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‘Estamos procurando por brechas no muro de Israel’

Ainle O Caireallain, arquiteto-chefe do projeto Academia Comunitária na Palestina [Eddie Hennessy]

“As pessoas me perguntam: ‘Por que você quer construir uma academia? Os palestinos não têm problemas maiores, como acesso à água e comida?’”“É uma pergunta válida,” relata Ainle O Caireallain, arquiteto-chefe do projeto Academia Comunitária na Palestina, em entrevista ao Monitor do Oriente Médio. “A Palestina está do outro lado do mundo e o povo palestino está sob ocupação militar, então é um projeto difícil.”

Ainle planeja abrir uma academia no campo de refugiados de Aida, lar de aproximadamente 3.000 palestinos, cujas famílias foram deslocadas durante a Nakba de 1948. Localizado à sombra do Muro da Separação de Israel, o campo fica entre a cidade de Belém, na Cisjordânia, e Jerusalém, e possui menos de 1km² de extensão.

“A área de superfície do campo não mudou desde sua formação em 1950,” Ainle esclarece, “então tiveram de construir de forma sobreposta, as ruas são bastante estreitas e as condições de vida são bastante difíceis.”

“Quando estive lá em agosto, não fui com a intenção de planejar o estabelecimento de uma academia na Palestina, é claro.”

“Eu estava conversando com um dos fundadores do Centro Lajee, Salah, sobre as condições de vida no campo e os diferentes problemas que o conflito [israelo-palestino] causam nas pessoas, como alta pressão sanguínea, altos níveis de diabetes, problemas de saúde mental, etc.”

“Eu comentei com Salah, ‘você já pensou alguma vez em abrir uma pequena academia ou uma área de recreação para adultos aqui?’, como forma de lidar com alguns desses problemas de saúde. … Ele respondeu que simplesmente não havia recursos para um projeto como esse. Eles são realmente seletivos sobre suas fontes financeiras e o dinheiro que vai para a Cisjordânia é limitado. Salah não via, portanto, como seria possível.”

Ainle descreveu essa conversa como um momento de inspiração. Na ocasião, o arquiteto não contou a Salah sobre o projeto que fundou em seu país de origem, o Aclai (pronunciado ak-le), uma academia comunitária no sul da cidade de Cork, na Irlanda do Norte.

“Quando as pessoas me perguntam porque quero construir uma academia na Palestina, isso se resume ao fato de que é o melhor que fazemos. É o que fazemos por anos para as pessoas de Cork, e agora compartilhamos essa experiência com os nossos amigos lá [na Palestina].”

Aclai não é uma academia comum. Como elucida o fundador do projeto, as academias podem ser ambientes intimidadores, já que a indústria fitness é bastante focada nas aparências e nas conquistas individuais. “Na academia, em geral, há muitas pessoas em uma mesma sala, embora ninguém se comunique com ninguém. Dizem que você nunca está mais sozinho do que quando está no meio de várias pessoas. Na maioria das vezes, em uma academia, você está sozinho com seus próprios pensamentos.”

“Na Aclai nos propomos a mudar essa mentalidade,” reitera Ainle. “Em uma sessão de treinamento, nós trazemos quatro pessoas a cada hora, cada qual com habilidades e objetivos distintos. Dentre elas, podemos ter um usuário de cadeira de rodas, um competidor de triatlo e alguém que só deseja perder peso.” E reitera: “[Nosso projeto] se trata de criar oportunidades iguais para todos.”

“Temos também um clube do livro uma vez por mês; temos biblioteca na academia, embora seja uma biblioteca bastante liberal,” ele brinca, destacando as obras de Ilan Pappé e Noam Chomsky como evidência dessa afirmação. “Realizamos almoços em mesas compridas, colocamos uma mesa no meio da academia e todos vêm para compartilhar o almoço, como era costume no País Basco,” afirma Ainle, em referência à comunidade autônoma no norte da Espanha.

“Tudo isso para lidar com a ideia de que saúde não é algo exclusivo ao indivíduo, mas também se refere a como empoderar as pessoas e suas relações com a comunidade na qual estão inseridas,” reflete o arquiteto.

Foi este ethos que despertou o interesse de Ainle no Centro Lajee, descrito por ele como “uma organização de base, um centro comunitário diversificado”. Ainle esclarece: “O centro possui uma biblioteca, fornece aulas de música para as crianças, possui um grupo de dança dabke e ensina as crianças da comunidade sobre a música tradicional palestina … Eu me identifiquei tanto com o projeto que ele me lembrou das organizações que nos ajudavam [na Irlanda] quando éramos crianças.”

