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Nova moeda da Síria rompe com imagem de Assad e divide opiniões online

16 de janeiro de 2026, às 06h19

Centenas de pessoas das áreas rurais de Idlib se reúnem no centro da cidade para marcar o 14º aniversário da revolta contra o regime deposto do Baath, em Idlib, Síria, em 15 de março de 2025 [Kinene Hindavi/Agência Anadolu]

A nova moeda da Síria, bem como suas cédulas, reveladas oficialmente ao público no fim do ano, abandonaram seus retratos do presidente deposto Bashar al-Assad, no intuito de sinalizar uma ruptura clara com o passado do país.

Seu design colorido, com temas de colheita, instigou um debate polarizado, porém vivaz, nas redes sociais, ao expor, no entanto, questões profundas sobre identidade, cultura e o sentido de reconstruir após anos e anos de guerra civil.

O desenho foi anunciado em 29 de dezembro pelo presidente interino Ahmed al-Sharaa, que buscou representar a nova moeda como um reinício simbólico, como na prática. As notas, de dez a 500 libras sírias, trazem rosas, trigo, oliveiras e laranjas — bens agrários há eras associados com a Síria, como parte de uma reforma monetária mais abrangente cujo intuito é reaver a confiança em uma economia devastada por 15 anos de conflito.

Desde 2011, quando eclodiu a guerra, a libra síria desmoronou, de cerca de 50 libras para cada dólar a 11 mil libras por dólar. Foi então que cidadãos comuns se viram obrigados a carregar calhamaços de dinheiro para compras simples e cotidianas.

A reforma abrange um novo nome e remoção de zeros, ao converter cem libras ao valor de uma libra. Oficiais confirmam que a medida não altera o verdadeiro valor, mas simplifica transações e reduz a dependência a moedas estrangeiras.

Durante cerimônia de lançamento em Damasco, al-Sharaa caracterizou as novas cédulas como “fim de uma fase anterior, cheia de luto, e começo de uma nova etapa que povo da Síria tanto aspirou”. Para o presidente, o design reflete uma nova identidade nacional, ao se afastar da antiga “veneração de alguns indivíduos”.

Abdul Qadir al-Hasriya, governador do Banco Central, descreveu a mudança como parte de uma estratégia institucional para recuperar confiança e estabilizar a economia.

Respostas online, contudo, sugerem é inevitável buscar sentido. Embora a falta de figuras políticas seja bem-recebida, críticos argumentam que o foco em temas agrícolas reduz a identidade síria a um lugar periférico e ignora sua própria história.

“A Síria não é somente algumas árvores e plantações”, apontou um usuário no Instagram.

“Sinceramente, quem quer que tenha desenhado a nova moeda deveria tomar uma coça. É como se fôssemos a uma feira e disséssemos: queremos cinco disso, dez daquilo, cem daquele outro”, disse outro no Twitter (X). “A moeda não reflete a grandeza e o patrimônio da Síria, simples assim”.

Alguns notaram frustração de que as novas notas não trazem a rica arquitetura histórica e os patrimônios culturais da Síria, como a Mesquita Omíada ou arabescos.

“Não sou fã da nova cédula”, sugeriu um usuário. “Mesmo Assad pôs a Mesquita Omíada em sua moeda. Por favor, galera”. A mesma postagem criticou os tons pastéis e o excesso de signos relacionado à natureza.

Um brincou que a nova cédula de dez libras pareceu ilustrada por “um grupo de mães do WhatsApp”, enquanto outro repetiu que o designer não fez mais que passear na feira para obter inspiração.

Houve quem questionasse se o desenho fosse fruto de inteligência artificial.

Quem defendeu o projeto, todavia, reconheceu as críticas como “esperadas”, na tentativa de minimizá-las como parte da fase transicional em que está o país.

Para uma postagem que viralizou, evitar personalidades e até monumentos não passa de uma tentativa de evitar a controvérsia e polarização. Quaisquer elementos do tipo — seja rosto ou cartão-postal — poderia reacender disputas sobre a interpretação.

O imaginário agrícola, ao contrário, seria um lembrete de produtividade, independência e autossuficiência, para reconstruir a economia e o país a partir de dentro. Para defensores, é uma escolha “segura”.

“Chega de criarmos ditadores de papel”, declarou um cidadão.

Outro usuário admitiu: “Sim, é um pouco enfadonho, mas temos que aplaudi-los por não se arriscarem demais”.

As cédulas entraram em circulação em 1º de janeiro, junto da antiga moeda, durante um período transicional.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye em 30 de dezembro de 2025

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.