O acordo de cessar-fogo em Gaza, entre Israel e o grupo Hamas, supostamente entrou em sua segunda fase nesta semana, após dois anos de genocídio israelense que devastou a paisagem política e humanitária do território palestino.
A reportagem é da agência de notícias Anadolu.
A nova etapa diz tentar ir além da pausa militar, rumo a arranjos políticos e securitários de longo prazo, incluindo desarmar a resistência, instituir uma administração transicional e lançar esforços de reconstrução.
Steve Witkoff, enviado dos Estados Unidos, confirmou a nova fase na noite de quarta-feira (14), como parte do plano de 20 pontos do presidente Donald Trump para encerrar a crise. No Twitter (X), Witkoff alegou se tratar de um avanço do “cessar-fogo ao desarmamento, à governança tecnocrata e à reconstrução do território”.
Witkoff ressaltou que Washington espera que o Hamas cumpra seus termos, incluindo ao devolver supostos restos mortais de prisioneiros de guerra israelenses ainda em custódia. Todavia, não estendeu cobranças a Tel Aviv.
Abaixo, os principais pontos da segunda do acordo, em vigor desde outubro de 2025.
Conselho de paz
O plano abarca a criação de um “conselho de paz”, em caráter interino, responsável pelos preparativos políticos e securitários para suposta retirada total das forças de Israel, por meio de uma série de arranjos de desarmamento.
Na quinta-feira (15), o jornal israelense Yedioth Ahronoth indicou que Trump segue com os preparativos para formar o comitê, do qual espera ser presidente. Nikolay Mladenov, ex-chanceler e ministro da Defesa búlgaro e ex-emissário da ONU para o Oriente Médio, deve assumir as atividades do dia a dia.
A formação do conselho deve se confirmar em 23 de janeiro, durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça.
Retirada israelense
O acordo pede também por novas retiradas militares de Israel. Forças da ocupação ainda controlam as áreas de fronteira leste e sul de Gaza, bem como grande parte do norte, com presença marcada em mais da metade do território.
A rádio militar Kan indicou na quinta-feira que Israel não pretende, porém, deixar as áreas que controla, exceto caso avance o desarmamento do Hamas. Para o Yedioth Ahronoth, Israel tampouco descarta uma “intervenção militar” em Gaza, para desarmar facções de resistência que se neguem a uma capitulação.
Desarmamento palestino
O Hamas insiste em manter suas armas, como parte de sua resistência legítima sob a lei internacional, e afirma seguir aberto a “quaisquer propostas que preservem este direito, desde que assegurem o estabelecimento de um Estado palestino”.
Governo técnico
Turquia, Egito e Catar acolheram nesta quarta-feira a formação de um comitê tecnocrata palestino, incumbido de administrar Gaza, ao descrevê-lo como “avanço importante” em direção à estabilidade e melhor da situação humanitária no território.
Uma fonte palestina disse à agência Anadolu que arranjos estão em curso para membros do comitê viajaram ao Egito, para seu primeiro encontro nesta semana.
O conselho deve se constituir de residentes de Gaza, responsável por serviços básicos e assuntos civis nas áreas onda Israel retirar suas tropas.
Em 18 de novembro, o Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução para que Gaza fosse administrada por um governo transicional palestino, operando, porém, sob a supervisão do chamado “conselho de paz” de Trump.
Reconstrução
A segunda fase contempla esforços de reconstrução de larga escala, após Israel destruir cerca de 90% da infraestrutura civil do enclave palestino, com custo estimado pela ONU em aproximadamente US$70 bilhões.
Witkoff não mencionou a reabertura da travessia de Rafah, entre Gaza e Egito, tomada por Israel, como parte dos esforços de reconstrução.
Tel Aviv, segundo o Yedioth Aronoth, considera a reabertura de um dos terminais em troca dos restos mortais de Ron Givli, o último dos prisioneiros de guerra, soldado falecido, na Faixa de Gaza.
O Hamas aponta que, em meio à destruição, localizar e recuperar o corpo pode demorar, sem o devido equipamento, igualmente embargado pelo cerco de Israel.
Força internacional
Washington trabalha também para compor uma “força de estabilização internacional”, a ser empregue no território palestino. Durante reunião do governo israelense nesta quarta, ministros sugeriram um anúncio em breve da Casa Branca.
Oficiais americanos disseram que ao menos três países se dispuseram a contribuir com tropas. Rumores prévios identificaram, porém, Itália, Paquistão, Bangladesh e Azerbaijão como possíveis colaboradores.
A resolução da ONU de 18 de novembro autoriza a medida, com expiração, entretanto, no final de 2027.
Posição das facções palestinas
Forças políticas e grupos de resistência palestinos confirmaram apoiar os esforços dos mediadores por um “comitê nacional transicional”, para administrar Gaza, mas pediram condições que permitam que assuma suas tarefas imediatamente.
A declaração sucedeu um encontro no Cairo, a convite do regime, a fim de implementar o acordo de cessar-fogo, de acordo com imprensa egípcia.
Sobre o “conselho de paz”, as facções instaram a nova entidade, junto dos mediadores, a pressionarem Israel a suspender os ataques ainda em curso contra os palestinos. Desde outubro, são 451 palestinos mortos, somados aos 71 mil desde 2023.
O lado palestino reivindicou também a reabertura das travessias de fronteira, no intuito de possibilitar ao acesso assistencial a todas as regiões de Gaza, junto de retirada plena das tropas de Israel, para reaver a calma e permitir a recuperação do território.
Israel mantém o bloqueio aos níveis acordados de comida, medicamentos e materiais de habitação, onde dois milhões dos 2.4 milhões de habitantes seguem desabrigados, em condições catastróficas de fome e devastação.
Primeira fase
A primeira fase, de 10 de outubro, previa cessar-fogo e entrada de bens humanitários, mas palestinos denunciam que os avanços foram bastante restritos e insuficientes, diante da escala das demandas básicas impostas aos palestinos.
O acordo abarcou ainda a entrega de prisioneiros israelenses, vivos e mortos, em troca de palestinos capturados, incluindo falecidos. Entre os corpos palestinos então devolvidos, muitos traziam consigo sinais de tortura, fome e negligência médica.
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