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A Palestina e o Domínio da Força. Dissidência Local versus Governança Internacional

Organizador(es) :Alaa Tartir & Timothy Seidel
Editora :Palgrave Macmillan, 2019
ISBN-13 :9783030059484

Essa coletânea de ensaios colhidos por uma cuidadosa pesquisa oferece uma ideia sobre as dinâmicas operacionais do tecido neoliberal junto ao processo colonial sionista e como isso criou dois campos opostos, sucintamente descritos no prefácio de Richard Falk como o fracasso da diplomacia da ONU e as possibilidades existentes da luta anticolonial palestina.

O contexto neoliberal despolitiza não somente a Palestina, mas também a discrepância entre o poder e a submissão compulsória, sendo esta associada às ramificações do apagamento colonial e do processo de substituição demográfica. No entanto, o livro analisa as dinâmicas diante do quadro da subjugação forçada sobre os palestinos e traz a resistência ao primeiro-plano. A resistência diária do povo palestino, o livro argumenta, nos permite “ouvir e enxergar uma paisagem muito mais ampla e poderosa da resistência na Palestina.”

O projeto de assentamentos coloniais de Israel e a construção de um estado palestino são dois empreendimentos mutuamente aceitos e custeados pela comunidade internacional. Conforme cresce o envolvimento internacional nos processos diplomáticos de paz e mesmo conjunto de ações refuta o próprio reconhecimento das aspirações palestinas de terra e liberdade, o resultado aponta para um estado hipotético como extensão da colaboração entre Israel e os agentes globais. A terra já um espaço concorrido; os palestinos lutam não somente por seu espaço mas também por sua existência e suas demandas, as quais não recebem cobertura dos restos oferecidos pela comunidade internacional em termos de ajuda humanitária neoliberal.

A fabricação da dependência palestina, portanto, tem sido um componente crucial do projeto de assentamentos coloniais e sua política neoliberal, compartilhada pela comunidade internacional. A violência é o primeiro passo estendido pelo qual Israel procurar controlar a dependência palestina, amplamente incontestada e normatizada pelos acordos de Oslo e outros acordos subsequentes. Através dessa transformação da violência, Israel encontrou cúmplices solícitos que priorizam a economia e a segurança como elemento essencial para a construção do estado, mesmo se os parâmetros estabelecidos forem interdições aos direitos palestinos.

Logo, normalizar as violações sugere que a luta anticolonial do povo palestino seja violenta. “A resistência,” escreve Timothy Seidel, “é invisibilizada porque a violência – do estado – é invisível… o estado apaga os rastros de sua própria violência enquanto rotula seus adversários, os palestinos, como violentos, como algo que não podem ser.”

Entretanto, a luta anticolonial palestina existe em relação ao colonialismo de assentamentos e à conjuntura neoliberal, o que compele os palestinos a papéis contraditórios. Por um lado, a dependência econômica cultuada nos acordos de Oslo, determinada pela comunidade internacional, quase eliminou os prospectos de independência palestina e de suas demandas populares legítimas. Pelo contrário, a existência do povo palestino e sua recusa de ser apagado de suas terras é a fundação da luta popular anticolonial.

O contexto de paz promovido internacionalmente repousa em tal ocultamento da violência colonial e colaborativa, enquanto enfatiza a importância do doador humanitário neoliberal. Esse desligamento em relação às demandas do povo palestino, a fim de acomodar a narrativa internacional estabelecida pelas reivindicações coloniais de Israel, como descrito por Alaa Tartir, é particularmente evidente ao observarmos o papel da União Europeia como entidade de construção de paz, a qual marginaliza as demandas do oprimido. “A União Europeia, no caso da Palestina,” ele explica, “se tornou um dos canais pelo qual se sustenta o domínio colonial.”

