“Não há inocentes em Gaza” seria a crença que esteve no centro do sistema israelense de seleção e ataque a alvos no enclave sitiado, segundo soldados e oficiais de inteligência israelenses entrevistados para um novo documentário que expõe como o Exército autorizou o assassinato em massa de civis palestinos.
NAZA, dirigido pelos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, baseia-se em três anos de entrevistas com 24 soldados e integrantes do serviço de inteligência envolvidos nas operações israelenses de seleção de alvos. Seus depoimentos descrevem uma estrutura militar que combinava seleção de alvos assistida por inteligência artificial, vigilância em massa e limites predeterminados de vítimas civis para aprovar ataques em Gaza.
Segundo a +972 Magazine, onde Abraham trabalha como jornalista, os soldados descrevem um sistema no qual ataques contra residências eram autorizados apesar do conhecimento prévio de que civis seriam mortos, inclusive em casos nos quais o alvo pretendido tinha pouca importância militar. “Você entende que o objetivo é destruir”, recordou um oficial.
A premissa descrita pelos entrevistados também refletia declarações feitas nos mais altos níveis do Estado israelense. Dias depois de 7 de outubro de 2023, o presidente israelense Isaac Herzog declarou que “uma nação inteira” em Gaza era responsável, rejeitando como “absolutamente falso” o argumento de que os civis desconheciam ou não estavam envolvidos no ataque liderado pelo Hamas. A África do Sul posteriormente citou as declarações de Herzog em seu processo por genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
O título NAZA vem de um termo militar israelense usado para se referir ao número de civis que se espera que sejam mortos em um ataque planejado. O documentário mostra como as chamadas “aprovações NAZA” permitiam que os ataques prosseguissem mesmo quando os comandantes sabiam antecipadamente que civis morreriam.
O filme estreou na competição do Festival Internacional de Cinema de Veneza em 10 de setembro de 2026. Abraham e Szor, dois dos cineastas responsáveis pelo filme vencedor do Oscar No Other Land, entrevistaram os soldados e oficiais de inteligência à noite, em Tel Aviv, disfarçando seus rostos e vozes para preservar suas identidades. Jonathan Glazer atuou como produtor executivo.
Os cineastas argumentam que os depoimentos questionam a alegação de Israel de que as mortes de civis eram uma consequência inevitável de sua guerra contra o Hamas. Em vez disso, o documentário retrata a morte de palestinos como resultado previsível de políticas de seleção de alvos, procedimentos operacionais e limites autorizados para vítimas civis.
NAZA dá continuidade às investigações publicadas pela +972 Magazine, Local Call e pelo Guardian sobre o uso de inteligência artificial e vigilância automatizada por Israel em Gaza.
Um dos sistemas expostos em reportagens anteriores foi o Lavender, que, segundo fontes da inteligência israelense, gerou uma lista de cerca de 37 mil palestinos suspeitos de serem integrantes de baixo escalão do Hamas. Segundo os relatos, os oficiais dependiam fortemente de suas recomendações, às vezes com apenas uma análise humana mínima, antes de autorizar os ataques.
Outro sistema, conhecido como “Where’s Daddy?”, monitorava pessoas selecionadas para serem atacadas e alertava os militares israelenses quando elas entravam em suas casas. Oficiais de inteligência disseram à +972 Magazine e à Local Call que integrantes suspeitos de baixo escalão eram frequentemente atacados deliberadamente em suas residências, inclusive à noite, quando seus familiares estavam presentes.
O documentário foi produzido pelo Guardian e por James Wilson, com Glazer entre seus produtores executivos. Sua estreia em Veneza teria recebido uma ovação de pé que durou quase 25 minutos.
O filme chega em um momento em que o número de palestinos mortos na ofensiva de Israel contra Gaza ultrapassou 73 mil. Uma comissão da ONU, importantes organizações de direitos humanos e estudiosos especializados em genocídio concluíram que a conduta de Israel em Gaza constitui genocídio.
![Rachel Szor (E) e Yuval Abraham (D) participam do photocall de “Naza” durante o 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza, no Palazzo del Casino, em 10 de setembro de 2026, em Veneza, Itália. [Primo Barol – Anadolu Agency]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/09/AA-20260910-42434481-42434471-NAZA_PHOTOCALL_THE_83RD_VENICE_INTERNATIONAL_FILM_FESTIVAL-1.webp)