Em novembro de 2025, o Conselho de Segurança das Nações Unidas deferiu a Resolução 2803, ao marginalizar totalmente a própria ONU e entregar a árdua tarefa da reconstrução de Gaza aos Estados Unidos. Ainda assim, algo ficou claro desde o princípio, como notou a China: “Mal se vê a Palestina no rascunho”. A Rússia somou-se ao alerta, embora presa ao paradigma de dois Estados, que não se reflete no texto: “A principal questão é que este documento não deveria servir de pretexto para experimentos desenfreados conduzidos nos territórios palestinos ocupados, por Israel e Estados Unidos”.
À medida que o presidente Donald Trump continua a estender convites a líderes globais, para que integrem seu Conselho de Paz, muito embora os alertas sejam claros, a retórica parece vacilar, mesmo entre países que se opuseram ao plano americano, como é o caso da Rússia. O plano de Trump não se define por pragmatismo; apenas explora uma lacuna deixada pela ONU por décadas e décadas. Sem qualquer plano para dar fim à ocupação, resta somente saber quem é que pode mais. O fracasso em parar o colonialismo garantiu a Israel sua janela de expansão, mas também deixou um vácuo de poder dentro da ordem internacional — o qual Trump decidiu explorar. Gaza agora é alvo de uma nova iniciativa imperialista, que exige dos países US$1 bilhões como taxa de filiação.
A Carta do Conselho de Paz sequer menciona Gaza. Ao contrário, se concentra em impor uma nova instituição global, cuja missão declarada é “promover a estabilidade, restaurar uma governança lícita e confiável e assegurar a paz nas áreas afetadas ao ameaçadas por conflitos”.
Ao passo que diversos países reconheceram receber um convite, contudo, recusaram, o enfoque na diplomacia mais uma vez tira atenção da Faixa de Gaza. E apesar de recusas e hesitações para capitular a Trump, o fato remanescente é que a medida logrou apoio do Conselho de Segurança, com crescente cumplicidade ao genocídio israelense, ainda em curso contra os palestinos de Gaza.
A distração trumpista tampouco é uma postura solitária. A própria ONU tem décadas de experiência em gerenciar a Palestina e os palestinos aos caprichos do colonialismo e do paradigma humanitário da comunidade internacional. Ao longo da campanha israelense em Gaza, a contumácia da ONU na pauta assistencial de fato desviou atenção do próprio genocídio. Quando a ONU enfim julgou pertinente reconhecê-lo em Gaza, o fez somente semanas antes de um acordo de cessar-fogo. O acordo, apesar das pertinazes violações de Israel, nada obteve senão desviar atenção, mais uma vez, ao paradigma humanitário e se esquecer, portanto, do fato grave e concreto: o corrente genocídio.
O Conselho de Paz de Trump sinaliza a um maior esquecimento. Os objetivos da fase um jamais foram alcançados. Mas o empenho agora é no Conselho de Paz, sem abordar as carências da primeira etapa, que moderou o genocídio a abusos gerenciáveis. Enquanto palestinos continuam a sofrer os efeitos dos massacres, das privações humanitárias e da ingerência em Gaza; enquanto Trump espalha seus panfletos e convites; mais incisivo se torna o fato de que o próprio comitê pretere da atenção que Gaza merece. Enquanto os líderes globais lutam por um assento diplomático neste Conselho de Paz, fica a pergunta: quem é que realmente está de olho no genocídio e na colonização de Israel nos territórios palestinos?
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