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Em nome da ‘segurança de Israel’, Estados Unidos em retirada destina bilhões em apoio militar

Forças israelenses fazem patrulha em Jerusalém, em 24 de dezembro de 2019 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

Bilhões de dólares do contribuinte americano continuarão a afluir em Israel pelo próximo ano fiscal, e por muitos outros anos em um futuro próximo. Senadores republicanos e democratas recentemente garantiram este fato, ao aprovar um projeto de lei com o objetivo de fornecer a Israel US$ 3.3 bilhões em auxílio militar anualmente.

O projeto de lei, de co-autoria do Senador democrata Chris Coons (Delaware) e do republicano Marco Rubio (Flórida), foi aprovado em 9 de janeiro deste ano, apenas um dia depois do ataque iraniano sobre posições americanas no Iraque. O entusiasmo para aprovar a lei pretendeu garantir a Tel Aviv que Washington permanece comprometido com a segurança e a superioridade militar de Israel no Oriente Médio.

A despeito de uma noção palpável de que os americanos estão exaustos de inúmeras guerras consecutivas, independente de posição política, o país continua a mergulhar de cabeça nos conflitos no Oriente Médio, simplesmente porque é incapaz de – ou talvez sequer deseja – desafiar os benfeitores israelenses espalhados pelo governo americano. “O que é bom para Israel é bom para a América” continua a ser a máxima absoluta na mentalidade das elites políticas de Washington, apesar do fato de que este pensamento irracional levou a desastres atrás de desastres no Oriente Médio como um todo, e finalmente compele os Estados Unidos a uma retirada apressada e humilhante.

O último pacote de apoio a Israel registrará oficialmente em lei um “memorando de entendimento” assinado entre o governo de extrema-direita israelense do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e a administração de Barack Obama, em 2016. Na época, Obama ofereceu a Israel o maior pacote de apoio militar na história dos Estados Unidos.

O Senador Rubio justificou a aprovação do projeto recente em termos de “ameaças sem precedentes”, supostamente enfrentadas por Israel. Coons, por sua vez, afirmou que “os eventos dos últimos dias [a escalada entre Irã e Estados Unidos] representaram uma lembrança árdua da importância da assistência americana à segurança de Israel.”

O que é particularmente estranho na declaração de Coons é o fato de que não foram posições israelenses, mas sim americanas no Iraque, aquelas atingidas por mísseis iranianos, disparados em resposta à execução de Qasem Soleimani, mais proeminente general do Irã.

Ainda assim, o financiamento das aventuras israelenses com dólares do contribuinte americano continuam sem cessar, a despeito da rápida mudança na realidade política do Oriente Médio, e das transformações sofridas no papel dos Estados Unidos na região. Isso confirma mais uma vez que o apoio cego dos Estados Unidos a Israel não se motiva por uma estratégia centralizada e nitidamente americana, cujo enfoque reside nos próprios interesses do país. Ao contrário, o financiamento incondicional – por vezes, autodepreciativo – do governo americano à máquina de guerra israelense está relacionado amplamente às políticas internas dos Estados Unidos e, de fato, ao poder sem paralelo mantido pelo lobby sionista nos corredores da política americana.

Refugiados palestinos exibem bandeiras durante protesto contra decisão da UNRWA de cortar auxílios e reduzir planos em Belém, na Cisjordânia ocupada, em 26 de setembro de 2018 [Wisam Hashlamoun/Agência Anadolu]

Segundo o Centro de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, instituto de pesquisa sobre políticas pública com sede em Washington, entre 1946 e 2019 (incluindo recursos requeridos para 2020), o apoio americano a Israel excedeu os índices de US$ 142 bilhões. A maior parte desta imensa soma de dinheiro – mais de US$ 101 bilhões – foi encaminhada diretamente ao orçamento militar de Israel, enquanto US$ 34 bilhões e US$ 7 bilhões foram orientados como apoio econômico e recursos de defesa antiaérea, respectivamente.

