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O mundo à beira da Idade da Pedra: Quando a ameaça de Trump vai além do Irã

9 de abril de 2026, às 02h06

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realiza uma coletiva de imprensa na Sala de Imprensa James S. Brady, na Casa Branca, em 6 de abril de 2026, em Washington, D.C., Estados Unidos. [Celal Güneş – Agência Anadolu]

Quando Donald Trump declarou, em uma de suas declarações ameaçadoras, que poderia, se necessário, “levar o Irã de volta à Idade da Pedra”, muitos interpretaram a observação meramente como uma ameaça militar dirigida a um país específico. No entanto, o significado mais profundo dessa declaração não reside em sua mensagem militar, mas na lógica política que a sustenta. A questão central não é se os Estados Unidos têm a capacidade de devastar outro país; em vez disso, é que tipo de visão da ordem internacional torna tal ameaça possível — ou mesmo normal. Ao analisarmos a trajetória da política externa dos EUA nos últimos anos, torna-se cada vez mais evidente que a ameaça de “regressar um país à Idade da Pedra” reflete uma transformação mais profunda: a erosão gradual das regras que regem as relações entre os Estados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Nessa perspectiva, o que se desenrola não é simplesmente uma ameaça contra o Irã, mas um desafio a todo o sistema internacional — um sistema que, se suas regras ruírem, poderá levar o mundo de volta a condições em que a força bruta substitui o direito.

Para compreender a importância dessa transformação, é necessário considerar o papel que as regras e instituições internacionais desempenharam na ordem global moderna. Após a Segunda Guerra Mundial, as grandes potências chegaram à conclusão de que a rivalidade desenfreada, sem estruturas legais e institucionais, inevitavelmente arrastaria o mundo de volta a ciclos de guerras devastadoras. O resultado dessa experiência histórica foi a criação de uma rede de organizações internacionais, tratados e normas concebidas para limitar o uso da força e estabelecer mecanismos para a resolução de disputas entre os Estados. Dentro dessa estrutura, mesmo as grandes potências foram compelidas a fornecer alguma forma de justificativa legal ou institucional para suas ações. Por essa razão, a política externa dos EUA nas últimas décadas — apesar de frequentemente enfrentar fortes críticas — geralmente tentou enquadrar sua conduta em uma narrativa legal ou institucional.

Nos últimos anos, porém — particularmente durante a presidência de Trump — essa lógica se deteriorou consideravelmente. O que emergiu foi um claro desrespeito aos mecanismos multilaterais e às normas do direito internacional.

A retirada de acordos internacionais, o enfraquecimento das organizações multilaterais, as ameaças a aliados e a priorização de relações bilaterais transacionais em detrimento da cooperação institucional sinalizam uma mudança na visão de Washington sobre a ordem global.

Nesse novo contexto, a política externa não é mais definida por regras compartilhadas, mas sim pelo poder relativo e pela vontade política.

Para alguns observadores nos Estados Unidos, essa mudança pode parecer um retorno a uma forma de “realismo duro”. Contudo, em nível global, suas consequências são muito mais profundas. Quando o país mais poderoso do mundo declara abertamente que pode fazer outro país regredir à Idade da Pedra, envia uma mensagem muito mais ampla ao sistema internacional: a de que as regras concebidas para restringir o uso da força deixam de ser vinculativas. Tal sinal pode remodelar rapidamente o comportamento de outras potências. Se a lei cede lugar ao poder, é natural que outros atores abandonem a confiança nas instituições internacionais e, em vez disso, priorizem a força militar e a dissuasão coercitiva.

Nessas circunstâncias, a competição entre as grandes potências entra numa nova fase — uma em que a desconfiança substitui a cooperação. Os países deixam de ter confiança nos compromissos de segurança, nos acordos multilaterais ou mesmo nas regras fundamentais do direito internacional. O resultado é um clima crescente de incerteza na política global, um clima em que qualquer crise regional pode rapidamente escalar para um confronto mais amplo.

Esta é precisamente a situação que a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial procurou evitar. A experiência da primeira metade do século XX demonstrou que um mundo sem regras partilhadas é um mundo em que as grandes potências expandem a sua influência através da força e os Estados menores se envolvem numa intensa competição armamentista para sobreviver. Em um mundo assim, a segurança coletiva dá lugar à insegurança universal.

Dessa perspectiva, a ameaça de Trump contra o Irã deve ser analisada em um contexto muito mais amplo. A questão não é o quão prática ou séria a ameaça em si possa ser. A questão mais importante é o que essa linguagem implica para o futuro da ordem global.

Quando o líder de um dos países mais poderosos do mundo fala em destruir completamente a infraestrutura de outro Estado, isso reforça a percepção de que a política internacional retornou a um estágio em que o poder bruto é o árbitro final.

Em outras palavras, se a “Idade da Pedra” for entendida não em termos tecnológicos, mas políticos, torna-se possível argumentar que o mundo pode retornar a ela muito antes que bombas destruam cidades — por meio da erosão de normas e regras. A Idade da Pedra da política internacional é uma condição em que não existe um direito comum para regular o comportamento dos Estados e o único critério que guia as decisões é o poder. Em tal sistema, a distinção entre países grandes e pequenos torna-se menos significativa; todos os Estados são compelidos a depender principalmente do poder para garantir sua sobrevivência.

Esse desenvolvimento também acarreta sérias implicações para os próprios aliados dos Estados Unidos. A rede de alianças de Washington na Europa e na Ásia sempre se baseou na confiança nos compromissos de segurança dos EUA.

Se consolidar a percepção de que a política externa americana é cada vez mais moldada por decisões pessoais e momentâneas, em vez de regras estáveis ​​e compromissos de longo prazo, é natural que os aliados comecem a buscar alternativas.

Essa tendência já é visível no crescente debate sobre “autonomia estratégica” na Europa e nos esforços de diversos países asiáticos para fortalecer suas capacidades militares independentes.

Em um nível mais profundo, essa transformação sinaliza a erosão gradual do soft power americano. Grande parte da influência global de Washington historicamente não deriva apenas da força militar, mas de sua capacidade de moldar regras e instituições internacionais. Quando os próprios Estados Unidos começam a minar essas regras, enfraquecem efetivamente uma das fontes mais importantes de seu próprio poder.

Portanto, a ameaça de levar o Irã de volta à Idade da Pedra deve ser vista sob uma perspectiva mais ampla. Não se trata apenas de um único país, mas do futuro da própria ordem global. Se o ator mais poderoso do sistema internacional concluir que não precisa mais de regras comuns, o mundo poderá entrar rapidamente numa fase em que a competição entre grandes potências se desenrola sem restrições institucionais.

Em última análise, o paradoxo central pode residir aqui: o país que outrora se apresentou como o arquiteto da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial parece agora estar enfraquecendo a própria ordem que serviu de pilar do seu poder. Se esta trajetória continuar, a ameaça de “reverter alguém à Idade da Pedra” deixará de ser um slogan político dirigido a um país específico e passará a ser uma descrição precisa das condições globais — um mundo em que a lei cede à força e a cooperação dá lugar à competição desenfreada.

Por esta razão, a verdadeira questão não é se o Irã conseguirá resistir a tais ameaças. A questão mais importante é se a comunidade internacional será capaz de defender as regras que foram construídas ao longo dos últimos setenta anos para impedir o retorno da política de poder. Se a resposta for negativa, o que estamos testemunhando hoje não será simplesmente uma ameaça contra um país, mas o retorno gradual do mundo inteiro à era que a humanidade outrora lutou para deixar para trás.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.