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Reconhecimento de um estado palestino sem libertação é ilusão

Ministro das Relações Exteriores do Luxemburgo, Jean Asselborn [Foto de arquivo]

Durante a cúpula do Conselho Europeu de Berlim em 1999, a União Européia declarou “sua prontidão em considerar o reconhecimento de um Estado palestino no devido tempo”, dependendo condicionalmente da estrutura de Oslo, bem como “a segurança de Israel e a aceitação de Israel como parceiro igual na região”. Duas décadas depois, a UE ainda está sendo solicitada a reconhecer um estado palestino.

A última recomendação veio do ministro das Relações Exteriores do Luxemburgo, Jean Asselborn, como uma reação aos EUA revertendo sua posição oficial sobre a legalidade dos assentamentos israelenses. No entanto, o próprio Asselborn enfatizou as limitações de tal medida, descrevendo-a como “um mero reconhecimento do direito do povo palestino ao [seu] próprio estado”. Falando à Reuters, Asselborn insistiu que esse reconhecimento “não seria contra” Israel, mas um passo em direção à implementação do paradigma de dois estados.

Em outras palavras, esse reconhecimento meramente afirmaria a consistência da UE com sua política externa. De maneira alguma o reconhecimento da UE de um Estado palestino visa promover a libertação palestina. Além disso, as constantes reações políticas aos EUA e Israel, que avançam na expansão colonial na Palestina, estão tornando insignificante qualquer possível significado do reconhecimento.

O Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) destacou as razões pelas quais o Parlamento Europeu deveria votar a favor de um Estado palestino, mencionando, entre outras coisas, o “significativo investimento financeiro da UE na solução de dois estados”. De particular importância é como o ECFR vincula o reconhecimento de um estado palestino à suposta legitimidade de Israel, como evidenciado por sua declaração de que: “Reconhecer um estado palestino baseado nas fronteiras de 1967 reafirma o apoio da UE à solução de dois estados e à legitimidade de Israel”.

Além disso, o ECFR opinou que esse reconhecimento “provavelmente teria uma influência restritiva” sobre os palestinos que recorrem à resistência armada. O Conselho sustentou que, no caso de “nenhum progresso com Israel, pelo menos tudo não está perdido no mundo e que sua liderança [palestina] pode alcançar um sucesso diplomático”.

O que o ECFR deixa de mencionar é que os sucessos diplomáticos dos palestinos, condicionados por instituições poderosas alinhadas às demandas de Israel, são respostas e não reivindicações de direitos. O fato de a Autoridade Palestina estar no comando, endossando esse labirinto de meias-verdades que protegem Israel a todo custo, cria perspectivas sombrias para o povo da Palestina. Uma coisa é advogar pelo paradigma de dois estados e outra é transmitir o mesmo que faz a AP ao rastejar em nível internacional, priorizando a presença e a narrativa de segurança de Israel às custas da terra e do povo palestinos, que é tudo que o compromisso dos dois estados significa, como esplicita o ECFR.

Mesmo se emitisse tal reconhecimento, a UE não se afastaria do seu compromisso de manter os palestinos como um projeto humanitário. O reconhecimento do Estado sem sua equivalência em termos de terra, soberania e povo libertado é tão enganoso quanto a construção do estado para o qual a UE financia a AP, em troca de sua total concordância com o paradigma de dois estados que mantém os palestinos sem Estado. Sem alterar sua política, a retórica da UE e as concessões simbólicas prolongadas servirão apenas para destacar o fato de que um estado palestino sem libertação palestina é uma ilusão.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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