França busca censurar denúncias da cumplicidade com o genocídio em Gaza

Ramona Wadi
13 minutos ago

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Francisca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados, durante coletiva de imprensa na câmara baixa do parlamento italiano, sobre seu relatório “Genocídio em Gaza: Um crime coletivo”, em Roma, em 3 de fevereiro de 2026 [Baris Seçkin/Agência Anadolu]

Francisca Albanese, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os territórios palestinos ocupados, voltou a ser atacada, desta vez pelo ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, por seu discurso no Fórum da Al Jazeera em Doha, no Catar, no sábado passado (7), no qual denunciou a cumplicidade de todo o sistema internacional que avalizou o genocídio israelense em Gaza. O termo “inimigo em comum”, que Albanese usou para descrever o quão envolvida está a comunidade internacional no genocídio ainda em curso em Gaza, foi tirado de contexto para difamá-la, novamente, por suposto ataque e viés contra o Estado de Israel.

“A França condena, sem ressalvas, os comentários repreensíveis e ultrajantes da senhora Albanese, direcionados não ao governo israelense, cujas políticas devem ser criticadas, mas a Israel como um povo e nação [sic], o que é absolutamente inaceitável”, proclamou Barrot. Foi então que Paris decidiu demandar a demissão de Albanese de seu posto como relatora de direitos humanos da ONU.

Não demorou para que a França encontrasse um ponto de convergência com os Estados Unidos.

Nada no discurso de Albanese tratou Israel como inimigo de toda a humanidade. Todavia, a esta altura, após dois anos de massacres e mais massacres conduzidos por Tel Aviv em Gaza, é de conhecimento público e irrestrito que a comunidade internacional permitiu a continuidade da violência colonial por todos os meios a seu dispor. Diplomaticamente, a comunidade internacional robusteceu a posição de Israel ao assegurar não somente sua impunidade como assistência factual para conduzir seu genocídio.

O foco do discurso de Albanese foi a cumplicidade internacional que possibilita a Tel Aviv realizar um genocídio. Caso tomemos a história em consideração, a cumplicidade vigente constrói-se claramente sobre os alicerces de legitimação do projeto colonial sionista na Palestina histórica.

A comunidade internacional sabia o que o colonialismo desencadearia na Palestina. Não obstante, às custas da população nativa palestina, submetida a limpeza étnica, chacinas e deslocamento massivo, a ONU deu apoio a algumas das mais atrozes violações da lei e das normas internacionais jamais registradas. Ao compelir os palestinos ao silêncio e à subjugação, frente a imposições externas, a ONU auxiliou, na prática, a totalidade de um empreendimento que, devagar, mas certamente, avançou ao genocídio.

O colonialismo israelense é, sim, uma ameaça primeiro e sobretudo ao povo palestino. A falta de respeito de Tel Aviv à soberania de qualquer outro país — incluindo assassinatos sumários no exterior — torna-o perigoso, contudo, a todo o planeta. Todavia, como notou Albanese, sem a cumplicidade internacional, Israel não poderia operar na mesma escala de poder como faz hoje.

Portanto, quando Barrot cria um problema com as críticas profundamente embasadas de Albanese, na tentativa de distorcer seu sentido, como bucha-de-canhão para a narrativa securitária israelense, o que realmente ele busca censurar?

Em termos bastante acessíveis, Albanese expôs as práticas da comunidade internacional que permitiram a condução do genocídio.

A comunidade internacional é, sim, cúmplice, mas a França parece desgostar deste fato, que tanto a compromete. Ao interpretar erroneamente as palavras de Albanese, com total intenção de fazê-lo, Paris insiste em aquiescer à posição vitimista do regime israelense, muito embora uma força militar superior, por lógica, nunca possa ser vítima daqueles que oprime, senão a um exército ainda mais poderoso. Por outro lado, o governo francês emite um alerta sinistro — que silencia e continuará silenciando toda e qualquer voz que ouse articular as estruturas amplas do colonialismo e do genocídio.

Barrot, no entanto, deveria compreender que, quando o genocídio é conduzido em tempo real e enquanto jornalismo investigativo segue expondo a cumplicidade das lideranças globais no genocídio de Israel, a corrupção no apogeu do poder já pode dormir tranquila, sem que a questionem, sobre sua própria cama, tão enviesada.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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