“Este livro não é uma leitura fácil”, adverte Rashid Khalidi na introdução à obra Lentes cúmplices: A cobertura de mídia estadunidense sobre o genocídio israelense em Gaza, de Robin Andersen (OR Books, 2026). Enquanto veículos independentes e alternativos promoveram mudanças sísmicas na opinião pública nos Estados Unidos desde o início do genocídio israelense em Gaza, a grande imprensa forneceu a Israel um escudo para seus crimes. Se, por um lado, mídia tradicional justificou o extermínio e atuou como porta-voz de Israel e dos Estados Unidos, mídias independentes mostraram o horrores tal como ocorriam. Enquanto o genocídio israelense prosseguia sem oposição política, a imprensa corporativa seguia retratando palestinos em Gaza e quaisquer críticos ao massacre como “vilões da história, em vez dos criminosos de guerra que perpetraram assassinatos, destruição e fome”.
A cobertura midiática dominante seguiu uma sequência previsível, além de enraizada e reforçada, a despeito das incontáveis ocasiões em que tais narrativas foram desmentidas por fatos.
Uma discrepância notável, escreve Andersen, são as informações disponíveis na própria mídia israelense sobre o começo do genocídio. Enquanto o jornalismo ocidental simplificou o início da carnificina através da infiltração e ataque do Hamas contra Israel, a imprensa israelense destacou o papel de suas Forças Armadas na morte de colonos civis, com depoimentos de cidadãos indignados com as ações militares. Andersen observa que, se a imprensa ocidental tivesse incluído o assassinato de seus próprios cidadãos por Israel ao implementar a chamada diretiva Hannibal, “a estrutura narrativa rudimentar teria perdido boa parte de seu valor persuasivo”.
De fato, a narrativa simplista enfatizada pela grande imprensa exigia um ponto de partida. Sete de outubro forneceu a desculpa não somente para apoiar o genocídio israelense, mas para apagar toda a história colonial sionista e a apropriação dos territórios palestinos. Sem contexto, as notícias viraram uma série de eventos obscuros e distantes da história. A linguagem, contudo, desempenhou papel fundamental. Como afirma Andersen: “Genocídio não acontece sem uma língua para incitá-lo”. Desde as declarações iniciais de autoridades israelenses, a imprensa apressou-se em demonizar os palestinos também ao omitir a terminologia honesta adequada que caracterizaria as ações genocidas de Israel.
Vazamentos de memorandos internos da grande imprensa revelaram até que ponto as notícias foram disseminadas mediante manipulação. Diretrizes editoriais buscaram controlar a narrativa, ao omitir genocídio, mesmo enquanto este era transmitido ao vivo por mídias alternativas e nas redes sociais.
O número de mortos por Israel foi tratado como retórica propagandística, enquanto canais como CNN e New York Times deixavam de atribuir sujeito gramatical aos bombardeios perpetrados por Israel. A linguagem que descreveria as condições de vida dos palestinos durante o genocídio também eliminou menções ao deslocamento compulsório da população de Gaza – bairros, por exemplo, e não campos. Corpos sem vida foram enquadrados por suposições que questionavam realidades, enquanto massacres realizados por Israel nos chamados locais de distribuição alimentar foram descritos como “mortes relacionadas à assistência humanitária”, em um tom deliberadamente vago e distante, por jornais como o The Guardian. O New York Times tampouco se saiu melhor, ao encobrir parte considerável dos fatos: “Mortes de palestinos famintos geram novos apelos por cessar-fogo”.
Táticas semelhantes foram empregadas pela grande imprensa ao discutir o bombardeio israelense ao Hospital Al-Shifa. Focando na propaganda que justificava os ataques – suposto centro de comando do Hamas, nos subterrâneos do hospital – a mídia tradicional vinculou Al-Shifa a crimes de guerra, mas não a Israel. Como ocorreu no início do genocídio, quando muitas declarações foram desmascaradas pela imprensa alternativa, as narrativas israelenses sobre Al-Shifa provaram-se falsas. No entanto, a grande imprensa ainda disseminou a versão oficial de Israel, alterada múltiplas vezes conforme avançavam investigações independentes.
Quando Israel atacou diretamente um campo de refugiados e queimou palestinos à morte, a CNN reportou não os fatos, mas o que oficiais israelenses disseram ao governo de Joe Biden. “É o que Israel nos falou”, comentou um funcionário americano aos jornalistas. A linguagem, no contexto dos ataques israelenses ao Hospital Al-Shifa, foi ainda mais ambígua. Andersen cita o New York Times, que enquadrou os ataques com terminologia de desastres naturais – Al-Shifa “estava em ruínas no domingo, como se um tsunami tivesse varrido a região após um tornado”.
Andersen observa que, para cada instância de manipulação do genocídio pela grande mídia em benefício de Israel, os veículos alternativos e independentes levaram ao público investigações e respostas. Desde as primeiras alegações desmentidas de bebês decapitados – que desencadearam apoio frenético ao genocídio israelense – até acusações de estupro atribuídas ao Hamas, a imprensa independente não só forneceu a prova das mentiras, como expôs a rede as disseminou.
A mídia independente igualmente documentou o assassinato seletivo de jornalistas palestinos em Gaza, ao notar o contraste na tratativa entre repórteres palestinos que cobriam o genocídio em tempo real e profissionais da grande imprensa cuja prioridade era transmitir a narrativa sionista. A recusa da mídia convencional em mencionar as execuções em campo de jornalistas palestinos contribuiu para os esforços israelenses de silenciar a cobertura em Gaza – as únicas fontes disponíveis, visto que Israel negou entrada a jornalistas internacionais. O silêncio cúmplice da grande imprensa no Ocidente contradiz a essência do jornalismo, tudo para preservar o genocídio.
“Os muitos exemplos de má prática jornalística incluídos neste livro expõem a submissão da imprensa corporativa ao poder e seu abandono da independência e do dever de informar”, conclui Andersen. O genocídio em Gaza revelou os parâmetros extensos da incitação e o alcance internacional do sionismo. A grande imprensa contribuiu para uma divisão crescente não apenas entre fontes midiáticas, mas também para turvar a realidade dos fatos – aqueles que defendem justiça são equiparados a terroristas, e os que difamam pessoas que pedem justiça prosperam na impunidade.
Os inúmeros exemplos citados por Andersen em sua extensa pesquisa sobre a cobertura de Gaza exigem um escrutínio severo, não apenas sobre intenções, mas sobre a violação da linguagem e suas repercussões para a Palestina, para Gaza e para todos que se opõem ao colonialismo e ao genocídio.
Andersen nota que a manipulação midiática do genocídio conduzido por Israel em Gaza teve precedentes, como a invasão dos Estados Unidos ao Iraque, embasada em alegações fabricadas sobre armas de destruição em massa. No contexto iraquiano, porém, a grande imprensa emitiu pedidos públicos de desculpas, muito embora tardios, por seus esforços de propaganda. Andersen reitera que, até agora, nada semelhante foi apresentado em relação ao caso de Gaza.
