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Como Omã passou de mediador a parceiro saudita na guerra do Iêmen?

Mascate deu apoio e informações à ofensiva saudita, por preocupações relacionadas à sucessão iemenita e décadas de insurgência

28 de janeiro de 2026, às 02h47

Sultão de Omã, Haitham bin Tariq Al-Said, reúne-se com o então secretário de Estado americano, Michael Pompeo, em Mascate, em 21 de fevereiro de 2020 [Departamento de Estado/Divulgação via Wikimedia]

Durante anos, enquanto combates assolavam o Iémen, o vizinho Omã se esforçou por manter um perfil de mediador neutro entre as partes conflitantes. Mas quando separatistas apoiados pelos Emirados Árabes Unidos invadiram o lado de sua fronteira, Mascate tomou partido.

Um diplomata ocidental e árabe sediado na região do Golfo confirmou à rede britânica Middle East Eye que Omã repassou informações de inteligência à Arábia Saudita e mesmo colaborou em ataques militares no fim de dezembro e início de janeiro, contra o chamado Conselho de Transição do Sul (STC), na região iemenita de al-Mahra.

Um analista do Golfo, em condição de anonimato, notou que Mascate e Riad compartilharam informações de que o STC, apoiado pelos Emirados, planejava anunciar a secessão à semelhança da Somalilândia, do outro lado do Mar Vermelho.

“Omã agiu nas sombras”, comentou Ibrahim Jalal, especialista em segurança na região do Golfo e Mar Arábico. “Mas assim como a Arábia Saudita foi afetada pelas ações do STC em Hadramaute, Omã foi afetado pela aventura mal calculada do STC em al-Mahra”, acrescentou.

O avanço do STC em ambas as províncias, no extremo leste do Iêmen, mostrou-se um erro estratégico tanto para o grupo quanto a seu patrono— Abu Dhabi. A força aérea saudita dizimou os separatistas seja deserto como no campo aberto. Aidarous al-Zubaidi, líder dos secessionistas, fugiu de Aden para os Emirados, através da Somalilândia. O entreposto do Mar Arábico está agora sob o controle de forças leais ao Conselho de Liderança Presidencial (PLC) do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita.

A resposta de Omã à crise iemenita sublinha até que ponto os Emirados se excederam, dizem os analistas.

“Riad e Mascate se aproximaram como resultado”, notou Jalal.

Omã não possui as mesmas riquezas em petróleo de Riad ou Abu Dhabi. De fato, é mais conhecido por seu sofisticado perfume Amouage e por sua capital caiada de branco, Mascate, cuja arquitetura tradicional foi preservada graças a um decreto que proíbe arranha-céus, emitido pelo falecido Sultão Qaboos bin Said al-Said. Turistas omanenses tendem a ser discretos mochileiros ou frequentadores das praias.

Diplomaticamente, Omã também evita fazer grandes estrondos.

Omã se manteve neutro durante a Guerra do Golfo e a Guerra Civil da Síria. Durante o governo de Barack Obama nos Estados Unidos, mediou negociações para o acordo nuclear junto ao Irã. E mesmo pouco antes de o atual incumbente americano, Donald Trump, lançar seu ataque a Teerã, em junho de 2025, estava previsto um encontro em Mascate entre ambos os lados, no intuito de retomar a matéria.

Ainda ação, as ações discretas de Omã a favor de Riad, durante a crise iemenita, pouco surpreenderam quem conhece o país.

Os fantasmas de Dhofar

Omanenses têm laços tribais, culturais e econômicos profundos com a região iemenita de al-Mahra. De 1962 a 1975, Omã travou uma sangrenta contrainsurgência contra rebeldes na região montanhosa de Dhofar, na fronteira com o Iêmen.

Os Emirados só se tornaram um estado independente em 1971. A essa altura, Omã, o mais antigo Estado árabe independente, lutava para conter a onda de guerrilheiros marxistas que se posicionavam em Dhofar, ao receberem armas e treinamento da então República Democrática Popular do Iêmen. O Iêmen atual foi criado em 1990, ao unificar o estado marxista do sul com a chamada República Árabe, ao norte.

