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Descolonizar a Palestina para conquistar a liberdade

Palestinos protestam durante a Grande Marcha do Retorno perto da cerca de Gaza, em 10 de maio de 2019 [Mohammed Asad/Monitor do Oriente Médio]

Por diversas razões absolutamente legítimas, os palestinos repudiaram a conferência de Manama que ocorre hoje – tudo sugere que o prelúdio dos Estados Unidos ao chamado “acordo do século” normaliza Israel em dimensões inéditas. Essa normalização reduzirá drasticamente os prospectos palestinos pela liberdade, já precariamente baixos, dado o foco em um modelo diplomático que marginaliza o papel desempenhado pelos movimentos palestinos de resistência no decorrer do processo.

Por suas próprias razões, notavelmente para preservar sua sobrevida, a Autoridade Palestina (AP) também condenou a reunião. Em um artigo de destaque no New York Times, Danny Danon, embaixador israelense na ONU, condenou a postura da Autoridade ao argumentar a favor dos supostos benefícios de uma rendição política.

Danon questiona: “O que há de errado com a rendição palestina?”

Como deveria ser, não existe rendição palestina. Em uma generalização clássica, cotidiana aos oficiais israelenses, Danon elimina a distinção entre a liderança palestina e o povo palestino e considera essa falácia como necessária a fim de mobilizar apoio ao argumento delirante de que “um suicídio nacional do atual ethos político e cultural palestino é exatamente o que é preciso para conquistar a paz.”

Ao recriminar a Autoridade Palestina e Saeb Erekat, Secretário-Geral da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), a fim de estabelecer seu argumento, Danon procura pressionar a Autoridade à aceitação desta nova conjuntura, prejudicial aos palestinos de todas as maneiras, com o intuito de validar sua hipótese de que a rendição equivale à liberação do povo palestino. Ainda assim, mesmo a menção da libertação palestina por um oficial israelense torna evidente a existência de um projeto colonial, que encarcerou palestinos desde a Nakba, em 1948.

Atualmente, a Autoridade não possui alternativa senão denunciar o “acordo do século” do presidente americano Donald Trump e as iniciativas relacionadas. O domínio político da Autoridade Palestina está em processo de erosão, o que reflete a divisão entre a alta hierarquia da entidade e o anseios populares. A atual decisão de se alinhar às demandas do povo palestinos nada mais é senão uma medida de necessidade – não há princípios envolvidos por parte da Autoridade; Danon sabe muito bem.

A Autoridade há tempos negocia a Palestina em troca de concessões simbólicas e contribui para o fortalecimento de Israel, ao comprometer os direitos palestinos à terra e ao retorno. A menos que a postura atual acompanhe uma mudança radical nas diretrizes internas da entidade, então incitará as exigências de Danon por uma rendição nacional a níveis diplomáticos.

Longe de levar à “paz”, também sob coerção contínua de acordo com as demandas israelenses, a rendição palestina somente eliminaria tanto a luta quanto o seu povo. A liberdade não está relacionada à prosperidade econômica – trata-se de um requisito imediato à descolonização da Palestina histórica. A menos que tais demandas sejam revistas com cautela, todas as sugestões e propostas de negociação devem ser rejeitadas. Isso inclui uma rejeição direta à concessão de dois estados, a qual já se revelou um perigoso esquema bastante alinhado com as esperanças americanas de avançar cada vez mais em seus objetivos através de seu plano.

É possível que Danon esteja prevendo uma eventual rendição da Autoridade Palestina? Esta hipótese é muito mais provável do que uma rendição palestina em relação aos direitos por sua terra. Como colonizador, Danon não possui direito algum de ditar a trajetória escolhida pelos palestinos, muito menos insistir em um “suicídio nacional” a fim de omitir que Israel – o empreendimento colonial do qual faz parte – perpetuou um massacre ininterrupto contra o povo palestino.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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