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Ataques incendiários são o último avanço da guerra às escuras dos Estados Unidos contra o Irã

Banco danificado por incêndios após protestos contra o preço do petróleo no distrito de Karaj, em Pardis, na província de Teerã, Irã, 20 de novembro de 2019 [Fatemeh Bahrami/Agência Anadolu]

Os recentes protestos no Irã e em seu vizinho Iraque são baseados em demandas legítimas. Entretanto, como também ocorreu no Iraque, houve elementos no Irã que executaram ataques incendiários contra instituições públicas e estatais. Embora reconheça o direito ao protesto pacífico, ambos os governos deixaram claro que tais ações não serão toleradas.

As principais preocupações do povo nas ruas são econômicas, ao contrário de uma eventual mudança no regime reconhecido internacionalmente. Como a região ampla já testemunhou, tais reformas não beneficiam os cidadãos comuns e levam apenas à anarquia. A repressão severa que resultou na morte de civis é certamente deplorável, mas enxergar os distúrbios como caso isolado seria ignorar o fato de que a atmosfera econômica na qual os protestos emergiram é vigente devido a sanções absolutamente restritivas impostas pelos Estados Unidos sobre o Irã, como parte de uma duradoura guerra de atrito executada às escuras contra a república islâmica.

Os Estados Unidos estão em guerra indireta contra a República Islâmica do Irã desde a revolução há quarenta anos atrás, e intervêm nos assuntos do país há muito tempo antes. Foi o golpe orquestrado pela CIA que deu fim ao período democrático em 1953 e reintegrou o Xá iraniano no poder, que mais tarde seria deposto pela revolução islâmica. Após o golpe e a consequente revolução, o Aiatolá Khomeini retornou do exílio, em 1° de fevereiro de 1979, e foi recebido por milhões de iranianos que conduziram a revolução. Desde então, sucessivas administrações americanas buscaram acabar com o regime no Irã. O ex-presidente americano Ronald Reagan apoiou Saddam Hussein durante a Guerra entre Irã e Iraque de 1980-88, tanto financeiramente quanto por cooperação de inteligência e envio de armas, apesar de estar bastante ciente do uso de armas químicas contra tropas do Irã. Não obstante, houve também algum grau de colaboração entre Estado Unidos e Irã em incidentes como o caso Irã-Contra e na guerra contra o Talibã, no Afeganistão.

A pressão americana por uma guerra contra o Irã tornou-se mais explícita nos anos recentes, notavelmente sob gestão do Presidente George W. Bush, que em 2002 classificou o Irã, Iraque e Coreia do Norte como “Eixo do Mal”. O Irã e sua aliada Síria seriam mais tarde ameaçados e isolados, em 2005, dois anos depois da queda de Saddam após a intervenção no Iraque, liderada pelos Estados Unidos. O governo do Presidente Barack Obama tentou então realizar uma política de contenção, mas a atual administração de Donald Trump optou por uma estratégia de “máxima pressão”, abandonando o chamado Plano de Ação Conjunto Global de seu antecessor, também conhecido acordo nuclear iraniano, de 2015. Diante das sanções reinstauradas contra o Irã sobre seus setores finaceiro e energético, o país islâmico deixou claro que não abrirá mão de sua independência.

“O mundo está vendo,” afirmou o Secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo no início desta semana, referindo-se ao último ciclo de distúrbios civis no Irã. Os protestos, que começaram na última sexta-feira (15), foram causados por aumentos de cinquenta por cento nos preços de combustíveis subsidiados pelo Irã. Entretanto, como informou a rede de notícias South Front, a decisão pretende levantar cerca de US$ 2.5 bilhões por ano para subsídios diretos encaminhados para 18 milhões de famílias pobres no Irã, o que corresponde a cerca de 60 milhões de iranianos de baixa renda. Até o dia 19 de novembro, o governo iraniano passou a executar tais pagamentos diretos aos cidadãos mais pobres neste país de 80 milhões de habitantes.