A guerra de Dhofar caiu no esquecimento no Ocidente, mas foi imortalizada pelo escritor de esquerda Sonallah Ibrahim no seu romance, Warde, publicado em 2000.

Yousuf al-Balushi, presidente do Conselho de Política de Mascate, o primeiro think-tank do Omã, argumentou, de sua parte, que a memória da secessão e instabilidade “continua a moldar as percepções de segurança omanenses”.

Nas reuniões, diplomatas omanenses, em público ou privado, enfatizaram sua oposição ao tipo de partição no Iêmen que os Emirados e os seus aliados almejavam.

Quando o Iêmen se unificou, Mascate trabalhou para fortalecer seus laços tribais com al-Mahra, uma região tradicionalista e escassamente povoada, coberta pelo Rub’ al-Khali, ou Quarto Vazio, o maior deserto de areia do mundo. Em 1999, o Omã estabeleceu a zona franca de al-Mazunah em Dhofar para reforçar os laços económicos com os Mahris.

“A cerca de fronteira de Omã fica, na verdade, a leste dessa Zona Franca”, indicou Balushi.

Durante os combates com o STC, alguns analistas árabes apontaram que Riad pediu a Mascate para posicionar seu exército do outro lado da fronteira, à espera dos acontecimentos em potencial.

De acordo com Balushi, o avanço do STC a Mahra e os indícios de que o grupo declararia independência foram encarados como um risco à segurança nacional. “O Iêmen era, até então, gerenciável [para o Omã]. [Mas] quando os Emirados sinalizaram um risco iminente de secessão no sul do Iémen, trouxe em si uma ameaça… ao preparar terreno para uma escalada que poderia ter levado a uma alteração das fronteiras … Nossa política em al-Mahra é consistente. Opomo-nos ao destacamento de armamento pesado perto da nossa fronteira por qualquer força que seja, e opomo-nos a que não-Mahris sejam então elevados ao poder. Nossa política é lidar apenas Mahris”.

Segundo Jalal, Omã demarcou “três linhas vermelhas” no Iêmen, em termos de segurança: “[parar] a expansão da influência dos Emirados perto da sua fronteira, impedir a aproximação de separatistas e evitar que salafistas se instalem na região”.

A ofensiva militar da Arábia Saudita distanciou os três riscos, razão pela qual Omã prestou assistência discreta à monarquia, sugerem os especialistas.

Rivalidade perigosa

A Arábia Saudita e os Emirados são quem determina o que acontece a seguir.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e o presidente emiradense Mohammed bin Zayed eram outrora aliados. Ambos intervieram no Iêmen em 2015 na tentativa de derrubar os houthis, alinhados ao Irã. A escalada, no entanto, cristalizou a sua ruptura.

Nos últimos dez anos, os Emirados passaram a apoiar uma série de movimentos separatistas, da Somalilândia à Líbia.

No Sudão, onde transcorre uma guerra brutal, os Emirados apoiam as chamadas Forças de Suporte Rápido, grupo paramilitar, contra o exército sudanês, apoiado por Arábia Saudita, Egito e Turquia. Bin Salman chegou a pedir intervenção de Washington contra os Emirados no Sudão, na tentativa de conter a crise.

Encorajado pelo seu sucesso no Iêmen, muitos diplomatas ocidentais e árabes perguntam-se se o príncipe saudita continuará a confrontar Abu Dhabi em toda a região.

Mas o que significa isso para países como Omã, que tentaram ser mediadores?

“Quando a Arábia Saudita e os Emirados estavam totalmente alinhados em 2015, a conjuntura era demasiadamente arriscada para os interesses do Omã. A região seguia bastante polarizada”, notou Balushi. Segundo sua análise, Omã se viu numa posição ideal quando os Emirados e a Arábia Saudita “entraram em confronto, mas administrou bem sua competição, [ao lhe] proporcionar uma abertura para mediação” — o que Mascate faz bem.

Se sua rivalidade transbordasse, no entanto, dos estreitos confins da política iemenita, seria “perigosa demais” não apenas para Omã, mas também para o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), advertiu Balushi,

Rob Geist Pinfold, especialista em segurança internacional no King’s College de Londres, corroborou ao Middle East Eye que o surto de violência no Iêmen deixou a Omã pouquíssimas alternativas.