A perspectiva de Ainle – e sua motivação para criar espaços como o Aclai e a Academia Comunitária na Palestina – surge em grande parte de sua infância. Embora more hoje em Cork, Ainle cresceu no oeste de Belfast, na Irlanda do Norte, local afligido pelos conflitos conhecidos como “The Troubles”. O conflito armado entre cristãos protestantes norte-irlandeses – amplamente favoráveis à anexação à Grã-Bretanha – e católicos – que apoiavam uma Irlanda unificada – durou três décadas, até ser assinado o Acordo da Sexta-Feira Santa, em 1998.

“Crescer no oeste de Belfast teve um enorme impacto em mim e no que acabei fazendo,” contou Ainle ao MEMO.

“A comunidade onde cresci, no oeste de Belfast, sofreu bastante com as mesmas formas de opressão e discriminação [que ocorrem na Palestina]. Isso representou grande parte de nossas vidas enquanto crescíamos; muitas das minhas primeiras memórias de Belfast são, de algum modo, influenciadas pela guerra que ocorria então à nossa volta.”

A infância de Ainle esteve repleta de discriminação e violência: sua família teve de abandonar sua casa por falar irlandês – evidência de serem católicos, na época –, além de ter amigos próximos executados pelo Exército Britânico, que administrava o território.

“Venho de uma comunidade onde fomos discriminados, de um lugar onde as autoridades agiam contra nós … não havia razão para chamar a polícia caso algo ruim acontecesse em nossa vizinhança porque simplesmente não viriam.”

Para Ainle, no entanto, essa mesma negligência das autoridades em relação à sua comunidade a tornou tão resiliente. “Isso criou uma grande motivação nas pessoas da comunidade para que se tornassem autossuficientes e criassem novas formas de estabelecer a infraestrutura necessária para que sobrevivessem, porque não era de modo algum fornecida pelo estado. De fato, era ativamente sabotada.”

Nestes aspectos, Ainle enxerga diversos paralelos com a luta dos palestinos que vivem sob ocupação israelense há mais de 52 anos, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, onde a infraestrutura é rotineiramente demolida, licenças de construção são negadas e o acesso a recursos é deliberadamente limitado.

“Estávamos completamente abandonados [na Irlanda do Norte], como se o país onde nascemos não nos quisesse, como se as autoridades não nos quisessem, como se o governo desejasse somente que sumíssemos do mapa,” recorda o arquiteto.

Não obstante, “quando as pessoas vinham de fora, isso nos dava uma sensação de autoconfiança, legitimava nossas ações. É claro que nossos pais nos dirão que somos ótimos, mas quando os Panteras Negras vieram dos Estados Unidos, ou alguém da África do Sul, e elogiaram nosso trabalho, sentimos que nossa luta tinha razão de existir.”

“Penso que é o mesmo com qualquer movimento anticolonial ou de libertação nacional, temos essa conexão, esses vínculos,” reflete Ainle.

Retornando ao projeto, o arquiteto espera que a Academia Comunitária na Palestina inspire muitos jovens no campo de Aida da mesma forma que sua comunidade foi encorajada pelo apoio internacional. “Queremos que eles tenham algo útil para os anos que virão; sobretudo, é como estender uma mão de amizade, mostrá-los que somos capazes de ver o que está acontecendo.”

“Eu somente acompanho o exemplo de outras pessoas que fizeram o mesmo para mim,” conclui Ainle. “Não somos um grupo internacional que caiu de paraquedas ali e diz às pessoas o que fazer ou o que não fazer – é preciso que seja um projeto pertencente aos próprios palestinos no campo de refugiados.”

“Então quando me perguntam por que uma academia, eu costumo dizer que se trata de driblar as restrições impostas injustamente às pessoas. Trata-se de ser capaz de encontrar uma brecha nos muros que cercam os palestinos, fisicamente ou não. À medida que Israel tenta bloquear tudo que possa beneficiar os palestinos, ao tentar esmagá-los até o ponto em que a vida já não vale mais a pena, o projeto é uma forma de garantir que isso não ocorra.”

“Não iremos libertar a Palestina, mas é algo pequeno que podemos fazer.”

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