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Venezuela, Groenlândia e Irã: Principais conclusões

23 de janeiro de 2026, às 17h36

Presidente da Venezuela e sua esposa, Cília Flores, chegam ao heliporto de Wall Street, em Manhattan, Nova York, em 5 de janeiro de 2026 [Stringer/Agência Anadolu]

As últimas semanas — assim como os últimos anos — têm sido particularmente marcantes, com o governo dos Estados Unidos de Donald Trump sequestrando o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, declarando intenção de anexar a Groenlândia e ameaçando atacar o Irã para então aparentemente recuar. Diante desta conjuntura, quais conclusões podemos tomar, a fim de compreender o que está acontecendo e o que está por vir?

Primeiro, não se trata apenas de Trump. Embora grande parte da atenção se concentre nele e em sua personalidade incomum, raramente um único indivíduo é capaz de afetar o cenário político. Como em qualquer outro Estado ou administração, este é moldado pelo equilíbrio de poder imposto pelo capital e por grupos organizados, como a mídia, lobbies ou sindicatos. Trump pode manobrar e escolher os interesses de certos grupos em detrimento de outros, mas apenas dentro dessas limitações gerais. Focar na sua pessoa pode desviar a atenção do sistema capitalista e colonial que possibilitou sua ascensão e dos principais atores que têm interesse — ou mesmo que estão por trás — do tipo de decisões que a gestão norte-americana está tomando.

O que nos leva ao segundo ponto: também não se trata apenas de recursos — na verdade, sequer são prioridade. Claro, a gestão americana está interessada em colocar as mãos sobre o petróleo e os metais preciosos de outros países. Todavia, há uma razão pela qual agora mira a Venezuela e a Groenlândia, dois países do continente americano, explicitamente mencionada na sua Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025. A estratégia observa a crescente hegemonia econômica da China e a apresenta como uma ameaça direta aos Estados Unidos. Então se concentra em “reindustrializar os Estados Unidos” — daí as tarifas — e em conter os avanços de Pequim.

Trata-se de um ponto de virada em relação à política de mercado aberto de mais de trinta anos e, crucialmente, de uma mudança do soft power para o hard power. Nesse contexto, o documento apresenta o Hemisfério Ocidental como seu principal palco e afirma que “os Estados Unidos reafirmarão e imporão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Não deixa dúvidas de que isso significa um “reajuste de nossa presença militar global para lidar com ameaças urgentes em nosso Hemisfério”. Este é o contexto no qual os Estados Unidos buscam consolidar sua hegemonia, antes de tudo, sobre o continente americano.

A ameaça e o uso da violência pelos Estados Unidos estão, portanto, de fato, perturbando a ordem mundial. Isso não se refere de forma alguma ao imaginário europeu de que vivemos em uma ordem de lei e valores — as sociedades do Sul Global sabem muito bem que já vivemos em um mundo profundamente violento. As instituições internacionais que a administração americana está ignorando são, na verdade, instituições coloniais. Por exemplo, os Estados Unidos, a Rússia e a China não são signatários do Tribunal Penal Internacional (TPI), o que implica que qualquer país que aderir à corte esteja sujeito a ele, mas não protegido de crimes de guerra cometidos por qualquer uma dessas três potências mundiais. As mesmas potências coloniais que criaram o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ; corte-irmã, também em Haia) decidiram que ele não poderia fazer cumprir suas decisões e que somente a ONU é quem pode — no entanto, suas decisões permanecem sujeitas à aprovação das cinco potências globais.

A ordem mundial em que vivemos opera por esta lei imperialista básica: as potências globais podem fazer o que quiserem, desde que as outras estejam de acordo. Este sistema foi estabelecido não para proteger sociedades mais fracas das grandes potências, mas para proteger as grandes potências umas das outras — para institucionalizar as negociações entre elas, garantindo que os horrores que cometeram umas contra as outras nas chamadas Guerras Mundiais só aconteçam a terceiros. Consequentemente, quando a Europa se queixa de Trump remodelar a ordem mundial, não estão se referindo a uma ordem global de paz e justiça, mas a uma ordem que lhes permitiu compartilhar a hegemonia com os Estados Unidos. Essa é a ordem que estão tentando salvar ao enfim enviar tropas para a Groenlândia. Essa é a ordem que a administração norte-americana está perturbando e pode até destruir. Tamanho antagonismo com a Europa é algo que devemos estudar e explorar ao máximo em nossa luta por uma ordem mundial que seja verdadeiramente justa.

Isso coloca sobre os movimentos políticos e cidadãos do Sul Global a responsabilidade de entender corretamente o cenário político. Eventos recentes, em particular, mostraram as limitações das análises demasiadamente simplistas. Por exemplo, Maduro não foi sequestrado por causa de seu apoio à Palestina. Em um artigo recente, o escritor palestino Hussam Abu Hamed fala dessa explicação como “preguiçosa, ao ignorar o fato de que o que aconteceu está relacionado a um conjunto declarado de objetivos de influência, poder e o rearranjo da região latino-americana, e não está relacionado a uma única questão”. Para Abu Hamed: “Transformar a Palestina na causa última obscurece o que é mais importante: que Washington está dizendo que quer a Venezuela como um país gerenciável. E aqui reside o perigo para a própria Palestina, quando ela se torna a explicação mágica para todo golpe ou invasão, transformando-se de uma questão de direitos em uma marca no mercado de conflitos”.

Análises igualmente simplistas surgiram no contexto da situação no Irã. A maioria era preta-no-branco, ou apoiando inequivocamente as manifestações como justas diante de um regime opressor, ou se posicionando contra elas por serem apoiadas por estrangeiros contra um regime visado por Israel e pelos Estados Unidos. A realidade, no entanto, é bem mais complicada do que isso. Por um lado, a colônia declarou abertamente sua interferência nos protestos, então como poderíamos afirmar o contrário? Por outro lado, movimentos firmemente antissionistas como o Tudeh — cujos combatentes resistiram à colônia e foram martirizados ao lado de combatentes palestinos — declararam seu apoio e participação nas manifestações, então como poderíamos ser tão rápidos em demonizá-los? A realidade é que as pessoas em campo no Irã são diversas. Alguns apoiam o retorno do xá e a normalização com a colônia. Alguns são socialistas que se revoltaram com os islamistas contra o xá e depois foram mortos pelos islamistas. Alguns são agentes do Mossad. Alguns são pequeno-burgueses que perderam seu capital e querem recuperá-lo sob qualquer regime. Alguns são mulheres oprimidas pelo regime religioso e querem o secularismo. Alguns são curdos ou árabes que veem uma oportunidade para o autogoverno e/ou independência. A realidade é colorida, e as dicotomias preto-no-branco, embora aprazíveis à mente, não conseguem captar o que está acontecendo. Não podemos afetar o cenário político se não pudermos entendê-lo corretamente.

O que nos leva ao ponto final: Devemos buscar não apenas entender os eventos, mas moldá-los. A maioria das análises sobre Venezuela, Groenlândia e Irã está presa no modo de observação e, portanto, não consegue escapar das dicotomias teóricas “com/contra”. Devemos construir a capacidade individual e organizacional de ler o cenário político com precisão, analisar as mudanças no equilíbrio de poder e, em seguida, construir o poder para afetar essas mudanças em favor de uma visão política libertadora e verdadeiramente democrática.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.