Os Estados Unidos seguem implementando cortes severos em seus programas de assistência ao desenvolvimento externo, desde que Donald Trump assumiu a presidência em 2024. No ano seguinte, a ajuda externa americana caiu de US$200 bilhões a US$174 bilhões, com promessas de novas reduções. Grande parte da assistência afetada inclui socorro humanitário e projetos de estabilização. Nos círculos da atual administração, a ajuda externa é tratada como um privilégio ou doação inaceitável, que traz muito pouco retorno aos Estados Unidos.
Enquanto a USAID é vista, na melhor das hipóteses, como um ralo para os recursos americanos e, na pior, como uma tentativa da velha elite liberal de beneficiar estrangeiros em detrimento dos cidadãos americanos, poucos que a demonizam compreendem o que a agência realmente faz. Os cortes nesses programas minam esforços globais de assistência emergencial, bem como o auxílio a países para se reerguerem.
É aqui que encontramos uma intervenção no debate por parte de James A. Harmon, Cornelius Queen e Mark Warren com seu mais recente livro, Um empreendimento audacioso: Parceria EUA-Egito e o caso a favor do soft power. O trio integrou a certa altura o Fundo de Empreendimento Egípcio-Americano (Egyptian-American Enterprise Fund – EAEF), criado em 2011 com recursos do Congresso dos Estados Unidos, com o propósito de reconstruir o setor privado egípcio após a Primavera Árabe.
Argumentam os autores: “Nossa missão, em termos simples, era influenciar e aprimorar o setor privado egípcio, para que um Egito estável pudesse ascender como um aliado sólido e bom parceiro comercial para seus vizinhos e para os Estados Unidos, e não um problema de segurança que os militares americanos tentassem resolver posteriormente”. Em outras palavras, o livro é uma defesa do soft power americano que, ao contrário do que alguns acreditam, serve a um interesse nacional vital dos Estados Unidos que beneficia tanto egípcios quanto, de fato, Washington.
Um Egito estável é melhor do que um Egito instável, pois o país faz parte dos interesses estratégicos regionais americanos e, sendo este o caso, sua volatilidade acabaria consumindo mais recursos americanos, não menos. A obra serve também de apelo aos valores liberais americanos e às crenças fundamentais em suposta liberdade e democracia. O livro nota que, embora os jovens egípcios não tenham conseguido trazer a democracia ao país em âmbito político, em 2011, se olharmos ao setor privado — aplicativos de relacionamento, comércio eletrônico, restaurantes e novos empreendimentos —, os egípcios começaram a desenvolver um espaço econômico mais livre e democrático, que lhes proporciona mais escolha. Em 2011, o Egito mal tinha cultura de startups; em 2019, tornou-se um dos principais polos do setor na região ampla do Oriente Médio e Norte da África.
Um empreendimento audacioso nos leva a uma jornada pessoal pelo fundo de assistência externa americana de maior sucesso: o EAEF. O programa efetivamente atraiu US$1,7 bilhão em investimentos estrangeiros ao setor privado egípcio desde 2011. Contudo, o que torna o livro interessante não são os dados ou os argumentos para sua necessidade, mas as histórias de como muitos egípcios transformaram suas vidas, apesar dos obstáculos. Encontramos diferentes personagens ao longo do caminho. Narrativas como a de Sameh, empreendedor egípcio que apresentou a seus concidadãos aplicativos de relacionamento filtrados de acordo com as normas e tradições culturais locais; o que o compeliu a tamanho empreendimento foi, conforme seu relato, um pedido de sua mãe por ajuda para encontrar um par adequado a sua irmã.
Sameh fundou o Harmonica, que recebeu capital do fundo egípcio-americano e se provou altamente bem-sucedido. “No início de 2019, em um movimento que causou ondas de choque por toda a região, a Match adquiriu o Harmonica em sua primeira grande ofensiva no Oriente Médio”. Uma história como essa demonstra a mudança na maneira como os investidores estrangeiros viam o Egito: de um lugar a ser evitado para se tornar um cenário onde ansiavam entrar.
O sucesso do EAEF em ajudar o Egito a construir uma cultura de startups não era óbvio quando tudo começou. Entre 2011 e 2015, houve poucos investimentos e, como o livro explica, frequentemente tinham de lutar por sua própria sobrevivência. Parte do problema é que o fundo exigia aprovação congressional, o que o sujeitava aos caprichos da política partidária americana. Como mostra um capítulo, o senador Lindsey Graham ameaçou cortar os recursos, sem dar atenção ao impacto no Egito. Enquanto um dos autores tentava convencer Graham de que aquilo era benéfico para a política dos Estados Unidos, Graham insistia em descartar os argumentos, para atacar o presidente Barack Obama. Graham buscou suspender os fundos meramente por culpar Obama pelos transtornos geopolíticos do Oriente Médio. “O ressentimento contra o presidente Obama, confirmou Graham, motivava suas ações contra o fundo”.
Um empreendimento audacioso é uma leitura interessante, pois oferece uma janela para o funcionamento de iniciativas que fazem parte dos antigos programas da USAID. É também um relato de dentro e parte de um esforço de defesa de uma iniciativa para que a atual administração dos Estados Unidos, bem como interessados na política externa americana, enxerguem o impacto de tais programas e de seu eventual corte. Compreender esse pano de fundo deve permitir que acadêmicos, jornalistas, pesquisadores e leigos tirem suas próprias conclusões sobre o valor da USAID e os argumentos postos no livro.
Um empreendimento audacioso oferece um olhar familiarizado sobre como a USAID resistiu à turbulência do Egito pós-revolucionário e relatos de como jovens egípcios buscaram construir, de um modo ou de outro, seus próprios futuros.
