Dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos lideraram, nos bastidores, uma campanha para devolver a família Bolsonaro, de direita, ao poder no Brasil e pressionaram pela imposição de sanções destinadas a favorecer seu desempenho eleitoral, segundo revelou à Reuters um grupo de dez funcionários americanos, atuais e antigos, com conhecimento direto do caso.
O plano enfrenta um teste hoje, durante um segundo turno acirrado entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, que alertou Washington contra qualquer violação da soberania brasileira e acusou seu adversário de conspirar com o governo Trump.
As fontes identificaram os dois funcionários como Darren Beattie, assessor sênior para Assuntos do Hemisfério Ocidental, responsável pela supervisão da política dos Estados Unidos em relação ao Brasil, e Ricardo Pita, assessor sênior que foi promovido neste ano ao cargo de vice-secretário adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental.
Antes do início das campanhas eleitorais, os dois informaram a diplomatas americanos no Brasil que a política oficial consistia em devolver o ex-presidente Jair Bolsonaro ao poder, apesar de sua inelegibilidade em razão de sua participação na tentativa de golpe de Estado de 2022, após perder a eleição para Lula.
Depois que Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão, em setembro de 2025, Beattie e Pita passaram a apoiar a candidatura de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e orientaram funcionários da embaixada americana a não manter contato com outros candidatos conservadores que concorriam com ele.
Para enfraquecer Lula e favorecer a família Bolsonaro, os dois funcionários conseguiram, desde o ano passado, impulsionar medidas punitivas que incluíram a classificação de duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e a imposição de sanções americanas contra um ministro do Supremo Tribunal Federal que liderava a investigação contra o ex-presidente Bolsonaro.
Questionada sobre o assunto, a Casa Branca encaminhou as perguntas ao Departamento de Estado. O porta-voz da pasta, Tommy Pigott, afirmou que todas as medidas visam defender os direitos e a vida dos cidadãos americanos e combater o tráfico de drogas. Ele também ressaltou que os brasileiros têm o direito de escolher seus líderes por meio de eleições livres e justas.
Por outro lado, Orna Blum, que chefiou o escritório para o Brasil e o Cone Sul no Departamento de Estado até renunciar no ano passado em protesto contra as políticas de Trump, criticou o uso de instrumentos de política externa para pressionar a democracia de outro país em relação ao destino de um aliado político. Para ela, essa prática ultrapassa a fronteira entre diplomacia e interferência política.
Detalhes das sanções e das pressões sobre juízes e facções criminosas
As informações indicam que Beattie, ex-redator de discursos da Casa Branca demitido em 2018 por participar de um evento de nacionalistas brancos e idealizador da política de “diplomacia da liberdade de expressão”, e Pita, próximo ao círculo de Marco Rubio, conhecido por sua postura linha-dura em relação à América Latina, se identificaram com as posições de direita da família Bolsonaro e com sua hostilidade a Lula.
Em resposta à intensa pressão exercida pela família Bolsonaro desde 2024 e à visita de Eduardo Bolsonaro, filho mais novo do ex-presidente, a Washington, em abril de 2025, Beattie entrou em contato com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). Em julho de 2025, os Estados Unidos impuseram sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, sob acusações de violação da liberdade de expressão e prática de censura. Moraes rejeitou as acusações e afirmou que trabalhava para remover notícias falsas que enfraqueciam as instituições democráticas.
A família Bolsonaro também pressionou para que as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), fossem classificadas como organizações terroristas, com o objetivo de constranger Lula em relação à questão da criminalidade.
Em maio de 2025, Pita visitou Brasília acompanhado de David Gamble, funcionário responsável por sanções, para se reunir com Jair Bolsonaro, que aguardava julgamento. Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro se reuniu em Washington com Beattie e o vice-secretário de Estado Christopher Landau. No dia seguinte, o Departamento de Estado anunciou a classificação das duas facções como organizações terroristas estrangeiras.
Embora Washington tenha adotado outras medidas em julho de 2025, incluindo o cancelamento dos vistos de oito ministros do Supremo Tribunal Federal e a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, analistas políticos afirmaram que as tarifas tiveram efeito contrário ao pretendido e elevaram os índices de aprovação do governo Lula. Isso levou Washington a aliviar as medidas sob pressão de grandes empresas, como a JBS, pertencente aos bilionários Wesley e Joesley Batista.
A campanha também sofreu reveses quando o nome do ministro Alexandre de Moraes foi retirado da lista de sanções, sem explicação, em dezembro de 2025, e quando o Brasil impediu a entrada de Beattie no país para visitar Bolsonaro na prisão, em março de 2026.
Embora analistas considerassem provável que Trump evitasse apoiar publicamente o candidato para não dar a impressão de interferência eleitoral, o presidente americano descreveu o avanço de Flávio no primeiro turno como uma “vitória muito grande e realmente impressionante”.
![O candidato à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), deposita seu voto na Escola Municipal Barão Homem de Mello, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, em 4 de outubro de 2026. [Fabio Teixeira – Anadolu Agency]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/10/AA-20261004-42649391-42649390-BRAZILIAN_PRESIDENTIAL_CANDIDATE_FLAVIO_BOLSONARO_CASTS_BALLOT_IN_RIO_DE_JANEIRO.webp)