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Domínio sem legitimidade em um mundo em transformação: o declínio do poder americano.

O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é a era dos monstros. – (Antonio Gramsci)

4 de abril de 2026, às 00h32

O presidente dos EUA, Donald J. Trump, monitora as operações militares americanas no Irã: Operação Fúria Épica, 28 de fevereiro de 2026. [Conta X da Casa Branca – Agência Anadolu]

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, confirmou em entrevista à Al Jazeera que mensagens foram trocadas com os Estados Unidos durante o conflito em curso, mas esclareceu que estas não constituem negociações formais. Araghchi citou uma profunda falta de confiança, enraizada na postura de Washington. Araghchi destacou a retirada do acordo nuclear de 2015 e observou que o Irã não teve uma única experiência positiva negociando com os EUA.

As mensagens continuam a ser transmitidas por meio de intermediários. Essas comunicações são descritas como advertências e trocas de posições, em vez de diplomacia genuína. O Irã se recusa a dialogar com figuras como Jared Kushner e o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, considerando-os indignos de confiança em vista do colapso de acordos anteriores.

Araghchi é categórico: o Irã não respondeu às propostas dos EUA. A confiança, afirma ele, é nula. As negociações, nesse contexto, parecem quase redundantes. Para Teerã, as conversas muitas vezes serviram como pausas táticas — momentos que os EUA usam para se reagrupar e reafirmar a pressão.

Muitos observadores agora preveem um declínio na hegemonia global dos EUA, juntamente com o aprofundamento da disfunção interna. Os otimistas argumentam que a força econômica e a resiliência institucional americanas permitirão a adaptação. Isso é cada vez mais difícil de sustentar. Os Estados Unidos não carregam mais o peso. Em tempos passados, isso se refletia em todos os aspectos — políticos, morais e econômicos. A era Trump não amplificou a força, mas sim o ressentimento, a inconsistência e a deriva estratégica.

Os Estados Unidos vivenciam o que analistas descrevem como uma “polarização perniciosa” — uma divisão profunda e estrutural que corroeu o funcionamento democrático e tornou praticamente impossível o consenso legislativo.

Essa polarização não é acidental; ela é ativamente impulsionada pela manipulação das elites, pelos ecossistemas midiáticos e por uma hostilidade emocional arraigada entre os campos políticos.

Há também uma crescente percepção de uma “dissolução da ordem”. As normas políticas tradicionais estão se erodindo, o que se reflete em movimentos de protesto como o “No Kings” e na insatisfação generalizada com a liderança. Subjacente a isso, encontra-se uma mistura volátil de ansiedade econômica, tensão racial e conflitos não resolvidos entre o governo federal e os estados.

O cenário econômico agrava a crise. A dívida nacional deve atingir aproximadamente 125% do PIB até 2026, restringindo severamente a capacidade do Estado. A inflação — em parte alimentada por regimes tarifários protecionistas — corroeu o padrão de vida, alimentando o descontentamento público. Ao mesmo tempo, os EUA correm o risco de perder a liderança tecnológica em setores críticos, como veículos elétricos, drones e inteligência artificial, para a China, que está se consolidando rapidamente como um “eletroestado” dominante.

As políticas do tipo “América Primeiro”, concebidas para ganhos políticos de curto prazo, estão produzindo custos geopolíticos de longo prazo. Guerras comerciais e diplomacia coercitiva tensionaram alianças e aproximaram regiões — particularmente a América Latina — da órbita da China.

Globalmente, os EUA estão sobrecarregados. Enfrentam pressões estratégicas simultâneas no Oriente Médio, no Leste Asiático e na Europa Oriental, criando a impressão de excessos sem coerência.

A tentativa de gerenciar múltiplos conflitos, mantendo a primazia global, levou alguns analistas a descreverem os EUA menos como uma força estabilizadora e mais como um “ator predatório e desonesto”, contribuindo para a instabilidade em vez de contê-la.

A visão mais pessimista — o que alguns chamam de perspectiva da “ausência de esperança” — argumenta que as fraturas políticas, sociais e econômicas são profundas demais para uma reparação democrática convencional. Um profundo ajuste de contas interno — uma “noite escura da alma” — pode ser inevitável. Outros, porém, apontam para o paradoxo persistente do poder americano: apesar das narrativas recorrentes de declínio, os EUA mantêm uma imensa força estrutural. As vantagens incluem riqueza, localização geográfica, segurança alimentar e sua capacidade duradoura de atrair talentos globais.

