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Exportações agrícolas de Israel desabam em meio ao genocídio

23 de janeiro de 2026, às 17h44

Manga colhida em Gaza, em 4 de agosto de 2023 [Mohammed Asad/MEMO]

A certa vez lucrativa indústria de exportação agrícola de Israel sofre uma crise existencial, com alertas de seus produtores de um iminente “colapso”, ao passo que o país se vê cada vez mais isolado nos mercados mundiais.

A queda acentuada coincide com protestos internacionais contra o genocídio israelense em Gaza, em curso desde outubro de 2023.

Reportagens recentes da rádio militar Kan notaram que exportadores de Israel, sobretudo de manga e frutas cítricas, são os mais afetados, com diminuição nos pedidos da Ásia e Europa.

“Estamos operando em perdas desde a guerra [sic; genocídio em Gaza]”, lamentou Nizam Weisberg, que administra uma fazenda frutífera no colonato de Givat Haim, em entrevista à televisão. Para Weisberg, a citricultura em Israel está à margem do colapso.

Em Ein Hahoresh e Hibat Zion, antes centros citricultores em Israel, fazendeiros mantêm agora sua produção para fins de consumo local ou confecção de sucos, com rendimento menor e sem lucros significativos.

“Antes da guerra [sic], vendíamos para a Escandinávia”, indicou Daniel Klusky, secretário-geral da Associação de Citricultores Israelenses. “Desde então, não exportamos um único contêiner”.

Fazendeiros culpam diversos fatores, como interrupções logísticas devido ao bloqueio do grupo iemenita Ansar Allah (houthis) no Mar Vermelho, mas reconhecem, em maioria, um revés de relações públicas e capital pela campanha israelense em Gaza.

“Eles não querem mais nossas mangas”, queixou-se o agricultor e general reformado Moti Almoz. “A Europa só fala conosco quando precisa … Se eles têm uma alternativa, evitam simplesmente comprar de nós”.

As consequências são nítidas: produtores no norte viram apodrecer nas árvores entre 700 e 1.200 mangas. “É uma crise que nunca vivemos”, comentou Dodi Matalon, que recorre agora a vendas locais.

Alguns fazendeiros, como Almoz, contudo, são tão ideologicamente comprometidos com a campanha de extermínio e o apartheid israelense que se negam a vender aos mercados de Gaza, apesar de seu prejuízo e da fome catastrófica para além da fronteira.

“Se preciso perder dinheiro para não dar dinheiro para o Hamas [sic], então prefiro perder dinheiro”, insistiu o ex-general, ao prantear, no entanto, a perda de centenas de milhares de shekels.

Conforme a reportagem da Kan, o único grande comprador remanescente é a Rússia, em uma espécie de “aliança de boicotados”.

O dano reputacional é tamanho, observou o Mondoweiss, que as conhecidas “laranjas de Jaffa” — região originalmente palestina, vitimada por limpeza étnica durante a Nakba, ou catástrofe de 1948 — praticamente desapareceram dos mercados globais.

O colapso das vendas agrícolas é somente um dos indicadores de um “ajuste de contas” ainda maior, destacam analistas, frente a décadas de apropriação colonial de produtos e símbolos culturais palestinos.

Uma investigação detalhada da rede +972 Magazine preconizou que a economia de Israel cedeu consideravelmente sobre os escombros de Gaza. Setores importantes, sobretudo tecnologia e investimentos, sofrem contração, com investidores hesitantes em se engajar com um “estado pária”.

A reportagem confirmou queda da atividade econômica em 26% apenas no trimestre final de 2023, maior declínio desde a pandemia de covid-19. O consumo também desabou e a dívida pública bateu recordes.

Embora o governo retrate a conjuntura como temporária, economistas alertam que a crise pode sinalizar para um afastamento de longo prazo do Estado israelense em relação aos mercados integrados globais.