uma frase do primeiro ministro palestino, Mohammad Shtayyeh, logo após o anúncio, resume bem a prevenção pública: “Esse plano foi feito para livrar Trump do impeachment e Netanyahu da cadeia”.

Por óbvio, nada mais casado com o calendário dos processos contra os dois. Além do avanço do julgamento do impeachment do americano no Senado, o anuncio do Acordo do século ocorreu “no dia em que Benjamin Netanyahu foi formalmente acusado, em três casos de corrupção”, conforme destacou nas primeiras frases sobre o acordo do século o site Euronews.

Também é razão do descrédito o acelerado avanço dos assentamentos ilegais, a ocupação das colinas de Golã, tudo isso com o aval internacional de Trump. Se existe um sentido de paz na demolição de casas palestinas sob o olhar atônito das famílias retiradas à força, ou no fim dos financiamentos dos EUA à agência da ONU que da assistência aos milhões de refugiados expulsos desde a criação do estado de Israel, este parece bastante insondável para o público.

Existe ainda a percepção de que os sistemas repressivos no mundo cada vez mais se beneficiam das parcerias comerciais e militares estabelecidas em nome do combate ao terrorismo, mesmo onde estas medidas estão mais para vigiar e criminalizar movimentos sociais do que para proteção da sociedade e seus recursos.

A América Latina acaba de registrar uma reunião interministerial de vários países do continente na Colômbia com a pauta difusa do combate ao terrorismo no continente, incluído a participação de Israel como observador. Ainda assim, as reações dos governos da região ao anúncio de terça-feira não foram imediatas. A medida do sentimento latino-americano sobre o plano de Trump esteve mais explicita em várias manchetes da mídia, desde horas antes de se conhecer detalhes do plano. Pela manhã, o Diário UChile questionava se o Acordo do Século seria “um plano para conseguir a reeleição de Netanyahu”.

Os fracassos políticos do israelense, líder do Likud, se acumularam no último ano, não apenas devido aos processos que enfrenta, mas à incapacidade dos eleitos de constituir maioria em apoio a um novo governo, mesmo contando com um parlamento, o Knesset, de avassaladora maioria em posições de direita. Por causa disso, Israel caminha para sua terceira eleição em menos de um ano, e as principais bandeiras em disputa estão entre qual partido irá tomar mais terras dos palestinos, avançando finalmente para uma agenda de anexação total. O principal rival de Netanyahu, Benny Gantz, do partido Azul e Branco,esteve igualmente com Trump para apoiar o mesmo plano.

O questionamento a esse avanço sobre a Palestina está claro na imprensa latinoamericana. O Clarin, da Argentina, anunciou que “Donald Trump apresenta um plano de paz que favorece Israel e gera o repúdio palestino “. E explicou que “a iniciativa implica a anexação do Vale do Jordão e promete investimentos na zona. Mas a proposta teve o total rechaço do mundo árabe.”

O jornal Página 12 noticiou que o anúncio da proposta provocou uma forte reação da Palestina porque “Trump idealizou um plano de paz na medida de Israel”. Os problemas destacados são os assentamentos em território palestino sob o controle de Israel, o respaldo à anexação do Vale do Jordão e a criação de um Estado Palestino “sob estritas condições”.

Na mesma linha escreveu a brasileira Folha de São Paulo: “Trump revela plano de paz que favorece Israel e irrita palestinos”. Um analista considerou que o plano reúne hipocrisia (pela ausência dos palestinos) e realismo (por reconhecer o fracassos dos planos anteriores).

A cubana Prensa Latina deu destaque às manifestações imediatas na Palestina e a notícia dos protestos esteve estampada em vários sites e jornais do continente. Telesur, com base na Venezuela, procurou ouvir ativistas dos movimentos de solidariedade com Palestina, como Armando Soto, do México.

De modo geral, a imprensa latinoamericana deu mais destaque aos problemas e a rejeição ao plano do que ao próprio anúncio de uma proposta de solução factível, que no entanto parece jogada sobre os palestinos como chantagem à uma negociação desfavorável, ao ser colocada pelos Estados Unidos como única e última chance para supostamente barrar a anexação final dos territórios.

Plano de Trump para o Acordo do Século é forçar palestinos sob ameaça de anexação total. [Charge – Lauff/Monitor do Oriente Médio]

O alinhamento automático que alguns governos estão fazendo, especialmente o Brasil, com as políticas e interesses dos Estados Unidos para o Oriente Médio, também parece contradizer o sentimento latino-americano – e mundial – de empatia com os palestinos que se expressa na hashtag #FreePalestine ou #PalestinaLibre.

Jair Bolsonaro reafirmou seu compromisso em transferir a embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém. Honduras e Guatemala já seguiram esse caminho. Também prossegue a campanha pela criminalização do movimento De Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel em solo latino-americano, vide o caso recente da cidade chilena de Valdívia, que se declarou pró-BDS e “a primeira cidade livre do Apartheid Israelense” e foi processada pela comunidade judia junto à Controladoria Geral da República Chilena – que acatou a denúncia. O drama dos palestinos ultrapassa o Oriente Médio. De uma resposta que os contemple depende também o rumo das políticas deste outro lado do mundo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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