Mesmo assim, 2026 é amplamente visto como um ponto de inflexão geopolítica. Os EUA parecem não estar apenas reformulando seu papel global, mas também desfazendo ativamente a ordem que outrora construíram. As próximas eleições de meio de mandato podem desestabilizar ainda mais um cenário político já frágil, principalmente se as dificuldades econômicas se agravarem.

Cada vez mais, os EUA se encontram em território desconhecido e perigoso, confrontando as consequências de suas próprias contradições políticas.

Essa incerteza é claramente visível em sua abordagem em relação ao Irã. Washington está tentando uma estratégia de negociação complexa e multifacetada, visando sair do confronto militar direto sem parecer ceder terreno. As exigências impostas ao Irã — interromper o enriquecimento de urânio, desmantelar as capacidades de mísseis, garantir rotas marítimas — requerem cumprimento a longo prazo. No entanto, os EUA buscam simultaneamente uma rápida retirada militar para satisfazer as pressões políticas internas.

Essa contradição é insustentável. O presidente Trump sugeriu uma possível saída em semanas, enquanto espera concessões estruturais do Irã que levariam anos para serem implementadas — se é que seriam. Não há uma estrutura confiável para garantir o cumprimento, nem qualquer mecanismo vinculativo para inspeção internacional. Da perspectiva de Teerã, essas exigências não são negociação — são coerção.

Enquanto isso, os aliados regionais do Irã intensificaram as ameaças, forçando as forças americanas a uma postura mais fragmentada e vulnerável. As interrupções nas rotas de navegação comercial evidenciam a crescente abrangência do conflito.

Para complicar ainda mais a situação, existe um alinhamento instável entre os EUA e Israel. Seus interesses não convergem totalmente. Israel pode preferir um engajamento militar prolongado para neutralizar ameaças percebidas, independentemente das consequências econômicas globais, enquanto Washington busca uma retirada controlada.

O pano de fundo ideológico dessa tensão é a noção de “Grande Israel” (Eretz Israel Hashlemah) — uma visão de extrema-direita que defende a expansão territorial para terras palestinas e vizinhas. Embora não seja uma política oficial do Estado em sua totalidade, elementos dessa ideologia estão incorporados à atual coalizão governante de Israel.

A expansão dos assentamentos na Cisjordânia e os projetos propostos em Gaza são amplamente considerados violações do direito internacional, minando a viabilidade de um Estado palestino. Os críticos argumentam que essas ações equivalem a uma estratégia de anexação de fato, disfarçada de retórica de segurança.

Esse discurso expansionista também levanta sérias preocupações sobre a soberania regional, particularmente em relação à Jordânia, Síria e Líbano. Ele intensifica a instabilidade em uma região já volátil.

A forte dependência de Israel em sistemas de defesa antimísseis de alto custo, como o Domo de Ferro, também levanta questões sobre a sustentabilidade a longo prazo diante de ataques persistentes e de baixo custo. A superioridade militar, embora esmagadora, está se mostrando insuficiente para garantir uma estabilidade política duradoura.

O atrito persistente com grupos como o Hezbollah, apoiado por recursos iranianos, continua a drenar a capacidade israelense e a complicar seus cálculos estratégicos. Ao mesmo tempo, o apoio incondicional dos EUA a Israel — militar, financeiro e diplomático — tem se tornado cada vez mais um problema, atraindo desafios mais amplos à influência americana na região.

O que emerge desse cenário é uma verdade fundamental: a ideia de poder permanente e incontestável está se erodindo rapidamente. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no Oriente Médio, onde as alianças mudam rapidamente, os regimes vacilam e o poder permanece fluido e disputado.

A região não é definida pela estabilidade, mas pela rivalidade perpétua. O poder deixou de ser absoluto — é provisório, negociado e constantemente ameaçado.

O Irã mantém sua influência por meio de redes de aliados e profundidade estratégica. Israel busca converter a vantagem militar em domínio a longo prazo. Os Estados Unidos tentam administrar ambos, preservando seu papel global. Contudo, os três estão descobrindo a mesma realidade: poder sem legitimidade é frágil.

Conclusão

A ilusão de que o poderio militar e a influência econômica, por si só, podem sustentar o domínio global está ruindo. Os Estados Unidos hoje detêm poder, mas carecem cada vez mais de legitimidade — a autoridade moral e a confiança política que outrora sustentavam sua hegemonia.

Em um mundo que se fragmenta, se descentraliza e resiste ao controle, o domínio sem legitimidade não é apenas instável — é insustentável.

O que estamos testemunhando não é apenas o declínio do poder americano, mas o fim de uma era em que o poder podia operar sem prestação de contas. O mundo emergente não será moldado por aqueles que podem impor a ordem, mas por aqueles que podem obter consenso. E é exatamente aí que os Estados Unidos estão falhando.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.