Com o tempo, torna-se cada vez mais óbvio que os Estados Unidos não mais possui uma estratégia centralizada e bem definida sobre o Oriente Médio. O Presidente Donald Trump altera cotidianamente as prioridades americanas de um discurso para o outro – ou mesmo de um tuíte para outro. Entretanto, uma sentença fundamental e bastante consistente em qualquer agenda política a ser defendida por Washington na região, em qualquer momento particular, será esta: “segurança de Israel”.

Este termo precário parece estar relacionado a toda e qualquer ação americana que se refere ao Oriente Médio, como ocorre há décadas independente da gestão americana no poder, sem exceções. Guerras foram lançadas ou financiadas em nome da segurança de Israel; direitos humanos foram violados em escala de massas; as cinco décadas – ainda em curso – da ocupação militar sobre a Palestina, o prolongado cerco sobre a Faixa de Gaza empobrecida e muitos outros problemas, todos foram executados, defendidos e mantidos em nome da “segurança de Israel”.

O apoio dos Estados Unidos a Israel – estado ocupante – continuam a crescer, à medida que o apoio americano ao povo palestino – sob ocupação – foi cortado reiteradamente, incluindo os US$ 300 milhões anuais em doações à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), órgão da ONU responsável pelo bem-estar dos refugiados palestinos. Desde 1949, a agência concedeu meios e recursos à educação, saúde e abrigo a milhões de refugiados palestinos; agora, de modo bastante bizarro, é retratada por Israel e Estados Unidos como “obstáculo para a paz”.

Inexplicavelmente, Israel recebe aproximadamente “um terço do orçamento americano voltado a assistência internacional, mesmo que possua apenas 0.001 por cento da população global e já possua uma das mais altas rendas per capita do mundo,” escreveu o professor Stephen Zunes em artigo publicado pelo Washington Report on Middle East Affairs.

Este imenso orçamento inclui mais de US$ 3.3 bilhões anuais em financiamento militar direto, mas outras quantias e benefícios raramente chegam às manchetes dos jornais. Um valor entre US$ 500 milhões e US$ 800 milhões é concedido a Israel anualmente como parte do pacote de defesa antiaérea; outro US$ 1 bilhão beneficia Israel na forma de doações dedutíveis da carga tributária, enquanto US$ 500 milhões também são investidos nas relações internacionais israelenses.

Há também garantia de empréstimos, em que o governo dos Estados Unidos assume a responsabilidade pelos bilhões de dólares que Israel pode eventualmente adquirir de credores internacionais. Caso Israel não realize os pagamentos de seus empréstimos, é responsabilidade legal do governo americano compensar os juros sobre o valor emprestado.

Desde 1982, Israel recebe o apoio americano como um montante único, em contraponto a pagamentos agendados, como é praxe com outros países. Para cumprir com suas obrigações autoimpostas em relação a Israel, o governo dos Estados Unidos, por sua vez, compromete-se também com empréstimos internacionais e, portanto, tem de pagar juros sobre juros. “Mesmo Israel empresa algum dinheiro de volta ao tesouro americano e então coleta os juros adicionais”, destacou Zunes.

As relações dos Estados Unidos com Israel não são governadas pelo tipo de sabedoria política que pressupõe o benefício mútuo. Contudo, tampouco são irracionais, pois as elites americanas de fato possuem seus interesses alinhados com a percepção pública sobre o Oriente Médio e o papel dos Estados Unidos na região, incluindo o apoio a Israel, graças a anos e anos de doutrinação oficial e midiática.

Apesar da retirada factual dos Estados Unidos da região, sem qualquer estratégia ou perspectiva futura, legisladores em Washington saúdam a si mesmos pela aprovação de mais outro generoso pacote financeiro destinado a Israel. Sentem-se orgulhosos de seu grande feito pois – de acordo com seu raciocínio distorcido – a “segurança de Israel” é a única garantia da hegemonia dos Estados Unidos no Oriente Médio. Esta é uma teoria, contudo, que mostrou-se falsa, sucessivamente.

LER: Palestina está sob múltiplas ocupações

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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