As relações diplomáticas entre os países que hoje compõem o Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (GCC) e a América Latina começam com o Brasil e a Arábia Saudita em 1968, na sequência sendo estabelecidas com o México e a Argentina.
A fundação do GCC – ao menos de suas instituições e acordos iniciais -e é de 1981 e a do Mercado Comum do Sul (Mercosul) é de 1991, dez anos depois.
Neste breve artigo faremos um breve relevo das relações diplomáticas entre ambos blocos e dos principais investimentos dos fundos soberanos sauditas e emiradenses no Brasil, país líder do bloco do Sul e da economia latino-americana.
As relações Mercosul e GCC e Brasil com Emirados
Em abril de 2009 a Câmara dos Deputados assinou um acordo econômico entre Mercosul e GCC. Fazem parte desse conselho Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Omã, Catar e Kuwait. Esse grupo é o segundo maior importador líquido de alimentos do mundo, e o objetivo do acordo era estabelecer o livre comércio futuramente entre os dois grupos.
Duas décadas depois as negociações “esfriaram” um pouco. O Brasil, maior economia do Mercosul e de toda América Latina, tentou avançar em um acordo de livre comércio através do bloco sul-americano com os Emirados Árabes Unidos (EAU).
Em visita aos Emirados em fevereiro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com o presidente do país árabe, Mohammed Bin Zayed Al Nahyan
A ideia do tratado, chamado oficialmente de Acordo de Parceria Econômica Abrangente (Cepa, na sigla em inglês), foi lançada em 2023, por meio de uma consulta pública do governo brasileiro destinada a sondar empresários e a sociedade civil sobre um eventual convênio. As negociações seguiram em 2024 e 2025, e havia expectativa de autoridades do Brasil e dos Emirados que as tratativas seriam concluídas ainda no ano passado, o que não ocorreu.
Investimentos do PIF e Mubadala no Brasil
Os dois maiores fundos de países-membros do GCC, o Fundo de Investimento Público (PIF) do Reino da Arábia Saudita e o Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, têm presença em todos os países do Mercosul e em vários da América Latina. O portfólio básico incide sobre minerais e energia, além de marcas ou ativos de alto valor agregado. Vejamos.
Manara Minerals e minerais estratégicos e críticos junto à Vale
A Manara Minerals, uma joint venture entre a Ma’aden e o PIF, assinou um acordo com a Vale (antiga Companhia Vale do rio doce, privatizada no 1o governo de Fernando Henrique Cardoso) para apoiar o crescimento da indústria de mineração da Arábia Saudita.
A parceria está alinhada com a Visão 2030, que coloca a mineração como o terceiro pilar da economia saudita. A Manara assinou um acordo com a Vale S.A. (Vale), pelo qual a Manara Minerals fará um investimento de capital na Vale Base Metals Limited (VBM), a holding do negócio de Metais para Transição Energética da Vale. Simultaneamente, a Vale assinou um acordo de investimento com a Engine No.1 nos mesmos termos econômicos.
A Manara Minerals e a Engine No. 1 deterão participações acionárias de 10% e 3%, respectivamente, na VBM, com um valor implícito da empresa de US$ 26 bilhões. Por meio desta transação, a Manara Minerals terá acesso a cadeias de suprimentos de alta qualidade para minerais estratégicos, incluindo níquel, cobre e cobalto, o que apoiará o crescimento do setor de mineração da Arábia Saudita.
Isso está em consonância com a Visão 2030, o plano nacional de reforma econômica, que posiciona a mineração como o terceiro pilar da economia saudita. A Manara Minerals visa contribuir para a resiliência das cadeias de suprimentos globais e acelerar a transição energética global.
SALIC e segurança alimentar
A Companhia Saudita de Investimentos Agrícolas e Pecuários (SALIC) foi estabelecida em 2009, como uma sociedade anônima saudita pertencente ao Fundo de Investimento Público (PIF). Atividades de investimento devem ocorrer dentro e fora do Reino da Arábia Saudita, contribuindo para a segurança alimentar, por meio do fornecimento de produtos alimentícios e da estabilização de seus preços, através da criação de subsidiárias independentes ou de parcerias nacionais, regionais e internacionais. A SALIC iniciou suas atividades de investimento em 2012, com diversas empresas globais nos setores de agricultura, comércio de grãos, arroz e carne em países como o Brasil, economia líder do Mercosul.
Mubadala no Brasil
Já no caso do Fundo Mubadala, soberano dos Emirados Árabes Unidos, opera no Brasil com uma diversificação que vai da Refinaria de Mataripe (influenciando no preço do diesel em todo país), através da Acelen; do negócio de bioenergia com a Atvos; da Zamp rede restaurantes e fast food e no ensino e pesquisa científica de medicina de alta complexidade, com a Clariens.
Análise crítica das relações e investimentos
Apesar da presença de fundos como os citados acima e a exportação de proteína animal para os países do GCC, observa-se uma repetição de investimentos em cadeias produtivas que não têm alto valor agregado. Capitais emiradenses investem também em amplas parcelas de terra na Argentina e no Paraguai, idem no setor imobiliário urbano, mas não colocam ênfase em joint ventures ou no processo de nova industrialização.
Um caminho viável seria triangular com os capitais chineses, o maior parceiro comercial tanto do reino saudita como da federação de emirados. No caso das relações Riad e Pequim, cerca de 65% das transações comerciais se dão em moeda chinesa, o que gera um enorme montante de capacidade de investimento a partir destas reservas em yuanes.
Admite-se que países como Catar, Arábia Saudita e Omã estão propensos a gerar formação bruta de capital fixo com operações mais distantes da hegemonia dos EUA do que EAU, Kuwait e Bahrein. A política externa pendular de Doha e Riad possibilita uma busca por relações mais profícuas, onde o mito dos petrodólares e a vida nababesca de cortes e monarcas seja substituído por uma visão estratégica de médio prazo no rumo da multipolaridade que avança no século XXI.
A realidade pós guerra no Golfo Pérsico pode abrir o espaço geoeconômico e permitir esse espaço ainda mais amplo, onde os tomadores de decisão do GCC vão poder mirar mais além das condicionantes de EUA e da Colônia Sion1sta invasora. Caberia às elites políticas e econômicas do Mercosul propor a criação de plantas industriais podendo canalizar os volumes absurdos de recursos líquidos de PIF, Mubadala e os fundos catarianos (QIA e QFFD).
Do contrário seguiremos a sina de vender proteína animal e minerais e contar com os recursos de gás e óleo, sem avançar nas cadeias de alto valor estratégico. Ir além das determinações pós-coloniais deveria ser um objetivo permanente de todos os países soberanos do planeta.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.








