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O ‘Grande Jogo’ em movimento: matar Soleimani reflete desespero dos Estados Unidos no Oriente Médio

Manifestantes carregam imagem de Qassem Soleimani, comandante das Forças al-Quds, grupo de elite da Guarda Revolucionária do Irã, assassinado por ataque aéreo americano em Bagdá, durante um protesto na Praça Palestina, em Teerã, Irã, 4 de janeiro de 2020 [Fatemeh Bahrami/Agência Anadolu]

Ao assassinar o comandante militar iraniano Qassem Soleimani, líderes americanos e israelenses demonstraram o significado da expressão “sair da frigideira direto para o fogo”.

O Presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu estão ambos sob enorme pressão, tanto política quanto legal – o primeiro sofre um processo de impeachment e o último foi indiciado pelo Procurador Geral de Israel em investigações sobre graves casos de corrupção.

Em desespero, sem alternativas e unidos por uma causa comum, ambos os líderes buscavam uma distração de larga escala, capaz de situá-los positivamente diante da opinião pública em seus respectivos países – então encontraram.

O assassinato do mais proeminente general da Guarda Revolucionária do Irã e comandante da unidade de elite conhecida como Forças al-Quds, Qassem Soleimani, em 3 de janeiro, ao lado de diversos líderes militares iranianos e iraquianos, executado por um drone americano, foi uma demonstração do nível de desespero dos Estados Unidos e Israel.

Embora não haja qualquer confirmação – tampouco negaram – de participação israelense na operação americana, é meramente lógico assumir seu envolvimento indireto ou mesmo direto no assassinato.

No decorrer dos últimos meses, a possibilidade de uma guerra contra o Irã mais outra vez ganhou impulso, ao assumir o topo das agendas e discursos políticos de diversas autoridades israelenses em política internacional. Netanyahu, politicamente acuado, reiterou incessantemente seus apelos aos amigos de Washington para que aumentassem a pressão imposta a Teerã.

“O Irã intensifica suas agressões enquanto falamos,” alegou Netanyahu em 4 de dezembro, durante um encontro com Mike Pompeo, Secretário de Estado dos Estados Unidos. “Estamos ativamente engajados em responder a tais agressões.”

É possível pressupor o que significam tais “engajamentos ativos” potencialmente empregados pela militância declarada do Estado de Israel neste contexto.

Sobretudo, as tradicionais impressões digitais do Mossad, departamento de inteligência israelense, estão ostensivamente presentes no assassinato. Não é absurdo pressupor que o ataque contra a comitiva de Qassem Soleimani perto do Aeroporto Internacional de Bagdá seja uma operação conjunta entre CIA e Mossad.

ler: Assassinato de Soleimani: Estados Unidos declaram guerra ao Irã

É bastante conhecido o fato de que Israel possui mais experiência em assassinar alvos precisos no Oriente Médio do que todos os países da região juntos. Israel é responsável por matar centenas de ativistas palestinos e árabes dessa maneira. O assassinato de Imad Mughniyah – líder militar de alto escação e segundo em comando da organização libanesa Hezbollah – em fevereiro de 2008, na Síria, foi somente um destes assassinatos.

Não é segredo também que Israel está se coçando por uma guerra contra o Irã. Apesar de sua insistência, todos os esforços de Tel Aviv fracassaram em incitar uma guerra liderada pelos Estados Unidos similar à invasão do Iraque, em 2003. O máximo que Netanyahu pôde conquistar em termos de apoio americano a esse respeito foi a decisão do governo de Trump de rejeitar o compromisso dos Estados Unidos diante da comunidade internacional, ao revogar unilateralmente o acordo nuclear com o Irã, em maio de 2018.

A guerra tão cobiçada por Israel parecia certa quando o Irã, após várias provocações e imposição de ainda mais sanções por Washington, derrubou um veículo não-tripulado americano que, segundo alegações iranianas, violou o espaço aéreo do país, em 20 de junho de 2019.

Mesmo diante dessa crise, a resposta dos Estados Unidos não chegou ao ponto de estabelecer a guerra em larga escala que Netanyahu desejava tão fanaticamente.

Contudo, muito aconteceu desde então, incluindo o reiterado fracasso de Netanyahu em vencer uma série de eleições não decisivas, o que garantiria ao líder israelense mais outro mandato como primeiro-ministro. Entretanto, permanecem os receios de que Netanyahu encontre-se por fim atrás das grades, acusado de operar um enorme sistema de propina e abuso de poder.

Trump também enfrenta reveses políticos, por sua vez devido às suas ações erráticas e irresponsáveis no cargo de presidente. A aprovação oficial de seu pedido de impeachment pela Câmara de Representantes dos Estados Unidos, em 18 de dezembro, foi a última de uma série de más notícias. Trump também dependia de algum estímulo político para permanecer relevante.

Se há algo em comum para legisladores democratas e republicanos em geral é o fato de que ambos desejam maiores intervenções militares no Oriente Médio, a fim de manter uma forte presença militar na região rica em petróleo e gás natural. Tal ansiedade refletiu-se pelo tom quase comemorativo assumido por oficiais, generais e comentaristas da imprensa americana após o assassinato do comandante iraniano em Bagdá.

