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Monte Hermon: Por que controlar o pico mais alto da Síria importa a Israel?

Israel se aproveitou da queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, para capturar e ocupar novos territórios sírios

27 de janeiro de 2026, às 11h51

Soldados israelenses durante operação no Monte Hermon, na Síria, em outubro de 1973 [Exército de Israel/Reprodução/Wikimedia]

Israel ocupa as colinas sírias de Golã desde 1967. Entre 1974 e 2024, o território se dividiu em áreas controladas ora por Israel, ora pela Síria, separadas por uma zona neutra.

Em 8 de dezembro de 2024, contudo, o então presidente da Síria, Bashar al-Assad, enfim foi deposto por rebeldes, dando fim à ditadura do partido Baath, que assumiu o poder, via golpe de Estado, ainda em 1963.

Pouco após a fuga de Assad, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou nulo o acordo de 1974 que delineava a zona neutra das colinas de Golã. No mesmo dia, o Observatório Sírio de Direitos Humanos reportou que forças israelenses haviam tomado posições do exército sírio no Monte Hermon, uma área deixada por Israel em 1974.

Segundo Gideon Saar, ministro de Relações Exteriores israelense, a ação seria apenas um “passo limitado e temporário assumido por razões de segurança”. Contudo, fontes sírias confirmaram, em mais de uma ocasião, que Israel avançou ao menos dez quilômetros ao território do país, bem além da fronteira.

Importância estratégica

As colinas de Golã são reconhecidas oficialmente como parte fundamental da Síria desde 1944, quando o país conquistou sua independência. Apesar de sucessivas guerras, com suas reivindicações e réplicas, a comunidade internacional continua a enxergar a região, rica em recursos, como território sírio.

Em 2019, os Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump decidiu, contudo, reconhecer Golã como parte de Israel, medida que seu sucessor Joe Biden não reverteu.

O acordo de desengajamento de 1974, entre Israel e Síria — considerado o mais longevo acordo contínuo entre o regime ocupante e um Estado árabe —, determinou que Tel Aviv teria de retirar suas tropas do Monte Hermon, bem como de uma área de cerca de 25 km² em torno da cidade de Quneitra.

A Força Observadora de Desengajamento das Nações Unidas (UNDOF) foi instaurada em 31 de maio de 1974, pela Resolução 350 do Conselho de Segurança, após assinatura do acordo.

O Monte Hermon, que repousa perto da fronteira com o Líbano, é uma das localidades de maior importância estratégica da região. Como uma das mais altas montanhas na Síria, concede um platô para manutenção e vigilância de todos os arredores. A somente 40 km de Damasco, a capital estaria, portanto, ao alcance pleno da artilharia israelense, então posicionada por toda a montanha.

Além disso, assegura um mirante a áreas do Líbano que Israel considera bastião do grupo Hezbollah, como o Vale do Beqaa.

De acordo com analistas, sistemas de radar israelenses sofriam com um ponto cego, ao permitir que drones iranianos de voo baixo cruzassem os céus não-detectados. Com os novos radares de Hermon, Israel teria os olhos sobre um horizonte muito maior.

Segundo Naftali Hazony, ex-piloto da aeronáutica ocupante, as vantagens vão além: “As montanhas fornecem ainda perfeita cobertura a espiões e forças especiais israelenses, que podem agora adentrar na Síria com menos percalços, para conduzir missões sob o escuro da noite”.

‘Ameaças transfronteiriças’

Neste entremeio, o exército da ocupação israelense emitiu alertas para que rebeldes em Golã não cruzassem à zona neutra. Segundo a rede Ynet, o Comando Norte elevou o nível de alerta consecutivamente e ativou medidas de emergência para robustecer as defesas dos batalhões ocupantes.

Pouco após ordenar a escalada, ainda em dezembro de 2024, Netanyahu mencionou sua própria passagem pelas forças especiais Sayeret Matkal, que operaram em Golã nos anos de 1970. “Lembro daquela época em que eu estava no comando especial. Lembro do frio congelante e que estava lá com meus irmãos, Eido e Yoni, que Deus os tenha”.

A família de Abu Mohammad al-Jolani — rebatizado mais tarde como Ahmad al-Sharaa, e empossado presidente interino da Síria — é de Golã, daí seu gentílico de guerra. Al-Sharaa comandou o grupo oposicionista Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), que depôs Assad; contudo, desde então, evita embates com Israel.

Neste contexto, restam dúvidas se a nova Síria agirá eventualmente para reaver soberania sobre seu próprio território.

Publicado originalmente em inglês pela rede Middle East Eye em 10 de dezembro de 2024

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.