“Omã orgulha-se de ser uma parte neutra, agindo como mediador. Mas essa estratégia foi minada pela ofensiva do STC. Foi assim que Mascate teve de tomar partido contra os Emirados”, ressaltou Pinfold.

Agora, à medida que forças apoiadas pela Arábia Saudita consolidam seu controle sobre o sul do Iêmen, a tarefa do Omã será manter seu papel de mediador. Para Balushi, apesar da sua frustração com os Emirados, Omã teve cuidado para tampouco ultrapassar publicamente certos limites.

“O Catar, por exemplo, emitiu uma declaração durante os ataques sauditas ao STC ao equivaler ‘a segurança saudita’ à ‘segurança árabe’. Omã foi mais neutro”, afirmou.

Em comunicado divulgado durante o auge dos ataques sauditas no final de dezembro, o ministério dos Relações Exteriores de Omã apelou ao “povo irmão iemenita para chegar a um entendimento sobre o que é melhor para o futuro do seu país, de forma a consolidar a segurança, estabilidade e paz na República do Iêmen, e manter uma política de boa vizinhança”.

Omã ainda depende de bons laços com os seus vizinhos, pois não possui os mesmos recursos de petróleo — seja da Arábia Saudita, dos Emirados, ou mesmo do Irã, todos capazes de financiar aliados locais.

Embora as apreensões de segurança de Omã estejam alinhadas com as da Arábia Saudita, o regime omanense também segue economicamente ligada aos Emirados. Mascate, de fato, está mais perto do porto emiradense de Jebel Ali do que do porto omanense de Duqm.

Neste entremeio, diplomatas em Omã insistem no orgulho de sua equidistância.

Janela para mediação?

Além de mediar entre os Estados Unidos e o Irã, Omã também serviu de mediador entre Washington, os regimes do Golfo e os houthis iemenitas. Seu chanceler se vangloriou, em maio, de mediar um “cessar-fogo” entre os Estados Unidos e os houthis no Mar Vermelho.

Em setembro, quando Israel atacou negociadores do movimento palestino Hamas em Doha, capital do Catar, alguns especularam se um ataque israelenses aos houthis poderia também incidir a Omã. No último ano, um congressista americano ordenou a Mascate que fechasse um suposto “gabinete dos houthis” no país, ao explorar uma linguagem semelhante à usada por deputados críticos do Catar, que buscavam legitimar a ofensiva.

“Claro que o pensamento nos passou pela cabeça, mas, enquanto a imprensa israelense ataca regularmente o Catar, que também é um mediador, Omã não é criticado da mesma maneira”, alegou um diplomata omanense ao Middle East Eye.

Para Pinfold, é bastante improvável que os Emirados descarreguem sua frustração em Omã devido às derrotas no Iêmen. “Os laços econômicos com o Omã passam por Dubai, não por Abu Dhabi, que também está menos envolvida na política externa iemenita. Suspeito que perdurarão. Os Estados do Golfo são implacavelmente pragmáticos quando se trata de suas economias”, argumentou.

Alguns analistas acreditam, na verdade, que há agora uma nova abertura para a mediação omanense no Iêmen. O STC está enfraquecido, e a rápida ofensiva saudita também ajudou a recuperar prestígio militar, após seu fracasso contra os houthis, assim como em diplomacia entre os regimes regionais que rejeitam eventuais separatismos.

A Arábia Saudita e os houthis já estavam em diálogo. Riad assumiu um modus vivendi com o grupo à medida que se concentra sobretudo em projetos econômicos. Em maio, foi a Arábia Saudita que pressionou Trump a parar de atacar o grupo. Omã mediou com sucesso uma troca de prisioneiros entre a monarquia e os houthis, em dezembro.

“Omã tem então uma oportunidade para concluir essa mediação”, reiterou Balushi. O desafio é agora Estados Unidos e Israel, prosseguiu. Se ambos voltarem a atacar o Irã, tensões serão retomadas.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye, em 9 de janeiro de 2026

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