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Relatório israelense financiado pelo Reino Unido sobre suposta violência sexual foi usado para justificar genocídio em Gaza

5 de março de 2026, às 18h13

A bandeira do Reino Unido hasteada no Parlamento Britânico em Londres, Reino Unido, na sexta-feira, 5 de julho de 2024. [Fotógrafo: Jose Sarmento Matos/Bloomberg via Getty Images]

O governo do Reino Unido concedeu £ 90.000 (US$ 114.000) em fundos públicos a uma iniciativa de pesquisa israelense cujas conclusões sobre a suposta violência sexual ocorrida em 7 de outubro foram posteriormente usadas para mobilizar apoio ao genocídio em Gaza, de acordo com reportagem da Novara Media.

Documentos divulgados após um pedido de acesso à informação mostram que o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento (FCDO) financiou 75% de um projeto de quatro meses liderado pelo Projeto Dinah, uma organização sediada na Universidade Bar-Ilan.

O pedido de financiamento afirmava que o relatório visava estabelecer a “natureza sistemática e premeditada” da violência sexual cometida em 7 de outubro. O relatório, publicado em julho de 2025 e intitulado “Uma Busca por Justiça: 7 de Outubro e Além”, concluiu que a violência sexual em 7 de outubro foi “generalizada e sistemática” e que foi utilizada como uma “arma de guerra”.

Autoridades israelenses posteriormente fizeram referência ao relatório em fóruns públicos. Durante um debate no Knesset, um funcionário da Diretoria Nacional de Diplomacia Pública de Israel o descreveu como “uma importante ferramenta de diplomacia pública para nós”, acrescentando que a campanha em torno dele “foi disseminada por todos os meios que temos como Estado”.

Nenhuma conclusão independente sobre estupro sistemático

No entanto, nenhuma investigação internacional independente concluiu que o estupro foi usado sistematicamente ou como uma arma de guerra em 7 de outubro.

Uma investigação da Anistia Internacional, publicada em dezembro de 2025, constatou que agressões sexuais podem ter ocorrido durante os ataques, mas não apresentou evidências de que o Hamas ou outros grupos armados palestinos tenham ordenado que seus combatentes cometessem atos de violência sexual.

A relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, afirmou posteriormente que nenhum mecanismo independente de direitos humanos comprovou que a violência sexual ou de gênero tenha sido cometida como uma ferramenta sistemática de guerra ou genocídio.

Alegações anteriores contestadas

O Middle East Monitor publicou uma investigação intitulada “Israel fabricou uma versão em escala industrial das farsas de estupro da era Jim Crow”, que examinou a onda inicial de reportagens da mídia sobre o suposto estupro em massa em 7 de outubro.

Esse relatório documentou como diversas alegações amplamente divulgadas se basearam em fontes anônimas, depoimentos não verificados e declarações posteriormente retratadas ou alteradas. O relatório apontou a ausência de evidências forenses que corroborassem as alegações de estupro em massa e argumentou que a narrativa foi amplificada antes que uma verificação independente fosse realizada.

O relatório do MEMO traçou paralelos com casos históricos em que alegações não comprovadas de violência sexual foram usadas para mobilizar apoio público à punição coletiva.

Embora as alegações de violência sexual continuem sob investigação, nenhum órgão de autoridade concluiu que o estupro tenha sido usado de forma sistemática ou por meio de políticas específicas.

Dois pesos e duas medidas no financiamento

O governo do Reino Unido não financiou investigações comparáveis ​​sobre alegações documentadas de violência sexual e de gênero cometidas contra palestinos.

Em março de 2025, a comissão independente de inquérito da ONU sobre a Palestina e Israel relatou que as forças israelenses cometeram atos de violência sexual, reprodutiva e de gênero durante a guerra em Gaza, incluindo humilhação sexual e abuso de detentos, bem como a destruição de infraestrutura de saúde reprodutiva.

O Reino Unido não respondeu formalmente a esse relatório.

Em correspondência com a Novara Media, o Ministério das Relações Exteriores e da Commonwealth (FCDO) afirmou que condena a violência sexual onde quer que ela ocorra. Recusou-se a fornecer um comentário oficial sobre sua decisão de financiamento.