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Décadas de esquecimento e o Conselho de Paz de Trump

23 de janeiro de 2026, às 18h34

Palestinos deslocados em meio às ruínas dos bombardeios de Israel, no campo de refugiados de Jabalia, em Gaza, em 18 de janeiro de 2026 [Saeed M. M. T. Jaras/Agência Anadolu]

Em novembro de 2025, o Conselho de Segurança das Nações Unidas deferiu a Resolução 2803, ao marginalizar totalmente a própria ONU e entregar a árdua tarefa da reconstrução de Gaza aos Estados Unidos. Ainda assim, algo ficou claro desde o princípio, como notou a China: “Mal se vê a Palestina no rascunho”. A Rússia somou-se ao alerta, embora presa ao paradigma de dois Estados, que não se reflete no texto: “A principal questão é que este documento não deveria servir de pretexto para experimentos desenfreados conduzidos nos territórios palestinos ocupados, por Israel e Estados Unidos”.

À medida que o presidente Donald Trump continua a estender convites a líderes globais, para que integrem seu Conselho de Paz, muito embora os alertas sejam claros, a retórica parece vacilar, mesmo entre países que se opuseram ao plano americano, como é o caso da Rússia. O plano de Trump não se define por pragmatismo; apenas explora uma lacuna deixada pela ONU por décadas e décadas. Sem qualquer plano para dar fim à ocupação, resta somente saber quem é que pode mais. O fracasso em parar o colonialismo garantiu a Israel sua janela de expansão, mas também deixou um vácuo de poder dentro da ordem internacional — o qual Trump decidiu explorar. Gaza agora é alvo de uma nova iniciativa imperialista, que exige dos países US$1 bilhões como taxa de filiação.

A Carta do Conselho de Paz sequer menciona Gaza. Ao contrário, se concentra em impor uma nova instituição global, cuja missão declarada é “promover a estabilidade, restaurar uma governança lícita e confiável e assegurar a paz nas áreas afetadas ao ameaçadas por conflitos”.

Ao passo que diversos países reconheceram receber um convite, contudo, recusaram, o enfoque na diplomacia mais uma vez tira atenção da Faixa de Gaza. E apesar de recusas e hesitações para capitular a Trump, o fato remanescente é que a medida logrou apoio do Conselho de Segurança, com crescente cumplicidade ao genocídio israelense, ainda em curso contra os palestinos de Gaza.

A distração trumpista tampouco é uma postura solitária. A própria ONU tem décadas de experiência em gerenciar a Palestina e os palestinos aos caprichos do colonialismo e do paradigma humanitário da comunidade internacional. Ao longo da campanha israelense em Gaza, a contumácia da ONU na pauta assistencial de fato desviou atenção do próprio genocídio. Quando a ONU enfim julgou pertinente reconhecê-lo em Gaza, o fez somente semanas antes de um acordo de cessar-fogo. O acordo, apesar das pertinazes violações de Israel, nada obteve senão desviar atenção, mais uma vez, ao paradigma humanitário e se esquecer, portanto, do fato grave e concreto: o corrente genocídio.

O Conselho de Paz de Trump sinaliza a um maior esquecimento. Os objetivos da fase um jamais foram alcançados. Mas o empenho agora é no Conselho de Paz, sem abordar as carências da primeira etapa, que moderou o genocídio a abusos gerenciáveis. Enquanto palestinos continuam a sofrer os efeitos dos massacres, das privações humanitárias e da ingerência em Gaza; enquanto Trump espalha seus panfletos e convites; mais incisivo se torna o fato de que o próprio comitê pretere da atenção que Gaza merece. Enquanto os líderes globais lutam por um assento diplomático neste Conselho de Paz, fica a pergunta: quem é que realmente está de olho no genocídio e na colonização de Israel nos territórios palestinos?

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.