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O ciclo sem fim de morte e violência nos países árabes é submetido ao desejo de poder

Membros da defesa civil carregam ferido durante operação de busca e resgate sobre os destroços da aldeia de Baluon, após ataques aéreos executados por forças de Assad e aliados russos resultarem na morte de 19 civis, na zona de desescalada de Idlib, Síria, 7 de dezembro de 2019 [Ahmet Z. Hatib/Agência Anadolu]

É provável que haja um massacre de centenas de milhares de inocentes a menos que os governantes árabes reajam à crise na Síria e demonstrem verdadeira liderança. Temo, entretanto, que a luta dos homens, mulheres e crianças acuados sob as bombas de barril e armas antibunkers do regime não seja prioridade alguma àqueles que supervisionam a destruição final de uma nação já dilacerada pela guerra.

Por que não há mecanismos capazes de contestar a liderança no mundo árabe, onde seus governantes preferem morrer a deixar o poder, mesmo quando seus regimes resultaram em enorme dor, miséria e sofrimento para milhões de pessoas? Estão eles tão embriagados com o poder que não podem ver o sofrimento que os envolve?

Quando o aclamado Nelson Mandela deixou a liderança de 42 milhões de sul-africanos, não apenas entregou seu país em condições melhores – água corrente em 80 por cento das casas, 63 por cento das residências conectadas à rede elétrica, 700.000 novas habitações –, mas também inspirou a admiração de todo o mundo. Há ao menos um único líder árabe capaz de criar legado semelhante ou sequer receber o respeito global do qual desfrutava Mandela?

Em 1999, o lendário combatente pela liberdade também foi honesto o bastante para reconhecer as falhas do governo do Congresso Nacional Africano (CNA), ao referir-se à criminalidade, corrupção e desemprego, mas destacou o fato de que “as fundações foram postas – a construção está em progresso”. Caso escolhesse se manter como presidente por um segundo mandato, poucos teriam reclamado, mas Mandela era um homem que verdadeiramente acreditava na justiça e igualdade. Sabia muito bem que a coisa certa a se fazer era recuar de sua posição central na arena política.

Evidentemente, não é apenas no mundo árabe que líderes possuem histórico de relutarem a deixar o poder. Hugo Chávez realizou sucessivas campanhas pelo fim do limite aos mandatos presidenciais na Venezuela. Robert Mugabe fraudou as eleições no Zimbábue para permanecer no topo durante décadas. Líderes caracterizados por um contexto de libertação nacional – como Mao Tsé Tung, Fidel Castro, Kim Il Sung e mesmo Muammar Gaddafi – também passaram a considerar seus cargos como vitalícios. Vimos inclusive Vladimir Putin, com sua própria porta giratória, transferir seus poderes de presidente a primeiro-ministro e presidente novamente.

Menino procura seus pertences entre os destroços de uma casa destruída por ataques aéreos executados por forças russas sobre a aldeia de Kafr Taal, na zona de desescalada de Idlib, noroeste da Síria, em 20 de janeiro de 2020 [Ibrahim Dervis/Agência Anadolu]

Entretanto, com exceção do Catar – onde o Sheikh Hamad Bin Khalifa Al-Thani renunciou voluntariamente em 2013, a favor de seu filho –, o Oriente Médio é repleto de velhos déspotas frágeis que agarram-se aos seus tronos com o desespero de crianças em brinquedos de parque de diversão. O Supremo Líder do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, comanda a autoridade política e religiosa definitiva do país, impondo sua vontade aos presidentes iranianos eleitos, que de fato são limitados apenas a seu mandato.

Governantes árabes mais jovens não são imunes a tais tentações. O Presidente da Síria Bashar al-Assad, por exemplo, é igualmente viciado no poder, independente dos custos impostos ao povo que governa. Na Síria, o custo dessa fixação com o poder é o duradouro sofrimento submetido aos seus próprios cidadãos. No início dos levantes árabes, em 2011, cerca de 22 milhões de pessoas viviam na Síria; hoje, quase seis milhões estão espalhadas por toda a região e além. Os sírios representam a maior população de refugiados do mundo sob mandato da ONU, além de outros milhões de civis deslocados internamente.

Quando o povo sírio tomou as ruas em protestos pacíficos na primavera de 2011, Assad poderia ter acolhido a iniciativa e estabelecido o diálogo com o seu povo. No outono, entretanto, uma guerra civil generalizada deflagrou-se, a qual atraiu a interferência internacional de agentes estatais como Irã, Rússia e países do Ocidente.

Agora, há um severo impasse do qual Estados Unidos, Grã-Bretanha e outras nações europeias tentam desesperadamente se livrar. Nenhum destes agentes deseja admitir que Assad está à margem da vitória, se é que podemos chamar assim a destruição absoluta de seu país e a aniquilação de seu povo. A verdade é que – mais cedo ou mais tarde – sua vitória será declarada, mas não antes de mais e mais sangue ser derramado.

