Quando, como um jovem jornalista inexperiente, comecei a trabalhar para a agência de notícias Reuters, a primeira coisa que meu editor me disse foi: “Acima de tudo, precisão”.
E velocidade? “Em segundo lugar”, disse ele.
Embora o principal objetivo da Reuters seja o de ser a primeira a divulgar notícias de última hora rapidamente para que possam ser repercutidas por veículos de comunicação do mundo todo, essa velocidade não valeria nada se o que fosse noticiado não fosse preciso.
Então, o que isso significa? O que significa ser preciso no jornalismo? Em sua essência, significa o seguinte: diga ao público apenas o que você sabe, seja claro sobre como você sabe e, se algo não for conhecido, deixe isso claro também.
Como, então, explicar a enxurrada de notícias que surgiram nas últimas semanas usando termos vagos como “ligado ao Irã”, “apoiado pelo Irã” e “alinhado ao Irã”, sem dizer aos leitores e telespectadores exatamente o que significam essas expressões imprecisas?
Editorial da BBC
Houve três notícias recentes em que os termos foram aplicados livremente. Primeiro, o ataque incendiário a quatro ambulâncias pertencentes à Hatzola, um serviço voluntário de resposta a emergências administrado pela comunidade judaica em Londres.
Poucos dias depois, o e-mail pessoal do diretor do FBI, Kash Patel, foi hackeado. E no dia seguinte, um homem tentou detonar um dispositivo explosivo improvisado em frente à sede do Bank of America em Paris.
Todos os três casos foram considerados ligados ou alinhados ao Irã por algumas das organizações de notícias mais respeitadas do mundo ocidental, incluindo, para citar apenas um exemplo, a BBC, que também não se saiu bem em sua cobertura do genocídio israelense em Gaza.
Enquanto um grupo pouco conhecido, autodenominado Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiya (Movimento Islâmico do Povo da Mão Direita), que reivindicou a responsabilidade por incidentes semelhantes na Europa, afirmou no Telegram ter realizado o ataque à ambulância, a cobertura ao vivo do blog da BBC noticiou, em um exemplo flagrante de editorialismo, que se tratava de um grupo “alinhado ao Irã”, sem citar nenhuma fonte para essa afirmação. Não houve uso de aspas nem no título nem na própria publicação.
Isso significa que a própria BBC estava afirmando que o grupo era alinhado ao Irã.
Omissão deliberada
Em um exemplo ainda mais bizarro, no blog ao vivo da Sky News, uma publicação intitulada “Análise: O que sabemos sobre o grupo que reivindica a responsabilidade pelo ataque”, escrita pelo editor de OSINT da organização, Adam Parker, demonstrou que eles sabiam, bem, muito pouco sobre o Ashab al-Yamin, mas isso não os impediu, na mesma publicação, de chamá-lo de “alinhado ao Irã” sem apresentar provas ou citar fontes. A mídia ocidental parece não se importar em nos informar, não se preocupa em investigar a veracidade das alegações e, em vez disso, se contenta em repetir a versão EUA-Israel.
Em outro trecho do blog ao vivo da Sky, um homem chamado Joe Truzman foi entrevistado como uma fonte confiável que chamou o grupo de “fachada criada pelo Irã”. Truzman foi descrito como “um analista de segurança… que trabalha para o think tank americano Foundation for Defence of Democracies [FDD]”.
Parece legítimo. Até que se dê uma olhada superficial na natureza da FDD.
Ela se apresenta como um think tank “focado em segurança nacional e política externa”, mas, acima de tudo, é obcecada pelo Irã e declaradamente pró-Israel em suas inclinações.
Entre seus membros seniores estão Jonathan Conricus, ex-porta-voz internacional das Forças Armadas de Israel; Amir Eshel, major-general israelense aposentado e ex-diretor-geral do Ministério da Defesa de Israel; e Tal Kelman, outro major-general reformado que já foi chefe do Estado-Maior da Força Aérea Israelense.
Em 2019, executivos da FDD formaram a FDD Action, um grupo de lobby pró-Israel.
A Sky News divulgou alguma dessas informações? Claro que não.
A revista britânica Spectator foi além, não apenas citando Truzman, mas convidando-o a escrever uma coluna inteira sobre o Ashab al-Yamin.
Para deixar claro, não estou dizendo que sei que o grupo não tem ligações com o Irã. O que estou dizendo é que não sei porque, neste momento, não posso saber. Nem a mídia.
Em entrevista ao MEE no dia seguinte ao incêndio das ambulâncias, Aymenn Jawad al-Tamimi, especialista em grupos armados no Iraque e na Síria, afirmou não poder dizer “se o Irã está especificamente dirigindo ataques na Europa agora, mas há, sem dúvida, apoiadores do Irã e do eixo da resistência na Europa que consideram esse tipo de ataque legítimo”.
Tamimi pode justificar essa afirmação, pois disse o que sabia e o que não sabia.
A influência de Israel
Quando o e-mail de Kash Patel foi hackeado por um grupo chamado Handala Hack Team, que se autodenomina uma organização pró-Palestina que realiza ataques contra interesses americanos e israelenses, a BBC foi além de “alinhado ao Irã”. Desta vez, usou a expressão “apoiado pelo Irã”.
Mas agora havia uma fonte: o Departamento de Justiça dos EUA.
Aparentemente, a BBC considerou essa informação tão sagrada que não achou necessário colocar “apoiado pelo Irã” entre aspas no título.
Mais uma vez, foi a própria BBC que nos informou que o grupo era apoiado pelo Irã. A Reuters também usou a expressão “ligado ao Irã” em uma manchete como se fosse um fato.
Será que tais alegações do Irã sobre um grupo americano seriam aceitas como verdade sem a devida atribuição ou questionamento?
Será que alegações palestinas sobre israelenses seriam aceitas? E alegações russas sobre ucranianos? Sabemos a resposta.
Os termos, usados sem explicação, também são inúteis devido à sua imprecisão. Significa que os grupos são dirigidos pelo Irã? Significa que são nomes de fachada para a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC)?
Significa que eles estão em contato telefônico com o líder supremo todas as noites?
A mídia ocidental parece não se importar em nos informar, não se preocupa em investigar a veracidade das alegações e, em vez disso, se contenta em repetir a versão EUA-Israel.
Isso importa em um mundo no qual os EUA podem entrar em guerra com base em uma série de mentiras e no qual Israel parece desesperado para arrastar outras nações ocidentais para um atoleiro no Irã.
A verdade é que, como já escrevi nestas páginas, quando se trata de cobrir adversários ocidentais, a chamada mídia internacional não aplica os padrões de precisão que me foram incutidos quando jovem repórter.
E, enquanto isso não acontecer, continuará a fazer o jogo de Israel, dos EUA e de qualquer outro que queira atacar ilegalmente nações do Oriente Médio.
Publicado originalmente em inglês no Middle East Eye em 05 de abril de 2026
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.
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