Oficiais israelenses também demonstraram-se flagrantemente excitados com a notícia. Imediatamente após o assassinato de Qassem Soleimani, líderes e oficiais israelenses emitiram declarações e postagens no Twitter em apoio à operação americana.

Netanyahu, por sua vez, declarou: “Israel tem o direito de se defender. Os Estados Unidos têm o exato mesmo direito … Soleimani é responsável pelas mortes de cidadãos inocentes do Estados Unidos e muitos outros. Soleimani planejava novos ataques.”

A última alegação em particular – “planejava novos ataques” – reafirma a óbvia cooperação de informação e inteligência entre Washington e Tel Aviv.

Benny Gantz, equivocadamente celebrado como “moderado”, não foi menos militante em seus comentários. No que se refere a assuntos de segurança nacional, Gantz afirmou: “Não há coalizão ou oposição.” O general israelense ainda reiterou: “O assassinato de Soleimani é uma mensagem a todos os líderes do terrorismo global: que esteja sobre suas cabeças.” Vale recordar que Benny Gantz foi o responsável pela morte de milhares de palestinos inocentes em Gaza e outros lugares.

O Irã certamente responderá, não apenas contra alvos americanos mas também israelenses, pois o governo em Teerã está convencido de que Israel exerceu um papel fundamental na operação contra Soleimani. A questão urgente refere-se mais à natureza e ao momento da resposta iraniana. Quais serão os limites de uma ação iraniana a fim de enviar uma mensagem ainda mais contundente a Washington e Tel Aviv? O governo iraniano será capaz de comunicar uma mensagem decisiva sem conceder a Netanyahu seus desejos de uma guerra em larga escala entre Irã e Estados Unidos?

Eventos recentes no Iraque – os protestos em massa e a tentativa de manifestantes desarmados de invadir a Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, em 31 de dezembro – são, de algum modo, um divisor de águas. A princípio, foram vistos como uma resposta indignada a ataques aéreos americanos contra um grupo paramilitar iraquiano apoiado pelo Irã, executados no domingo anterior (29); entretanto, os protestos tiveram também consequências involuntárias, particularmente perigosas diante de uma perspectiva militar e estratégica dos Estados Unidos. Pela primeira vez desde a espúria “retirada” americana do Iraque, sob a administração de Barack Obama, em 2012, um novo consenso coletivo passou a maturar-se entre cidadãos comuns iraquianos e seus representantes para que o Estados Unidos deixassem o país de uma vez por todas.

Agindo rapidamente, os Estados Unidos – com palpável orientação israelense – assassinaram Qassem Soleimani a fim de enviar uma mensagem clara e direta ao Iraque e ao Irã: exigir ou mesmo esperar a retirada das tropas americanas do território iraquiano é uma linha vermelha que não deve ser ultrapassada – deve ficar evidente a todo o Oriente Médio que a retirada americano na região não será repetida no Iraque.

O assassinato de Qassem Soleimani seguiu-se por ainda outros ataques aéreos americanos sobre aliados do Irã em território iraquiano, a fim de também enfatizar como fato o grau de seriedade e compromisso dos Estados Unidos a um provável confronto armado.

Embora o Irã por ora pondere em suas respostas, também está ciente das consequências estratégicas e geopolíticas de suas decisões. Um movimento iraniano contra os interesses de Israel e Estados Unidos teria de ser bastante convincente do ponto de vista do Irã e seus aliados, contudo – vale reiterar – sem comprometer-se em uma guerra de larga escala.

De qualquer modo, o próximo movimento iraniano deverá definir as relações israelo-americanas na região para os anos porvir e intensificar ainda mais o chamado “Grande Jogo” em curso na região, tanto em âmbito local quanto internacional.

O assassinato de Qassem Soleimani também pode ser visto como uma mensagem clara a Rússia e China: os Estados Unidos estão dispostos e prontos a incendiar toda a região caso necessário, a fim de manter sua presença estratégica e servir seus interesses econômicos – que residem fundamentalmente no petróleo e gás natural árabe e iraquiano.

Tais ações ocorrem em paralelo a uma operação naval conjunta entre Irã, China e Rússia no Oceano Índico e no Golfo de Omã, iniciada em 27 de dezembro de 2019. As notícias de tais exercícios militares devem ter sido particularmente alarmantes ao Pentágono, à medida que o Irã, supostamente isolado e intimidado, torna-se cada vez mais um ponto de acesso regional estratégico às potências militares de China e Rússia, emergentes e ressurgentes, respectivamente.

Qassem Soleimani era um comandante iraniano, mas sua enorme rede de contatos e alianças militares na região e além tornou seu assassinato uma mensagem contundente enviada por Washington e Tel Aviv, alertando a região e o mundo de que estão prontos e absolutamente dispostos a erguer suas apostas.

A jogada agora é do Irã e de seus aliados.

A julgar por experiências passadas, é provável que Washington arrependa-se do assassinato do general iraniano nos anos que virão.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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