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A presidência como teatro: A era de ilusão e logro dos Estados Unidos

20 de janeiro de 2026, às 05h15

Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em 16 de janeiro de 2026 [Celal Günes/Agência Anadolu]

Em “False Front”, o historiador Kenneth Lowande aponta a um dos mais bem enraizados mitos de Washington: de que o presidente serve, hoje, com um governante “imperial”, ao exercer sua autoridade via ordens e ações que mal requerem autorização do Congresso. Lowande abre uma janela, contudo, a um panorama ainda mais inóspito e assombroso: a autoridade executiva, hoje, pode não passar de um objeto de cena — um gesto carregado de pompa e pantomina, nu de verdadeiro sentido.

O decreto presidencial, símbolo de um poder limitado embora absoluto, converteu-se em algo constrangedor. Tal mecanismo foi criado não para afetar o alinhamento político, mas para promover as aparências. Aplacam a base e geram manchetes; oferecem a ilusão de mudança, dentro de instituições irrecuperáveis e impotentes em servi-la. Em uma era de polarização, em particular, em que o Congresso vive sob impasse, a presidência ostenta, portanto, nada mais que as aparências.

O sentido do ato é fatal precisamente por sua trivialidade. Seu fracasso não é retumbante, mas sucede naquilo que sempre pretendeu: reputação. Não se deve à falta de política, à medida que está na educação do público, de modo geral, confundir expressões de força com força real.

Tome, por exemplo, a altamente publicizada ordem executiva para fechar a prisão da Baía de Guantánamo em Cuba, assinada pelo presidente Barack Obama dias depois de tomar posse. Seria este um momento de reconciliação moral, de promover, enfim, a legalidade e os direitos humanos. As câmeras certamente registraram a cena — o aplauso tampouco vacilou. O mundo exprimiu um ingênuo, porém coletivo, suspiro aliviado.

O decreto, no entanto, era apenas uma fachada.

Sabia-se desde os primórdios, com a tinta ainda úmida sobre o papel, que a oposição do Congresso, impedimentos legislativos e falta de transparência conspirariam para manter abertas as portas de Guantánamo. Nada se fez no que diz respeito a um mecanismo para aplicar o decreto. Tampouco se investiu capital político pela medida. A única verdadeira conquista não tinha qualquer vínculo com o fechamento do presídio, senão com limpar a imagem de Washington. Desde então, Guantánamo jamais se fechou.

No espectro político supostamente oposto, embora de acordo com o mesmo imperativo dramático, Donald Trump também performou. Como sabemos, Trump conferiu assinatura a um “decreto executivo que atenua as restrições de Obama sobre o uso de equipamento militar por autoridades nacionais”. Com sua nova política, insistiu a Casa Branca, “a lei e ordem” estariam asseguradas.

A verdade, no entanto, confirma Lowande, é ainda mais vaga. Não há infraestrutura para tamanha medida, e os equipamentos mal saem do lugar. O maquinário para implementá-la foram deixados ao léu. Ainda assim, funcionou como espetáculo. Sindicatos de polícia foram apaziguados; cadetes e sargentos foram mobilizados. A imagem de força de fato foi criada, sem entregar nada realmente em troca.

Contudo, mais reveladora quem sabe foi a administração de Joe Biden, ao incorporar um simbolismo compassivo sem comprometimento.

Em 2022, Biden revelou um decreto presidencial abrangente para perdoar até US$20 mil em dívidas estudantis de milhões de cidadãos americanos. A medida foi promovida como um passo revolucionário a uma geração devastada por empréstimos predatórios, assim como salários cada vez mais precários. O anúncio coincidiu ainda sobre o plano de fundo de uma conversa mole sobre justiça e igualdade. Ao menos por um breve período, o júbilo tomou as fileiras democratas.

O governo Biden sabia bem que carecia, até então, de fundação legal. O ato de Educação Superior, Auxílio e Oportunidades para Estudantes (HEROES, em inglês), construído para ser aplicado em tempos de guerra, seria adaptado para tratar de uma crise característica dos tempos de paz. O esforço de Biden para criar uma válvula de escape via legislação se mostrou nada mais que um aceno simbólico. Quando a Suprema Corte o derrubou, Biden fingiu-se indignado, mas não surpreso. O verniz político já havia sido posto.

Novamente, o decreto alcançou seu propósito. Fracassou como política, e triunfou como espetáculo.

O que Lowande demonstra em todos esses exemplos não é incompetência, ao contrário, uma capacidade cínica de se adaptar às circunstâncias. A presidência se adaptou para operar senão por meio de ilusionismo. O decreto executivo, hoje, é um gesto meramente performativo, uma bomba de fumaça cujo intuito é obscurecer as evidências do declínio; nada mais do que produzir manchetes.

Trata-se de governança reduzida à forma de relações públicas.

Mas não é apenas uma ineficiência sistêmica; é intencional. Cidadãos veem vitórias nos noticiários, contudo, sem quaisquer resultados. Este ciclo leva à mitigação de aspirações políticas, cada vez menores; ao cinismo do público e sua subsequente ignorância. Líderes se tornam, assim, empresários de marca; e a democracia, uma nota de rodapé.

Impérios perdem credibilidade uma vez que suas instituições se tornam cascas vazias, ao projetarem meramente um simulacro da vida, em vez de servir um propósito para além de sua própria existência. “False Front” demonstra que a presidência americana já chegou a este ponto: um palco iluminado pela pirotecnia de decretos executivos, que brilha por um breve instante e então se extingue, sem remendar os problemas na máquina.

A questão é que muitos americanos já não conseguem compreender a diferença entre os holofotes e o poder de verdade. Atendem a cerimônias de assinatura; compartilham as manchetes; e esperam uma mudança que nunca vem.

O que permanece em aberto, no entanto, neste sistema de adereços é de fato o dilema da pauta de “governança”, em seu sentido mais íntimo: legislação, aplicação e moderação. A presidência tampouco é imperial — apenas performativa. O rei está nu e tudo que sobrou é a pompa e a cerimônia.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.