O Brasil sinalizou abertura condicional para participar de um proposto “Conselho de Paz” internacional sobre Gaza, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizando que qualquer estrutura desse tipo deve incluir representação palestina para ser crível.
Em entrevista gravada para o portal brasileiro Universo Online (UOL) na quinta-feira, Lula afirmou que o Brasil só consideraria participar se o mandato do conselho se limitasse a Gaza e se os palestinos estivessem presentes nas negociações. “Qualquer caminho que não inclua os palestinos não pode ser considerado um comitê de paz”, declarou.
Lula revelou ter transmitido essa posição diretamente ao presidente dos EUA, Donald Trump, dizendo que o Brasil tem “todo o interesse” em participar se a iniciativa for genuinamente focada em Gaza. Ele criticou ideias que circulam sobre a reconstrução pós-guerra, argumentando que algumas propostas se assemelham mais a “um resort turístico do que a uma reconstrução”, e questionou quem reconstruiria casas, hospitais e padarias destruídos durante a guerra.
O presidente brasileiro também disse ter conversado com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, expressando a disposição do Brasil em participar de qualquer esforço internacional sério, reiterando que a inclusão dos palestinos é uma condição inegociável.
Lula revelou ainda ter conversado com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, expressando a disposição do Brasil em participar de qualquer esforço internacional sério, mas reiterando que a inclusão dos palestinos é uma condição inegociável. A entrevista coincidiu com a circulação de imagens mostrando Lula usando um keffiyeh palestino após recebê-lo do recém-nomeado embaixador palestino no Brasil, Marwan Jibril, durante a cerimônia de apresentação de credenciais no Palácio do Planalto, em Brasília, no início desta semana.
Sobre as relações com Washington, Lula disse que está trabalhando para organizar uma visita aos Estados Unidos, provavelmente na primeira semana de março, para um encontro presencial com Trump. Ele afirmou que as discussões entre eles devem ser diretas, descrevendo o Brasil e os Estados Unidos como as “duas maiores democracias do Ocidente”. Lula acrescentou que nenhum assunto está fora de questão para ele, exceto a soberania do Brasil, que ele descreveu como “sagrada”.
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva acusou seu homólogo americano, Donald Trump, em 23 de janeiro, de buscar se tornar o “mestre” de uma “nova Organização das Nações Unidas” ao lançar o chamado “Conselho da Paz”, argumentando que a medida visa contornar as Nações Unidas em vez de trabalhar para reformá-las.
Em um discurso proferido no mesmo dia, Lula afirmou que Trump, “em vez de reformar as Nações Unidas, está propondo a criação de um novo organismo internacional para o qual ele seria a única referência”, alertando para a ascensão do “unilateralismo” e da “lei do mais forte” em detrimento da ordem internacional multilateral.
Ele explicou que manteve uma série de contatos com diversos líderes mundiais em defesa do papel central das Nações Unidas, incluindo o presidente chinês Xi Jinping, o presidente russo Vladimir Putin, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum, como parte dos esforços para preservar o sistema internacional multilateral.
Lula também criticou o plano de reconstrução de Gaza apresentado pelo governo Trump após o ataque israelense, dizendo que ele ignora a escala da destruição e das perdas humanas e transforma a tragédia humanitária em um projeto de investimento. “Mais de 70 mil pessoas foram mortas, e agora eles dizem que vão reconstruir Gaza e construir hotéis de luxo lá”, declarou.
O Brasil reforçou sua posição crítica em relação à guerra em Gaza. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o país condena os ataques contra civis e enfatizou que a resposta israelense é “desproporcional, inaceitável e algo com que o Brasil não pode concordar”.
Vieira fez essas declarações em entrevista à Al Jazeera, na qual destacou que a situação em Gaza já resultou em mais de setenta mil mortes e que atacar civis exige condenação veemente, não podendo ser justificado política ou moralmente.
O ministro brasileiro afirmou que o mundo atravessa uma profunda crise no sistema internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, defendendo a necessidade de reformar as Nações Unidas e suas principais instituições — particularmente o Conselho de Segurança — tornou-se uma necessidade urgente para que reflitam os reais equilíbrios de poder globais de hoje, e não os de 1945. Ele apontou para a marginalização dos países do Sul Global dos círculos de tomada de decisão internacionais.
Vieira enfatizou que o Brasil continua a se basear na diplomacia, no multilateralismo e no diálogo pacífico, rejeitando sua substituição pela força militar. Ele reafirmou o apoio do Brasil à solução de dois Estados, seu reconhecimento oficial do Estado da Palestina e seu compromisso contínuo com o apoio aos direitos palestinos em fóruns internacionais.
A posição brasileira reflete uma clara convergência política em responsabilizar os sistemas regionais e internacionais por não respeitarem o direito internacional e por não deterem o genocídio em Gaza, ao mesmo tempo que defende a reconstrução da ordem internacional sobre fundamentos mais coletivos, justos e eficazes.
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![O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva usa o keffiyeh palestino durante a cerimônia de credenciamento do novo embaixador palestino no Brasil, em Brasília, em fevereiro de 2026. [Escritório de Representação do Brasil em Ramallah / Facebook]](https://www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2026/02/627394942_1196567292646690_4963096735465013720_n-e1770387528244.webp)