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Sohaib e Naziha perderam seus membros, mas não perderam a esperança

Sohaib Qudeh, de 27 anos, e sua irmã Naziha Qudeh, de 37 anos, ambos feridos durante os protestos da Grande Marcha do Retorno, percorrem os campos cidade de Khan Younis, em Gaza, junho de 2019 [Loai el-Agha/Monitor do Oriente Médio]

Foi uma longa semana de espera até sexta-feira, 30 de março de 2018, para Sohaib Qudeh, o lavrador de 27 anos que trabalha no bairro Abbasan  na cidade de  Khan Younis, no sul de Gaza, a fim de participar dos protestos da Grande Marcha de Retorno pela quebra do cerco a Gaza. Era o Dia da Terra da Palestina, data de protestos da qual Sohaib participa desde os 15 anos. Mas desta vez foi “muito diferente”.

Junto com milhares de manifestantes, Sohaib foi até a cerca que fica ao longo do lado leste da Faixa de Gaza. Eles levantaram cartazes e entoaram slogans pelo direito palestino de retornar e romper o cerco israelense de 12 anos imposto ao território costeiro. Naziha, irmã de Sohaib, de 37 anos, estava lado a lado com ele .

“Os manifestantes se aproximaram da cerca e os franco-atiradores israelenses começaram a atirar neles. Minha irmã e eu fugimos para o lado oeste e nos escondemos atrás de uma árvore velha e seca”, disse Sohaib ao MEMO. “Permanecemos paralisados atrás da árvore por até quinze minutos e, quando os tiros pareciam ter parado, nos movemos cerca de três metros. De repente, caí no chão depois de sentir algo forte bater na minha perna”, acrescentou.


Sohaib Qudeh, de 27 anos, ferido durante os protestos da Grande Marcha do Retorno, trabalha nos campos de sua família, na cidade de Khan Younis, no sul de Gaza, junho de 2019 [Loai el-Agha/Monitor do Oriente Médio]

Nunca mais fiquei de pé

À primeira vista, Sohaib pensou que fosse uma bala de borracha, mas quando tentou se levantar e retomar sua caminhada, sua perna não o ajudou e ele se viu coberto de sangue.

“No início, não senti as feridas porque estavam quentes”, disse ele. “Percebi que fui ferido quando não consegui ficar de pé sozinho e os outros manifestantes se reuniram em volta de mim. Neste momento, me deitei no chão e esperei que os paramédicos me ajudassem.”

Naziha ficou chocada quando viu o irmão sangrando, mas teve coragem suficiente para correr em direção aos paramédicos e pedir que eles o levassem ao hospital.

“Quando minha irmã viu minhas feridas sangrando, ela correu em direção aos paramédicos e gritou por socorro,” disse ele. “Eles vieram rapidamente e me levaram para o hospital, onde os médicos descobriram que o atirador israelense disparou uma bala explosiva na minha perna, que a danificou a ponto de ser necessário amputá-la.”

Sohaib sabia que ele nunca mais seria capaz de se levantar. Em entrevista ao MEMO, afirmou: “Antes de entrar na sala de operações, fiquei inconsciente e dois dias depois, acordei e descobri que tenho apenas uma perna.”

De volta às manifestações

Alguns dias depois, Sohaib recebeu alta do hospital e foi para casa. Ele começou a depender de Naziha para a sua vida diária. Ele assistiu as manifestações pela TV, mas ao perceber que poderia participar das manifestações na quarta sexta-feira com o auxílio de suas muletas, decidiu comparecer.

“Pedi a Naziha para me ajudar a participar das manifestações,” disse ele. “No começo ela se recusou, mas quando insisti ela aceitou me acompanhar ao local das manifestações. Nós continuamos a fazê-lo por alguns meses, até que minha ferida estivesse completamente curada e eu tivesse uma próteses para me ajudar.”

“Voltei para a minha fazenda e retomei o plantio de vegetais, irrigando-os e coletando-os junto com Naziha, que se tornou parte da minha vida,” disse ele. “Nós, os palestinos, não nos entregamos ao destino. Ser deficiente dificulta a prática dos trabalhos mais simples, então pense em como é difícil cultivar!”.

Naziha Qudeh, de 37 anos, ferida durante os protestos da Grande Marcha do Retorno, trabalha nos campos de sua família, na cidade de Khan Younis, no sul de Gaza, junho de 2019 [Loai el-Agha/Monitor do Oriente Médio]

A vez de Naziha

Naziha estava feliz ajudando seu irmão em seu trabalho, na vida cotidiana e nas manifestações de sexta-feira; ele não esperava que ela logo estaria em seu lugar.

“Na segunda-feira, 14 de maio de 2018, assim que Naziha terminou um telefonema com a mãe avisando que ela e eu estávamos indo para casa, ela gritou,” disse Sohaib. “Eu olhei em volta e a encontrei coberta de sangue e gritei por ajuda.”

Naziha foi levada para o hospital e teve a perna amputada devido a danos graves causados por uma bala explosiva disparada por um atirador israelense perto do local onde seu irmão foi baleado.

“Liguei para minha mãe e disse a ela que estava com fome porque saí de casa na hora do almoço e fiquei com Sohaib no local do protesto por cerca de cinco horas,” afirmou Naziha. “Acabei de terminar o telefonema e virei as costas para o lado da cerca, então senti que algo bateu na minha perna e imediatamente cai no chão.”

De volta à fazenda

Naziha não se rendeu e, quando se recuperou, insistiu em continuar sua vida na fazenda lado a lado com o irmão Sohaib. No entanto, tornou-se bastante difícil para ambos continuarem a trabalhar como fazendeiros; porém, a questão para eles é sobreviver.

Tanto Naziha quanto Sohaib precisam de melhores próteses artificiais para facilitar o movimento. No entanto, para os irmãos, as próteses provisórias não são uma desculpa para ficar em casa.

Eles insistem em trabalhar juntos, protestar juntos e fazer tudo juntos. “Sentimos que nos aproximamos um do outro após perdermos nossas pernas,” afirmou Sohaib. “Temos a mesma vida, o mesmo trabalho e o mesmo destino.”

Em relação ao seu trabalho, ambos dizem ser algo bastante árduo. Entretanto, não possuem qualquer alternativa de emprego apropriado às suas condições. “Este trabalho faz você se sentir mais conectado com a terra,” declarou Naziha.

Baixas nas manifestações

Até 15 de maio de 2019, o Ministério da Saúde em Gaza havia registrado a morte de 306 manifestantes palestinos por forças israelenses durante a Grande Marcha do Retorno e pelo Fim do Cerco, além de 17.335 feridos, incluindo 136 amputados.

Deficientes físicos que perderam seus membros devido ao contexto de Gaza podem receber próteses artificiais provisórias. Em abril, o Catar inaugurou um hospital especializado em Gaza para ajudar essas pessoas.

Naziha e Sohaib enviam uma mensagem ao mundo: “Cumprimos nosso dever e perdemos nossas pernas. Agora, é sua vez. É preciso trabalhar duro para encerrar o cerco israelense e cumprir nossos sonhos de retornar às nossas casas.”

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