Presidente da Cruz Vermelha: ‘O que vimos em Gaza ultrapassa todas as normas legais, éticas, morais e humanitárias’

1 hora ago

Warning: foreach() argument must be of type array|object, null given in /www/wwwroot/monitordooriente.com/wp-content/plugins/amp/includes/templates/class-amp-post-template.php on line 236
Um homem foge dos escombros após o ataque israelense a um prédio de três andares perto do cruzamento de Askula, no bairro de al-Zeitoun, apesar do acordo de cessar-fogo na Cidade de Gaza, Gaza, em 6 de fevereiro de 2026. [Ali Jadallah – Agência Anadolu]

A presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Mirjana Spoljaric Egger, alertou que a destruição em Gaza representa um colapso de todos os padrões internacionais. “O que vimos em Gaza ultrapassa todas as normas legais, éticas, morais e humanitárias”, afirmou ela em entrevista ao jornal holandês NRC, esta semana.

Spoljaric Egger disse que Gaza ilustra a rápida deterioração do direito internacional humanitário. “Gaza pode ter fornecido a evidência mais tangível da erosão do direito internacional”, explicou ela. “Visitei Gaza duas vezes em doze meses. As hostilidades nunca cessaram. Não havia um minuto sequer em que não se ouvisse tiros. Em que o corpo não sentisse os bombardeios.”

Spoljaric Egger recordou que, em sua segunda visita, já não reconhecia a região: “Não conseguia mais me orientar. Na primeira vez, prédios isolados foram atacados. Todos os bairros foram atingidos, mas não completamente destruídos. Quando voltei, não havia mais nada.”

Durante a entrevista, Spoljaric Egger descreveu o assassinato de 15 colegas do CICV em Gaza, cuja ambulância foi atingida por fogo israelense. “Foi difícil olhar as fotos daquele evento. Mais do que difícil, eu não conseguia olhar; estou devastada. Talvez também porque vi meus colegas trabalhando lá durante as hostilidades. Isso é algo que nunca deveria ter acontecido.”

Sobre a legalidade da campanha militar, Spoljaric Egger afirmou: “Não podemos aceitar uma guerra que leve a essa situação.”

Questionada sobre a alegação de Israel de ter agido em legítima defesa, ela respondeu: “Isso não justifica infringir a lei. Vocês têm a mesma situação em seu sistema jurídico nacional. Quando alguém assassina um membro da sua família, isso não lhe dá o direito de matar os familiares dessa pessoa. Simplesmente não funciona assim. É exatamente o mesmo princípio.”

A presidente do CICV apontou para uma falha no princípio da passagem segura para civis. “Considerem o direito à passagem segura. Quando as pessoas são alvejadas, nós intermediamos para garantir uma retirada segura. Mas, no conflito atual, não é mais possível contar com a passagem segura. Mesmo quando os trabalhadores humanitários da Cruz Vermelha recebem autorização, ainda correm o risco de serem alvejados.”

Spoljaric Egger relacionou esses desenvolvimentos a falhas mais amplas de responsabilização política e ao aumento da impunidade: “Há o dobro de conflitos em comparação com quinze anos atrás, e eles são mais frequentemente transfronteiriços, entre países com exércitos muito poderosos. Novas tecnologias, especialmente a inteligência artificial, estão aumentando o poder destrutivo das armas, particularmente para civis. Há ataques muito mais irracionais e agressivos contra populações. Ataques deliberados a sistemas inteiros de saúde com o objetivo de expulsar a população. E a destruição total de áreas inteiras, como Gaza.”

Em setembro de 2024, o CICV lançou uma iniciativa conjunta com Brasil, China, França, Jordânia, Cazaquistão e África do Sul para reconstruir o compromisso internacional com o direito humanitário. Uma conferência global sobre “humanidade em guerra” será realizada na Jordânia no final de 2026. “Estamos tentando gerar impulso político em torno da ideia de que, se não impedirmos a erosão do direito humanitário internacional, tornaremos nossas próprias populações inseguras”, disse Spoljaric Egger.

Ao abordar a questão dos ataques contra trabalhadores humanitários, ela disse: “Sinto uma tendência crescente de desumanizar o inimigo. Na minha opinião, este é um dos desenvolvimentos mais perigosos na guerra recente. O que ouvimos hoje, mesmo em debates na Assembleia Geral das Nações Unidas, eu nunca ouvi quando iniciei minha carreira diplomática há vinte anos.”

Spoljaric Egger acrescentou: “Quando um representante oficial de um país desumaniza abertamente a população de outro, a comunidade internacional deve reagir. Se permitirmos que as pessoas falem livremente dessa maneira, é apenas uma questão de tempo até que meus colegas vejam essa desumanização sendo posta em prática nos campos de batalha.”

LEIA: Israel pode entrar em colapso antes do seu centenário, alerta general israelense aposentado

Sair da versão mobile