Desde outubro de 2023, Israel matou ao menos 278 jornalistas em Gaza e 706 entre seus familiares. Neste último dezembro, o parlamento israelense (Knesset) votou a favor de um projeto de lei para banir a presença de redes de imprensa estrangeiras em Gaza até o fim de 2027. Em resposta a uma petição da Associação de Imprensa Estrangeira, o regime em Israel alegou à Suprema Corte que a proibição seria mantida por razões securitárias.
Apesar de imagens ao vivo saindo de Gaza durante o genocídio, especialmente por meio das redes sociais, a narrativa de segurança israelense se manteve bem disseminada pela grande imprensa. Ao cobrir alguns dos mais hediondos relatos de tortura, esta continuou firme em ecoar a versão e os pretextos do governo em Tel Aviv sobre as ações militares em Gaza, ao alegar concordância com a lei internacional. Isso, é claro, apesar de que as leis internacionais não permitem, em caso algum, o assassinato em massa, prisão arbitrária, tortura e humilhação — apesar, é claro, e que Israel comete um genocídio.
A questão não é apenas o que seria revelado caso Israel permitisse que a mídia operasse livremente em Gaza, mas o que se deixou de dizer pela grande imprensa ao assegurar que sua cobertura acompanhasse o editorial israelense.
Israel exerceu um papel majoritário em controlar informações e garantir que o genocídio seguisse omitido ou mesmo contestado pelas manchetes. A imprensa colaboracionista, porém, foi cúmplice direta em disseminar a narrativa de segurança israelense. A ausência de repórteres em Gaza protege deliberadamente a versão israelense, mas essa narrativa igualmente os priva de cobrir diretamente do enclave. A contradição segue no fato de que a grande imprensa é a única capaz de realizar cobertura e manufaturar desculpas.
Como resultado, mesmo o massacre de palestinos se normalizou pelas grandes agências de imprensa, ao informar seus assinantes com notável má fé e insistir que Tel Aviv estaria agindo conforme a lei. Qualquer voz dissonante foi silenciada. Mesmo palestinos foram silenciados, seja pelas bombas ou por censura. O doisladismo foi igualmente explorado para justificar e defender o genocídio em Gaza.
O plano, contudo, saiu pela culatra. Quanto mais se suprimia o termo genocídio, mais as ações de Israel em Gaza se viam questionadas. E muito embora a diplomacia insista em favorecer Israel e o genocídio contra o povo palestino, a opinião pública mudou de forma drástica e notável. O deslocamento entre políticos e eleitores, para além do público e da grande imprensa, tornou-se mais evidente do que nunca desde outubro de 2023. Tel Aviv pode bem manter sua proibição de acesso a repórteres estrangeiros a Gaza, e a imprensa corporativa pode bem preservar sua própria interpretação dos fatos sobre a Palestina; no entanto, o silêncio e a censura criaram nada mais que maior indignação.
A justiça, porém, segue elusiva. Testemunhamos, não graças à grande imprensa, todo um genocídio incidir a Gaza, junto as suas repercussões, soterrado agora sob um paradigma humanitário. Se Israel proíbe a entrada, como é que a imprensa internacional é capaz de dizer, seguindo seu roteiro, que a guerra de extermínio enfim acabou? Ou a proibição será nada mais que outra gota no silêncio e na cumplicidade? O assassinato de jornalistas por Israel torna a cobertura de Gaza mais importante do que nunca. Embora as redes sociais sejam mais rápidas que os editoriais, a manipulação de Israel sobre a mídia não somente afeta Gaza, mas reflete como o colonialismo ainda controla a narrativa. Sim, o público já refutou tamanha dominação. É a imprensa que agora tem de seguir sua deixa, dado que fracassou até então de liderar pelo exemplo.
LEIA: Gaza como argamassa: Seis razões pelas quais Netanyahu prolonga o conflito
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.








