A imprensa de Portugal noticiou amplamente o retorno ao país dos dois membros portugueses da Global Sumud Flotilha, Beatriz Bartilotti e Gonçalo Dias, libertados pelo governo israelense após passarem quatro dias em poder do exército sionista. Ao todo, 428 ativistas, de 50 embarcações detidas em águas internacionais, desembarcaram inicialmente na Turquia carregando histórias horripilantes sobre agressões, torturas, humilhações e até violência sexual, incluindo estupro.
Segundo os organizadores, há pelo menos 15 casos de abuso sexual. Todas as vítimas passaram por exames médicos e documentação das marcas de violência em seus corpos. A libertação se deu na sexta-feira (23/5), quando muitos dos relatos divulgados nas redes sociais foram gravados.
“Pessoas eram escolhidas aleatoriamente e levadas para uma tenda menor, atrás da tenda principal. Conseguíamos ouvir gente gemendo lá dentro. Estavam sendo agredidos sexualmente. Enquanto isso acontecia, os soldados colocavam para tocar alto música reggae hebraica e continuavam espancando pessoas”, destacou o Público, em sua edição de sábado (23/5).
No podcast da Sic Notícias “Programa cujo nome estamos legalmente impedidos de dizer”, estrelado pelo jornalista e comediante Ricardo Araújo Pereira, juntamente com os jornalistas Carlos Vaz Marques João Miguel Tavares e Pedro Mexia, o vídeo divulgado pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben Gvir, onde ele insulta e ridiculariza os ativistas, enquanto soldados os agridem, foi mencionado como algo que teria surpreendido o próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas, ao contrário do que supôs o comediante de que “até Netanyahu teria dito que isso é capaz de ser demais”, o que as imagens mostram é a própria política de tratamento dado a palestinos e a quem se opõe às forças de ocupação israelense. O que provavelmente chamou atenção foi a circulação do vídeo a partir de um ministro de governo.
“Mas, mesmo assim, Netanyahu o manteve em seu governo. Uma reação parecida com a de Portugal, que disse: Olha que assim a gente chateia-se parcialmente”, ironizou Ricardo Araújo ao se referir à condenação da violência contra os ativistas, pelo primeiro-ministro do país, Luís Montenegro, que chegou a admitir encampar a proposta de suspensão parcial do acordo comercial da Europa com Israel, no parlamento europeu.
Na bancada da CNN Portugal, onde foi travado um debate inflamado entre comentaristas, o jurista Sérgio Sousa Pinto, do Partido Socialista (PS), que já foi membro do parlamento europeu, questionou o que seria uma sanção parcial defendida por Montenegro. Em relação à ausência no parlamento europeu de posicionamentos contrários à violência sofrida pelos ativistas, e pelo genocídio do povo palestino, lamentou a ausência de políticos com vozes críticas aos acontecimentos em Gaza e no Líbano. “Já me acostumei a me sentir constrangido, comovido, melancólico, reprimido com essa pusilanimidade e essa política externa invertebrada de Portugal. Mais: o que se constata é que é um problema não só de Portugal, mas europeu. A Europa, que é um continente martirizado, sacrificado, das grandes guerras, do Holocausto. Onde estão essas vozes?”
Na mesma emissora, a jurista socialista Alexandra Leitão, vereadora de Lisboa, lembrou que o acordo comercial da União Europeia com Israel também tem bases políticas, como a defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos, o que já teria sido desrespeitado em diversas situações nos últimos dois anos e meio, não somente agora com a Flotilha. “Se tratam assim europeus e pessoas de outros países que têm estruturas diplomáticas, imagine o que acontece em Gaza e aos presos palestinos”.
O canal de notícias português, que mantém em seu quadro um grande número de apoiadores ao regime sionista de Israel, também deu espaço ao historiador José Pacheco Pereira, do Partido Social Democrata, (PSD), em um programa que avaliou como positivo o posicionamento de Montenegro em relação à Flotilha. Pacheco desmentiu a ideia de que Israel seria o único país democrático do Oriente Médio por ter eleições diretas. “Ser uma democracia é muito mais do que votar. É ter um conjunto de leis e respeitá-las, é respeitar os direitos humanos universais e muitos outros comportamentos os quais Israel não tem”.
Também desmontou a falsa alegação israelense pela qual continua bombardeando Gaza e, agora com mais intensidade, o sul do Líbano, de que estaria combatendo o Hamas, devido ao ataque de 7 de outubro de 2023. “Tem a ver com o alargamento territorial de Israel. E também não aceitam a criação do estado palestino para que colonos judeus continuem atacando aldeias palestinas e ocupando territórios na Cisjordânia. É por isso que Israel hoje não merece sequer que nos lembremos de seu passado e que muito menos seja nomeado como um país democrático”.
Ainda sobre as imagens compartilhadas por Ben Gvir, o membro português da Flotilha declarou que o que foi filmado e divulgado seria a “parte boa”. “Houve muita violência, fomos torturados, espancados, contamos pelo menos 35 pessoas com fraturas. Foi horrível”, lembrou a também integrante Beatriz Bartilotti. Ambos lamentaram que a solidariedade tanto de Portugal, quanto de outros países, só se expresse quando a violência ocorre contra pessoas de fora da Palestina.
Alguns jornais como The Guardian, BBC de Londres e o israelense Haaretz reproduziram matéria publicada pela Reuters com depoimentos de integrantes da organização e fotos.
Criada em 2008, a Flotilha tem como intuito levar ajuda humanitária à Gaza, para chamar a atenção do mundo sobre o estado de calamidade que vivem dois milhões de palestinos mantidos presos, sob bombardeios, há décadas e que nos últimos 2 anos e meio se intensificaram, após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Falso cessar-fogo
Em dezembro de 2025, a Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que 80% das construções em Gaza foram completamente destruídas, resultando em 55 milhões de toneladas de escombros e cerca de 74 mil mortos. Após sete meses da assinatura de cessar-fogo entre Israel e Hamas, praticamente nada foi removido e explosões e gritos continuam a serem ouvidos em Gaza.
Milhares de tendas improvisadas viraram endereços permanentes. Escolas, hospitais e demais infraestrutura básica que organizava a vida nas cidades, desapareceram. Há escassez de comida, água, eletricidade e medicamentos. A ONU já relatou inúmeras dificuldades para se locomover, que vão desde a falta de peças para reposição de veículos até autorizações para circular nas áreas mais afetadas. Diversos relatos dão conta de que os poucos alimentos que chegam são industrializados, sem valor nutricional. Nas últimas semanas a questão sanitária vem se agravando cada vez mais, levando a uma infestação massiva de ratos e de insetos e, consequentemente, a proliferação de muitas doenças.
Ativistas libertados e organizadores reafirmam a necessidade das missões continuarem, mesmo que sob o risco de novos sequestros e crimes. Eles lembraram que ainda são feitos prisioneiros políticos 9.600 palestinos. Segundo a Addameer, entidade de apoio a presos e familiares, 84 são mulheres, 350 crianças e 4.784 não tiveram sequer uma acusação formal.
Até agora, somente Espanha, Irlanda, Itália e Bélgica exigiram publicamente responsabilização pelos crimes praticados contra os integrantes da Flotilha,
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