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A neutralidade põe em risco organizações assistenciais

1 de fevereiro de 2026, às 07h20

Voluntário da rede Médicos Sem Fronteiras (MSF) atende pacientes no Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul de Gaza, em 15 de janeiro de 2026 [Abed Rahim Khatib/Agência Anadolu]

Nesta semana, a rede humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) emitiu um comunicado dizendo que cumpriria todos os requerimentos israelenses para compartilhar detalhes de seus funcionários palestinos e estrangeiros, “sujeitos a claros parâmetros, com o foco na segurança das equipes”.

Em sua nota, a agência confirmou assentir ciente de tais informações seriam concedidas “um contexto em que 1.700 trabalhadores de saúde foram mortos, incluindo 15 de nossos colaboradores, desde outubro de 2023”. A escolha foi entre permitir que Israel acessasse informações pessoais de seus voluntários ou cessar operações em Gaza e na Cisjordânia ocupadas. Ambas as opções equivalem à morte. Deveria o MSF arriscar suas equipes, ou a vida dos palestinos em carência urgente de ajuda médica? A questão aponta ao próprio conceito de neutralidade, em vez de alternativa. Organizações humanitárias são forçadas a operar em realidades coloniais e genocidas e se espera delas que permaneçam neutras em todo o processo.

Não há neutralidade, contudo, em uma neutralidade imposta. Uma entidade colonial que comete genocídio e que, por décadas, é responsável pela deterioração das necessidades mais básicas do povo palestino, não pode ser confiada com informações como essas. As razões de Israel certamente não são neutras, ainda assim, espera obediência de agências humanitárias internacionais. A escolha da MSF inexiste; não passa de uma postura neutra sob coação, em um contexto genocida que só pode fomentar mais repercussões lesivas a seus voluntários, sobretudo palestinos.

Neutralidade para instituições humanitárias não pode se equiparar a proteger sua missão ou seus colaboradores. A MSF afirmou continuar a “buscar o diálogo com as autoridades israelenses”, mas Israel dialogou antes de matar 1.700 trabalhadores de saúde, ao longo de seu genocídio? Buscar diálogo com Israel é um eufemismo para capitular a inevitáveis danos colaterais. A MSF e outras agências arriscam ser percebidas como absolutamente dispostas a acomodar os ditames do colonialismo, ao ponto que a colaboração, mesmo que coagida, ao longo do tempo, torna-se inevitável.

A questão é maior, no entanto, que a aquiescência da MSF às demandas de Israel. Líderes globais têm buscado politizar a ajuda humanitária via recusa dessa neutralidade imposta às organizações assistenciais. Doadores politizaram doações, ao reter fundos a depender de suas alianças políticas e ideológicas. Serviços se converteram sobretudo em um meio para acomodar o colonialismo israelense e, somente após ceder a essa primeira ordem, é que o verdadeiro socorro se torna possível. Organizações humanitárias não podem agir a menos que se proclamem neutras, e isso cai de acordo com normalizar as exigências e os abusos das forças coloniais.

Redes humanitárias não apenas entregam assistência; são forçadas a operar dentro dos parâmetros e de um ambiente colonial e aderir a seus ditames. E embora essas entidades exerçam um trabalho indispensável às populações carentes, a cláusula de neutralidade não deixa de implicar um grau de cumplicidade. Não há assistência humanitária sem que haja violência e organizações não estão em posição de negociar direitos ou condições — financiamento, autorização de entrada e cobranças por neutralidade são restrições que, ao que parece, não é possível contornar.

Agências como a MSF não lutam somente com as restrições impostas a suas atividades; operam no mesmo ambiente violento que os recipientes de seus serviços. O genocídio de Israel em Gaza explicitamente não fez distinção alguma em imputar a morte. Debaixo das bombas, todos são alvo. Sem proteção, abandonados, não é hora de redes humanitárias abrirem mão da cláusula de neutralidade, em troca de sua própria realidade política?

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.