A cada dia que passa de ações alardeadas como triunfantes contra o Irã, a cada nebulosa coletiva de imprensa que insiste no sucesso inconteste pela força, o governo dos Estados Unidos de Donald Trump parece lutar, cada vez mais, para manter as aparências. Através de uma abordagem de atrito existencial, o regime em Teerã causa choques descomunais aos mercados globais, ao atingir onde dói mais: as bombas de petróleo, o caixa, o bolso. Seus mísseis, drones e projéteis podem parecer incapazes de chegar a Washington ou à Austrália, mas o impacto e o pânico subsequente já se assentam.
Mesmo antes de navios serem alvejados — ameaças bastavam — o estreito de Hormuz já se esvaziava do tráfego. Ao temer prejuízos, grandes corporações de transporte marítimo, como Maersk, Hapag-Lloyd e CMA CGM interromperam envios pelo corredor em questão. Desde o início da agressão israelo-americana ao Irã, em 28 de fevereiro, movimentos em Hormuz praticamente cessaram. Este fechamento põe em alerta, de fato, em torno de um quinto do suprimento de petróleo global, um quinto do comércio de gás natural liquefeito e cerca de 13% em produtos químicos, incluindo fertilizantes essenciais. Taxas de frete a petroleiros, carências de seguro de guerra e custos de combustível marítimo dispararam como nunca.
Uma postagem online do ministro de Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, captou a atmosfera: “Nove dias após a Operação Erro Épico [resposta à “Fúria Épica” de Trump], os preços de petróleo dobraram e commodities decolaram. Sabemos que os Estados Unidos conspiram contra nosso petróleo e sítios nucleares, na esperança de inflamar e chocar as pessoas. O Irã, no entanto, está totalmente preparado”. Araghchi então prometeu que seu país tem “muitas surpresas guardadas”.
Em 11 de março, um porta-voz militar da base de Khatam al-Anbiya, sob gestão da Guarda Revolucionária do Irã, unidade de elite do exército nacional, declarou de maneira decisiva que qualquer embarcação ligada a Israel, Estados Unidos ou aliados seria “considerada alvo legítimo”. O oficial rejeitou ainda a eficácia de esforços para conter a carestia: “Vocês não serão capazes de reduzir os preços de petróleo artificialmente. Esperem US$200 por barril. O preço de petróleo depende da segurança regional e são vocês as maiores fontes de insegurança em nossa região”.
Na tentativa de controlar o aumento nos preços, trinta e dois países-membros da Agência Internacional de Energia (AIE) decidiram liberar 400 milhões de barris de petróleo, então retidos em seus armazéns. “Essa é uma ação de larga escala voltada a aliviar os impactos imediatos da interrupção no mercado”, comentou Fatih Birol, diretor executivo do órgão, em comunicado. “Mas sejamos claros, o mais importante é retornarmos ao fluxo estável de gás e petróleo, pela retomada do trânsito pelo estreito de Hormuz”.
Em 11 e 12 de março, no entanto, houve uma resposta, quando a Guarda Revolucionária fez valer sua palavra ao atacar seis embarcações com projéteis e drones. Dentre os alvos, o comboio Safesea Vishu, de bandeira das Ilhas Marshall, e Zefyros, de Malta, ambos com cargas de combustível do Iraque. Outro barco, Mayuree Naree, de bandeira tailandesa, foi alvejado por “projéteis de origem desconhecida”. Minas foram então instaladas ao longo de Hormuz, ao dificultar o desacato.
A resposta de Trump e seus oficiais à carestia não passa de fantasia. “O aumento recente nos preços de petróleo e gás é temporário”, apregoou Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca. “Nossa operação [a agressão contra o Irã] resultará na queda dos preços, a longo prazo”. Chris Wright, secretário americano para a pasta de Energia, mostrou-se também confiante, muito embora sem indícios concretos, de que os choques no custo de energia durarão “semanas, e não meses”.
Após atender a um briefing confidencial — e, ao que parece, confuso — sobre a iniciativa de guerra, em 10 de março, o senador democrata Chris Murphy se mostrou cético: “Não posso entrar em detalhes sobre como o Irã embarga Hormuz, porém basta dizer, por ora, que [a administração] não sabe como reabri-lo em segurança”. Segundo Murphy, trata-se de algo “imperdoável, porque esse desastre era absolutamente previsível”. O objetivo de guerra do regime de Trump, ao que entendeu o senador, é “destruir um monte de mísseis, barcos e drones”. Muito visionários.
O dogma trumpista de ostracizar a realidade ignora os efeitos crescentes e duradouros do bloqueio de Hormuz e da guerra como um todo. Cresce o engarrafamento de petroleiros em ambos os lados do estreito. Portos ficam cada vez mais congestionados, com barcos estacionados com medo de zarpar. A produção de petróleo e gás, paralisada pelo cerco e pelos ataques iranianos, terá porventura de ser retomada em países como Catar, Bahrein, Iraque e Arábia Saudita — mas como?
Anas Alhajji, analista dos mercados internacionais de energia, traz maus presságios: “Dar fim à guerra não é o fim da crise. Temos países que literalmente pararam de produzir pois seus estoques estão lotados. Retomar o preço pré-crise do petróleo levará tempo. Para o gás natural, em particular, demorará muitíssimo”.
Questionado se as embarcações devem tomar coragem e seguir jornada pelo estreito de Hormuz, Trump não hesitou em expressar um otimismo infundado: “Penso que deveriam. Eles vão ver que estão em segurança”. A nova rodada de ataques a embarcações pelo Irã, deflagrada a um custo ínfimo quando comparada à campanha israelo-americana contra o país, junto ao aumento inexorável dos preços de energia, sugere o contrário. Neste caso, ao menos, a economia parece ser sua sina.
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