Confrontos violentos entre forças do governo sírio e combatentes rebeldes foram registrados na província de Idlib, noroeste da Síria, a despeito de um cessar-fogo mediado na última semana por Rússia e Turquia. Nas agressões recentes, ainda mais bombas de barril, armamentos antibunkers e outras formas de munição letal foram despejados pelo exército de Assad e aliados russos contra a população local.

Após nove anos brutais de guerra civil – que destruiu e interrompeu milhões de vidas –, Idlib tornou-se o último reduto dos sírios que buscam fugir dos ataques executados por Assad, milícias iranianas e forças russas. Cerca de 350.000 sírios fugiram para lá até dezembro último e agora vivem em campos de refugiados em meio a lama e água das chuvas, com quase nenhum conforto ou sequer abrigo. No norte, a fronteira com a Turquia está fechada; o país chegou a um ponto de saturação após receber três milhões de refugiados sírios até então.

A última onda de violência começou após aviões de guerra sírios e russos retomarem ataques contra Idlib, onde combatentes rebeldes e grupos jihadistas tentam reconquistar algum controle sobre diversas cidades e aldeias recentemente recapturadas pelo governo sírio e seus aliados.

Civis sírios no campo de refugiados de Sarut, no distrito de Sarmada, em Idlib, Síria, 6 de janeiro de 2020 [Erdal Türkoglu/Agência Anadolu]

“Rússia, Síria e Irã estão matando, ou prestes a matar, milhares de civis inocentes na província de Idlib”, tuitou o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump recentemente – caso raro no qual concordei com suas palavras. Sem a intervenção urgente de alguma potência majoritária haverá outro massacre e ninguém parece sequer se importar com isso, pois a vida é um recurso barato.

Ironicamente, a mesma ebriedade com o poder que aflige os governantes do Oriente Médio também é evidente em solo na região de Idlib, onde Abu Mohammad Al-Julani autodeclara-se emir e comandante em chefe do Tahrir al-Sham. Sua liderança sombria corresponde em diversas formas ao modelo dos líderes árabes. Aqueles que ousaram criticá-lo foram jogados na prisão. Em outras palavras, mesmo que, por algum milagre, os rebeldes sejam capazes de ressuscitar a revolução, o objetivo de sua liderança não será distinto: substituir um déspota por outro.

Um dos mais populares clichês sobre o gênio de Albert Einstein é sua máxima sobre insanidade: fazer o mesmo uma e outra vez e esperar resultados diferentes. Ainda assim, entretanto, a última esperança deixada aos sírios que não desejam a liderança de Assad é outro líder com mentalidade bastante similar. Julani deixou claro que não renunciará, mesmo contestado por muitas lideranças rebeldes que deixaram a coalizão do Tahrir al-Sham devido à sua postura, em 2015.

Caso o Tahrir al-Sham fosse uma entidade corporativa, seus acionistas teriam se rebelado e votado pela deposição de seu chefe executivo. Os sinais de alerta eram claros em 2017, quando o Sheikh Abdullah Mohaysini e o Sheikh Abdur Razaq Mahdi abandonaram o grupo após pouco ou nenhum progresso feito pelo lado rebelde.

Países como Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França e Alemanha podem exercer um papel fundamental neste contexto, mas enquanto não houver um compromisso real do Ocidente em encontrar uma solução para o problema, ninguém terá qualquer interesse. Este fato ilustra mais uma vez a incapacidade da ONU em cumprir seu propósito. Até que um mecanismo seja estabelecido no qual uma mudança de liderança possa ser levada à Síria de modo pacífico, os inocentes continuarão a morrer. O mesmo pode ser dito sobre o Iêmen e outros países afogados no sangue de seu próprio povo.

Em todo o mundo, a violência e a injustiça persistem; cerca de 70 milhões de pessoas fogem hoje das zonas de guerra, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Violações extremas de direitos humanos como genocídio ou limpeza étnica são frequentes nos contextos de instabilidade política, social ou econômica.

A menos que sejamos capazes de interromper os sintomas e começar a buscar as causas para o problema, tais estatísticas sinistras de fato definirão o século XXI. O ciclo sem fim de morte e violência nos países árabes deve-se à fome de poder daqueles que os governam. Não há sequer um deles interessado em um legado duradouro, alguém que possa demonstrar humanidade e compaixão em relação ao povo do Oriente Médio? Ou simplesmente sacudiremos a poeira e viraremos as costas à medida que estes velhos governantes são depostos para dar lugar a herdeiros diretos ou indiretos – versões II, III, IV e mais?

LER: Treze crianças estão entre os 50 mortos em dez dias nos conflitos no norte da Síria, afirma relatório

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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