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Islã, Raça e Rebelião nas Américas: Ecos Transatlânticos dos Jihads da África Ocidental

3 de junho de 2026, às 07h00

  • Autor do livro: Daud Abdullah
  • Publicado em: 1de julho de 2026
  • Editora: Editora MEMO
  • Nº de páginas: 228 páginas
  • ISBN-13: 978-6599379086

A busca do pesquisador Daud Abdullah por vestígios e testemunhos da conexão dos revoltosos malês, de Salvador, com os acontecimentos do oeste africano no início do século XIX, foi intensa e exaustiva.

Como auxiliares de sua passagem pelo Brasil e do roteiro de seu interesse na Bahia,  acompanhamos o olhar minucioso e não poucas vezes frustrado do prof. Daud  pelo apagamento lamentável de registros pelo Brasil na mudança para a República dificultando o acesso da memória coletiva àsmuitas  memórias das diferentes experiências humanas com a escravidão nos tempos coloniais . Mas também testemunhamos sua atenção aos  vestígios e diferentes conhecimentos sobre a época que foram dando solidez à sua tese.

O livro de Abdullah é fruto de sua pesquisa sobre do fator islâmico nas revoltas escravas das Américas.Ele conversou com pesquisadores e militantes do movimento negro, visitou instituições culturais, igrejas, cemitérios, museus e memoriais,  e observou, na religiosidade afro-brasileira da Bahia, elementos que remetem a  uma passagem  muçulmana guerreira e marcante, em meio às condições desumanizantes do cativeiro.

Obrigatoriamente a obra se aprofunda na descrição das relações cruéis que sustentaram a escravidão. Mas o autor consegue atravessar a memória dessa dor que já seria fator suficiente para explicar as revoltas e procurar nas identidades, histórias, saberes e convicções dos contingentes traficados para o Brasil a bagagem cultural e espiritual com que os malês desafiaram seus opressores.

Daud foca especialmente na influência das lutas islâmicas – as jihads – travadas então no oeste africano sobre as  motivações e modus de organização das resistências no outro lado do Atlântico, as revoltas no litoral da América do Sul e do Caribe. Também observa como já no inicio da escravidão  a hostilidade antimuçulmana das lutas entre cristãos e mouros na Península Ibérica foi exportada para as Américas.

O Brasil encontrará esses elementos na Revolta dos Malês e um sentido de resistência  que marcou profundamente as lutas em todo país contra a escravidão e que prosseguem contra a invisibilização da história africana até hoje. Mas o autor vai também aos primeiros registros de resistência muçulmana nas Américas, como a revolta wolof de 1521 em Hispaniola, a primeira rebelião de escravos registrada no Caribe, e o envolvimento de muçulmanos na luta pela independência do Haiti.

São dele estas palavras: “O Islã nas Américas não foi meramente um resquício cultural ou um conjunto passageiro de rituais”, disse Abdullah. “Foi um movimento intelectual e político contínuo — uma força central por trás da rebelião e da preservação da identidade. Deu aos escravizados uma linguagem de justiça, um conceito de responsabilidade divina e uma visão de liberdade além do mundo material.”

Mais do que um importante revisitar das revoltas, o livro Islã, Raça e Rebelião nas Américas: Ecos Transatlânticos das Jihads da África Ocidental nos aproxima da intensidade cultural, histórica e espiritual presente nas lutas por libertação do Brasil.