Com tamanha cumplicidade absorvida e apoiada pela Autoridade Palestina, a paz é então priorizada sobre a construção do estado e sua independência. De acordo com Jeremy Wildeman, “O processo de Oslo somente ofereceu aos palestinos maior ocupação colonial.” Os acordos de Oslo, ele afirma, não somente eram destinados deliberadamente ao fracasso, “como também a dar suporte para as condições da ocupação colonial, ao tornar a coordenação de segurança humanitária e econômica muito pior.”

Os acordos de Oslo, aniversário de 25 anos – cartum [Sabaaneh/Middle East Monitor]

A conjuntura econômica, descrita por Tartir como um sistema “opositor às prioridades políticas do povo palestino,” é uma das mais gritantes manifestações de como as imposições neoliberais supostamente neutras infligidas sobre os palestinos criaram com o tempo uma rede sancionada de abusadores de direitos humanos, que trabalha dentro de critérios amplamente aceitos, a fim de eliminar as prioridades políticas palestinas.

Além de reiterar o isolamento da luta anticolonial palestina através do apagamento compulsório dos próprios palestinos no processo político, a governança internacional e sua conivência com o colonialismo israelense, ao lado da Autoridade Palestina, também forçaram uma reavaliação da dependência e da luta anticolonial. Despolitizar a Palestina, enquanto objetivo dos cúmplices previamente mencionados, é também uma premissa para que a luta anticolonial palestina evolua e encontre seus caminhos diante da opressão internacional contra os palestinos exercida pela imposição de auxílios humanitários.

A filantropia humanitária é descrita por Seidel como “a compra do apoio palestino aos acordos de paz.” Melanie Meinzer relata detalhadamente como tais auxílios sabotam a autodeterminação palestina e demonstra como os palestinos, como parte da estratégia anticolonial, desenvolveram caminhos para consentir com as doações sem comprometer suas campanhas de solidariedade, em particular para propósitos de memória histórica e educação. Meinzer descreve este tipo de auxílio independente – que permite aos palestinos estabelecerem seus próprios termos – como “uma resposta estratégica para manter a autonomia de organização.” A tática se opõe diametralmente às ajudas de desenvolvimento, baseadas na contradição de eliminar os palestinos enquanto afirma fornecer incentivos.

A luta anticolonial palestina é melhor observada como uma rotina diária e contínua de enfrentamento à despolitização neoliberal. Também requer constante divulgação para desafiar a opressão externa e interna, que restringe sua manifestação e suas estratégias. O ensaio de Danna El-Kurd oferece uma perspectiva significativa sobre como a Autoridade Palestina – um corpo político designado por agentes externos – tem sido prejudicial à resistência palestina em diversas localidades. Ao usar o termo “neutralizando a resistência”, El-Kurd explica como a autonomia política palestina, em termos de resistência, amplia a luta anticolonial e destaca o protagonismo da classe trabalhadora e dos refugiados palestinos, como epítome da resistência.

A narrativa internacional insiste em determinar como valoriza ou desvaloriza a resistência palestina. Isso também resulta numa separação das narrativas entre a resistência armada e a resistência não-violenta. A primeira, pós-Oslo, tem sido orquestrada para forçar divisões, interpretações equivocadas e manipulações, da mesma forma que o contexto neoliberal é determinante na forma como se conceituam a Palestina e seu povo.

O livro levanta diversas questões de destaque, não apenas ao mostrar como a resistência palestina, amplamente vista como restrita devido a ramificações do colonialismo, é, na realidade, fluida e capaz de se insurgir contra rótulos de aquiescência. Todos os colaboradores demonstram como o neoliberalismo fabricou a aquiescência como uma mercadoria. Ainda assim, como é observado por Tartir e Seidel, a resistência é única no que concerne à mudança social e política. O envolvimento internacional na Palestina procura sufocar a resistência palestina ao criar narrativas constituintes dessa mesma resistência. Os agentes de transformação, aqueles envolvidos na resistência, contestam o fracasso diplomático coagido aos palestinos pelo modelo neoliberal.

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