A noite desempenha um papel importante em muitas culturas e crenças religiosas islâmicas. Durante o Ramadã, os muçulmanos frequentemente realizam preces noturnas chamadas Tarawih, nas quais podem pedir por redenção e recompensas. Em uma das dez últimas noites do mês sagrado, os fiéis tentam discernir quando ocorre a chamada Noite do Destino (Laylat Al-Qadr). Segundo as crenças islâmicas, essa é a noite em que o Alcorão foi revelado pela primeira vez, momento em que os muçulmanos podem obter novas bênçãos por suas orações e boas ações. Embora isso demonstre que certas noites possuem significado especial nas crenças normativas dos muçulmanos, alguns eruditos islâmicos atribuem à noite uma importância ainda maior. Muhyi Al-Din Ibn Arabi, poeta, sábio e filósofo sufi do século XII, acreditava que um grupo seleto de praticantes espirituais possuía uma percepção mais aguçada do divino: o Povo da Noite (Ahl Al-Layl). O novo livro de Dunja Rasic, Povo da Noite: Ibn ‘Arabi por trás do véu noturno, explora os escritos de Ibn Arabi sobre esse grupo misterioso.
A jornada de Ibn Arabi em direção à sabedoria começou com um encontro estranho em Meca, quando um jovem circundava a Caaba. O poeta descreveu o rapaz como “um peregrino silencioso e esquivo, nem vivo nem morto”. Aquele ser conduziu Ibn Arabi por uma viagem espiritual que mudaria sua vida. Não está claro quem era o jovem descrito; alguns estudiosos argumentam que ele próprio seria Ibn Arabi, enquanto outros pensam tratar-se do Primeiro Intelecto (Al-Aql Al-Awwal), uma entidade considerada o primeiro espírito criado, representando a mais alta realidade espiritual. O encontro permitiu que Ibn Arabi ascendesse espiritualmente e experimentasse o divino sem véus. Ibn Arabi concluiu que, embora todas as pessoas tenham sido criadas à imagem de Deus, apenas um pequeno grupo não somente compreende os Nomes Divinos de Deus, como também conhece suas realidades e é capaz de aplicar tamanho conhecimento. Esses indivíduos conseguem colocar as coisas em sua devida ordem divina, e Deus recorre a eles para materializar recompensas, punições, regras, medidas, e para estabelecer e desmantelar a chamada ordem cósmica. Seriam seres humanos perfeitos e conduziriam práticas espirituais fundamentais ao longo da noite.
A prática espiritual real do chamado Povo da Noite permanece um mistério, mas, como observa Rasic: “Ibn Arabi foi instruído, contudo, a revelar sua preeminência ao mundo e, mais importante, ao próprio Povo da Noite” A obra extrai muitas das descrições de Ibn Arabi sobre o grupo em sua importante obra Al-Futuhat Al-Makkiyya. Para Ibn Arabi, segundo Rasic, a noite era significativa em parte porque atua como um véu: oculta as coisas e faz o mundo visível se dissolver. Isso confunde a mente humana e, para muitos, a escuridão noturna pode ser então comparada à inexistência. Os humanos realizam a maioria de suas atividades — do trabalho ao aprendizado — durante o dia; a noite representaria, portanto, o fim do conhecimento humano. No entanto, “por trás deste véu, Deus conversa com o Povo da Noite. A maioria das pessoas não tem conhecimento nem do véu nem do que está velado”.
Em outras palavras, a noite oferece a este povo a possibilidade de diálogos com Deus e, a partir dessas discussões, perceber a realidade de forma mais plena. A noção de que a noite oferece tais possibilidades divinas era desconhecida dos árabes até o advento do Profeta Muhammad, nota Ibn Arabi. “Deus revela a totalidade do conhecimento ao Povo da Noite ao ensinar-lhes o conteúdo do Alcorão, e satisfaz todas as suas necessidades e seus desejos sob o manto da noite”.
O livro prossegue explorando quem poderia ser este o Povo da Noite, com base nos critérios adotados por Ibn Arabi. A obra tenta examinar os contextos históricos das ideias do filósofo. A noção de que a noite tem conhecimento a oferecer e possui uma qualidade metafísica oculta não é exclusiva de Ibn Arabi. Rasic traça a ideia do século VII até o século XII, quando Ibn Arabi escreveu seu livro, demonstrando um discurso vibrante em todo o mundo islâmico. Compara isso a concepções sagradas da noite em outras culturas e tradições religiosas, o que confere à obra uma perspectiva única, permitindo que estudiosos reflitam tanto sobre universalidades quanto sobre particularidades das crenças metafísicas acerca do céu escuro noturno.
Povo da Noite também agradará a pessoas interessadas em filosofia e em como épocas e sociedades distintas lidaram com os limites do conhecimento. Ibn Arabi oferece um estudo de caso sobre as formas criativas pelas quais filósofos, poetas e sábios sufis tentam navegar por tais limites e encontrar formas de expandir o saber.








