Mais uma comemoração da Nakba se passou. Na ONU, a retórica permanece inalterada. É assustador que, mesmo após um genocídio colonial que autoridades israelenses chamaram de Nakba 2.0, a ONU esteja determinada a nunca mencionar o colonialismo. A ONU jamais, nem mesmo no aniversário da Nakba, se dirigirá ao povo palestino e admitirá sua cumplicidade ao endossar o Plano de Partilha de 1947 para a colonização da Palestina.
Por mais que a ONU mantenha sua relevância autoimposta em relação ao destino do povo palestino, o povo palestino não deve ser subjugado à ONU. E tampouco a história, a cultura e a memória coletiva da Palestina devem ser exploradas em discursos comemorativos da ONU.
Na semana passada, a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, proferiu um discurso na 78ª comemoração da Nakba, começando com um poema de Mahmoud Darwish para ilustrar o deslocamento perpétuo do povo palestino. Baerbock distorceu imediatamente a colonização sionista da Palestina, afirmando: “Uma das primeiras tarefas das Nações Unidas foi encontrar uma solução justa para conflitos e crises em todo o mundo, incluindo a Questão da Palestina”.
Mas a Palestina nunca foi uma questão. A Palestina foi colonizada com a plena aprovação da ONU.
Baerbock prosseguiu: “A tão prometida Solução de Dois Estados, reconhecida como o único caminho sustentável para a paz, segurança e prosperidade para palestinos e israelenses – e a única resposta real para a Questão da Palestina – permanece fora de alcance.”
Se o colonialismo deve ser reduzido a uma questão de resposta, Baerbock deveria ter se concentrado em uma fórmula mais simples: Colonizar – descolonizar.
Contudo, Baerbock, mais uma vez e previsivelmente, desviou-se de abordar o colonialismo israelense. “Sabemos o que fazer”, disse ela, referindo-se à Declaração de Nova York, que apenas reitera o compromisso internacional com o paradigma de dois Estados. É claro que a ONU sabe o que fazer – seguir qualquer caminho que estenda o Plano de Partilha de 1947. Se isso levar ao genocídio, como aconteceu em Gaza, que assim seja, segundo a ONU. Conflito e questionamento são o único vocabulário de que a ONU precisa como verniz para sua cumplicidade.
Desde o cessar-fogo, 800 crianças palestinas foram mortas em Gaza, afirma Baerbock, sem mencionar Israel. Desde outubro de 2023, Israel matou mais de 21.000 crianças em Gaza. Como Baerbock utiliza estatísticas no dia da comemoração da Nakba? Por que minimizar os prazos e as estatísticas? Para se adequar à narrativa dos dois Estados, é claro. Se falarmos de Gaza desde o cessar-fogo, não há necessidade de mencionar o genocídio israelense desde outubro de 2023, muito menos todos os crimes de guerra de Israel que tornaram impossível a implementação da solução de dois Estados. Um relato limitado das violações normalizadas por Israel está mais de acordo com a estratégia de apresentar o paradigma dos dois Estados como “a única solução”.
Enquanto isso, a Autoridade Palestina não se saiu melhor, encolhendo-se ainda mais para promover a interferência do governo Trump em Gaza e mencionando, sem criticar, o Plano de Partilha da ONU, “que previa o estabelecimento de um Estado árabe para o povo palestino em 45% da Palestina histórica, ao lado do Estado de Israel”. Será possível que Mahmoud Abbas afirme isso sem reconhecer a dissonância? A terra é palestina. O Plano de Partilha de 1947 colonizou a Palestina. Não garantiu o estabelecimento de um Estado palestino; a percentagem de terras roubadas fala por si.
No 79º aniversário da Nakba, em 2027, qualquer pessoa incapaz de denunciar o colonialismo e a sua teia de cumplicidades deve manter-se em silêncio. Não há honra em apropriar-se da memória palestina para garantir a impunidade do colonizador e dos seus cúmplices institucionais.
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![Manifestantes pró-Palestina marcham durante um protesto que marca o 78º aniversário da Nakba em Toronto, Ontário, em 16 de maio de 2026. [Mert Alper Dervış – Agência Anadolu]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/05/AA-20260517-41407374-41407357-MARCH_HELD_IN_TORONTO_ON_THE_78TH_ANNIVERSARY_OF_NAKBA-scaled-e1779193883672.webp)