Tais medidas são consideradas “aparentemente independentes” pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A agência Reuters mencionou Camilla Andersen, porta-voz do FMI, ao afirmar: “Em geral, o FMI continua a aconselhar países produtores de petróleo no Oriente Médio e na Ásia Central a reduzirem seus subsídios a combustíveis… à medida que estão compensando os mais pobres com transferências financeiras diretas, o que compreendemos ser a abordagem assumida pelo Irã.”

O website do FMI detalha ainda mais a questão: “Todos os consumidores – pobres e ricos – beneficiam-se dos subsídios ao pagar preços mais baixos. Os governos podem obter um resultado melhor ao remover ou reduzir os subsídios e orientar o capital diretamente para programas de auxílio somente aos mais pobres. Subsídios encorajam o consumo excessivo de energia, que acelera o gasto de recursos naturais.” O FMI ainda antes fez um apelo para o aumento dos impostos referentes à emissão de carbono por todo o mundo, a fim de atenuar as consequências do aquecimento global.

Os efeitos das sanções impostas levaram os cidadãos iranianos comuns a saírem às ruas e protestarem. Tais cidadãos já sofrem da falta de remédios essenciais, o que é uma violação de seu direito de acesso à saúde conforme relatório do Observatório de Direitos Humanos. Ainda assim, somos levados a crer que o governo dos Estados Unidos não é contrário aos interesses do “grande povo iraniano”. Mohammad Javad Zarif, Ministro de Relações Internacionais do Irã, condenou as alegações de Pompeo de solidariedade com os iranianos comuns como uma “mentira vergonhosa”.

A abordagem de “máxima pressão” dos Estados Unidos fracassou consistentemente até então, pois somente resultou em uma postura ainda mais firme do Irã, além de incentivar a república islâmica a apoiar aliados estrangeiros e pressioná-la talvez a se aproximar cada vez mais da “bomba”. No início deste mês, foi relatado que o Irã começou a enriquecer urânio em uma taxa de cinco por cento, excedendo o limite de 3.67 por cento estabelecido pelo acordo de 2015.

Também é esperado do público que acredite que o governo iraniano está assassinando manifestantes pacíficos de modo absolutamente irracional, embora a verdade é que há de fato agentes provocadores violentos no entremeio dos protestos, que incendeiam propriedades públicas, como bancos, delegacias e postos de combustíveis; até mesmo uma biblioteca foi alvo de tais atentados. Um usuário do Twitter questionou como as autoridades americanas reagiriam caso os manifestantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) pusessem fogo em lixeiras e afins. As reações podem divergir, mas nenhum governo deve tolerar ataques incendiários contra instituições estatais. De modo razoavelmente revelador, o diplomata dos Estados Unidos Richard Grenell já afirmou que algo “está sendo feito”, mas não quis detalhar o assunto.

Enquanto isso, o Presidente do Irã Hassan Rouhani declarou e reafirmou que o povo iraniano é livre para protestar, mas alertou que seu governo não pode permitir “insegurança” ou tolerar “tumultos e anarquia”. O Ministério de Inteligência em Teerã aparentemente identificou diversos arruaceiros que fizeram uso dos protestos para encobrir atentados incendiários contra instituições públicas. Um relato sugere que tais elementos recebiam pagamentos de US$ 60 por ataques incendiários executados de forma bem sucedida. A tranquilidade foi amplamente restaurada no país no momento em que este artigo foi escrito.

O povo do Irã não é ingênuo o suficiente para reivindicar uma mudança radical no regime, apesar de estar frustrado com certas políticas do governo. Os iranianos sabem muito bem que isso só levaria a maiores instabilidades e escalada de violência. Sobretudo, sabem bem que isso só serviria aos interesses de estados hostis.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, uma guerra às escuras contra o Irã é uma aposta mais segura do que uma invasão dispendiosa. No entanto, a última escalada terá como resultado somente o fortalecimento da determinação iraniana em defender sua independência e necessidade de desenvolver suas habilidades defensivas. Deve-se considerar também algum grau de retaliação velada ou por procuração. Nada é certo neste contexto tão obscuro.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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