Um colega, editor de uma rede popular que noticiou em Gaza ao longo dos dois anos de genocídio, expressou recentemente sua frustração pelo fato do enclave não ser mais foco do noticiário.
Mal precisava dizê-lo. É evidente que Gaza já foi empurrada para as margens da cobertura — não apenas pela mídia ocidental hegemônica, conhecida por seu viés estrutural a favor de Israel, mas também por veículos frequentemente descritos, com razão ou não, como “pró-Palestina”.
À primeira vista, este recuo pode parecer rotineiro. Gaza, no auge do genocídio, requereu atenção constante; após o genocídio, consideravelmente menos. Essa suposição, porém, desmorona sob escrutínio, porque o genocídio em Gaza simplesmente não terminou.
Conforme o Ministério da Saúde palestino, quase 500 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridos desde que o chamado cessar-fogo foi anunciado em outubro de 2025, a despeito de reiteradas alegações de que os massacres em larga escala haviam cessado. Estes não são incidentes isolados ou meras “violações”; são a continuação das mesmas políticas letais dos últimos dois anos.
Além do número diário de mortos, há uma devastação de escala quase incompreensível. Ao menos 71 mil palestinos foram mortos por Israel desde outubro de 2023, com bairros inteiros apagados, infraestrutura pulverizada e a vida civil quase inviabilizada.
Para compreender a profundidade da crise de Gaza, é preciso confrontar uma realidade brutal: bem mais de um milhão de pessoas permanecem deslocadas, vivendo em tendas e abrigos improvisados que desabam sob tempestades de inverno, enchentes ou ventos fortes. Bebês congelaram até a morte. Famílias são arrastadas de um refúgio temporário para outro, presas num ciclo de exposição e medo.
Sob as ruínas de Gaza, há milhares de corpos ainda soterrados, cujo resgate é impossível devido à destruição por Israel de maquinário necessário, estradas e mesmo ambulâncias e serviços emergência. Outros milhares, estima-se, seguem enterrados em valas comuns, à espera de um sepultamento digno.
Enquanto isso, centenas de corpos continuam espalhados em áreas a leste da chamada linha amarela, um limite supostamente destinado a separar as zonas militares das “áreas seguras” às famílias palestinas. Israel nunca respeitou essa linha. Foi uma ficção desde o princípio, empregue para manufaturar uma aparência de contenção enquanto a violência continuava em todo o enclave.
Do ponto de vista de Israel, a guerra nunca parou verdadeiramente. Apenas os palestinos são incumbidos de honrar o cessar-fogo, coagidos pelo medo de que qualquer resposta, por mínima que seja, seja usada como pretexto para um retorno ao massacre em massa, plenamente endossado pela gestão norte-americana e aliados ocidentais.
O morticínio somente diminuiu o ritmo. Apenas no dia 15 de janeiro, ataques israelenses mataram 16 palestinos, incluindo mulheres e crianças, em toda Gaza, apesar da suposta ausência de qualquer confronto militar. No entanto, enquanto o número diário de mortos permanecer abaixo do limiar psicológico da chacina em massa — abaixo de cem corpos por dia — Gaza desliza silenciosamente para fora das manchetes.
Hoje, mais de dois milhões de palestinos são confinados a aproximadamente 45% dos já diminutos 365 km² de Gaza, com entrada de não mais que um punhado de socorro, sem acesso a água potável e com um sistema de saúde mal funcionando. A economia de Gaza está efetivamente aniquilada. Até pescadores seguem completamente impedidos de ir ao mar, senão restritos a menos de um quilômetro da costa, ao transformar seu sustento de gerações e gerações em um risco cotidiano de morte.
A educação em si foi comprimida à sobrevivência. As crianças estudam em tendas ou em prédios parcialmente destruídos, já que quase todas as escolas e universidades de Gaza foram danificadas ou destruídas pelo bombardeio israelense.
Israel tampouco abandonou a retórica de ódio que estabeleceu as bases ideológicas para seu genocídio. Altos funcionários israelenses continuam a articular visões de devastação permanente e limpeza étnica, uma linguagem que despoja os palestinos de humanidade enquanto enquadra a destruição como necessidade política ou estratégica.
Mas por que Israel segue determinado a manter Gaza em suspenso, à beira do colapso? Por que obstrui a estabilização regional e retarda, doravante, o movimento para a segunda fase do acordo de cessar-fogo?
A resposta é franca: Israel busca preservar a opção da limpeza étnica. Altos funcionários defenderam abertamente a ocupação permanente, a engenharia demográfica e a recusa do retorno dos palestinos às suas áreas destruídas a leste da linha amarela.
E a imprensa?
De sua parte, a imprensa ocidental não hesitou em seu trabalho para reabilitar a imagem de Israel, reinserindo-a em narrativas globais como se o extermínio coletivo nunca tivesse ocorrido. Ainda mais preocupante é o fato de que mesmo algumas agências da chamada mídia “pró-Palestina” parecem seguir em frente — como se o genocídio fosse uma tarefa temporária, e não uma emergência moral contínua.
Pode-se tentar justificar o descaso ao apontar para crises em outras lugares: Venezuela, Irã, Iêmen, Síria, Groenlândia. Mas esse argumento desmorona, a menos que Gaza tenha realmente emergido da catástrofe, o que não aconteceu.
Israel conseguiu, em uma escala perigosíssima, desumanizar sistematicamente o povo palestino, mediante seu massacre em massa. Uma vez que a violência atinge proporções genocidas, violências menores — mas ainda letais — tornam-se normalizadas. A morte lenta dos sobreviventes se torna ruído de fundo.
É assim que os palestinos são mortos duas vezes: primeiro pelo genocídio, e depois pelo apagamento — pelo silêncio, pela distração e pela remoção gradual da atenção sobre seu sofrimento coletivo ainda constante.
A Palestina e seu povo devem prevalecer no centro da solidariedade moral e política. Isso não é um ato de caridade, nem expressão de alinhamento ideológico. É o mínimo devido a uma população a quem o mundo já falhou — e continua a falhar — todos os dias.
E o silêncio, ainda mais agora, não é neutralidade — é cumplicidade plena.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.








