O futebol não é mais tão ‘maravilhoso’, ao colaborar com o genocídio

Ramona Wadi
2 horas ago

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Jibril Rajoub, presidente da Associação Palestina de Futebol, discursa no 74º Congresso da FIFA, em Bangkok, Tailândia, em 17 de maio de 2024 [Manan Vatsyayana/AFP via Getty Images]

O presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino, mostrou-se, quando muito, infantil, durante o 76º Congresso de sua organização, quando insistiu ao chefe da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, e ao vice da associação de Israel, Basim Suliman, que apertassem as mãos. Diante da recusa de Rajoub, como protesto ao genocídio em Gaza, comentou Infantino: “Vamos trabalhar juntos. Vamos trabalhar juntos para dar esperanças às crianças. Essas coisas são muito complicadas”.

Por décadas e décadas, a FIFA lavou as mãos sobre incontáveis violações gravíssimas da lei internacional. Poderíamos lembrar da destruição de favelas para construir estádios à Copa de 2014, no Brasil. Anos antes, o silêncio tácito da FIFA perante ditaduras militares em toda a América Latina, responsáveis por dezenas de milhares de desaparecimentos, bem como tortura, prisões políticas e assassinatos. Em 1978, na Argentina, estádios que sediaram jogos não eram distantes dos centros de extermínio.

No que diz respeito à Palestina, a FIFA não agiu melhor. Mantém suposta neutralidade em sua recusa em suspender Israel — mesmo diante do genocídio e da limpeza étnica, que seguem com a cumplicidade de toda uma rede internacional, de setores diplomáticos a econômicos, de modo a favorecer na prática os crimes da ocupação. Se é complexo, isso se deve na intrincada rede de cúmplices, incluindo a FIFA como braço de propaganda. A parte da matança, por outro lado, é direta e simples, como os oficiais israelenses têm se vangloriado.

Neste sentido, mesmo que o presidente da FIFA decida minimizar o brutal colonialismo a “coisas complicadas”, por que Rajoub se viu obrigado a diluir seu gesto em comentários posteriores, ao condescender “boas intenções” do cartola italiano? Rajoub não quis, com razão, apertar as mãos de um oficial “que defende [Benjamin] Netanyahu e seu governo”, mas por que minar o mérito de sua verdade com uma introdução apologética?

Redes de imprensa chegaram a ponderar que Infantino tentara capitalizar de um eventual aperto de mãos em meio a seu anúncio de que concorreria, novamente, à presidência da FIFA. A manipulação foi descarada. Questões complicadas? Ou egolatria? Trazer à tona a tragédia em Gaza, sob genocídio israelense, na tentativa de diluí-la em um gesto e alegar esperança às crianças mostrou-se nada mais que mais um fundo do poço na história da FIFA e de outros cúmplices de crimes coloniais.

Em fevereiro último, Infantino da FIFA e Aleksander Ceferin, presidente da Federação das Associações Europeias de Futebol (UEFA), viram-se denunciados perante o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, por auxiliar e promover crimes de guerra e contra a humanidade, ao permitir a inclusão em seus eventos de clubes israelenses radicados nos assentamentos ilegais da Cisjordânia ocupada. Conforme os querelantes, os cartolas da FIFA e da UEFA capitularam e colaboraram com autoridades de Israel e Estados Unidos ao assumirem essa postura.

Com tamanha cumplicidade, Rajoub poderia ter evitado minar sua mensagem ao assentir benevolência a Infantino. Certamente, não cabe aos colonizados preservar a carreira do cartola. Os palestinos têm testemunhado sua resistência atacada sem cessar, à margem da sobrevivência — é com tamanha resiliência histórica que seguirão adiante e além, não com comiserações.

O futebol não é mais, ao que parece, aquele “jogo maravilhoso”. Nas garras da FIFA fede a corrupção, colaboração com regimes militares e mesmo com o genocídio. É complicado? A diplomacia internacional pode até oferecer um verniz à retórica pueril de Infantino, mas basta os testemunhos de Gaza para que caía por terra.

O futebol, hoje, é cúmplice da morte. Apertar as mãos seria assinar este acordo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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