O dilema da República Islâmica: Porque 2026 é diferente

Jasim Al-Azzawi
41 minutos ago

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Bandeira iraniana durante protesto na Praça Enghelab Square, em Teerã, capital do Irã, em 15 de janeiro de 2026 [Fatemeh Bahrami/Agência Anadolu]

Em janeiro de 2026, a “erosão cumulativa” tornou-se componente marcante da República Islâmica do Irã, ao desafiar as pulsações clássicas de reforma e repressão. Muito embora o colapso da moeda, o rial, tenha deflagrado os protestos, no Grand Bazar de Teerã, esse novo levante de massa, em escala nacional, mostrou-se característico de uma crise que abrange falência fiscal, projeções ecológicas para um “dia do acerto de contas” e fissuras geracionais que tornaram irrelevante todo o esqueleto ideológico.

O poder generativo da ‘falta de horizontes’

Sem esperanças, a geração Z tomou as rédeas da atual onda de mobilização. Diferente da Onda Verde de 2009, que buscava aprimorar o caráter republicano do Estado, ou dos atos da campanha “Mulher, Vida e Liberdade”, de 2022, que ansiavam desraigar pilares morais e culturais, o motim em curso dimanou de um pragmatismo brutal. Para uma geração em que 90% dos universitários declaram como objetivo principal a “migração a todo custo”, o contrato social do Estado simplesmente se dissolveu.

Como notou recentemente o dr. Emine Gözde Toprak, para o Centro IRAM: “A vida do povo iraniano foi reduzida a ‘sobreviver’. O bazar engendrou uma nova geração de ‘dissidentes econômicos’. Seus laços com o establishment religioso sempre foram a pedra-angular da Revolução Islâmica de 1979. Hoje, contudo, a fundação virou areia. Quando o bazar fecha suas portas, não é apenas uma greve — é muito mais. Sinaliza a retirada da anuência do bazar à legitimidade de uma ‘elite militar-clerical’, incapaz de garantir a funcionalidade do mercado nacional”.

Falência ambiental

Quem sabe, ainda mais existencial do que a crise financeira é a falência ambiental que se acelera no Irã. Teerã enfrenta agora um pronunciado “acerto de contas”, à medida que os reservatórios de água do país, como a barragem Amir Kabir, seguem com menos de 5% de sua capacidade, conforme dados do fim de 2025. A solução do governo iraniano — mover sua capital histórica para outro lugar e desligar a água ao longo da noite — são indicativos de um fracasso na “governança hídrica”.

Tudo isso se tornou uma crise irreprimível. A poeira e o descontentamento dos sertões de Gavkhoni alimentam agora uma imensa migração doméstica, como refugiados climáticos dentro de seu próprio país. O compromisso do Estado aos grandes produtores agrícolas e à suposta autossuficiência sob a “Máfia da Água” — cartel de empresas ligadas à Guarda Revolucionária, incumbidas da gestão hídrica — tornou um desastre natural, a estiagem, em uma lacuna securitária criada artificialmente, em especial no interior do Irã.

Os limites da ‘guinada ao Oriente’

Em termos geopolíticos, a “guinada ao Oriente” assumida pelo regime iraniano se depara com duros desafios. Apesar do tratado estratégico de 20 anos assinado com a Rússia no início de 2025, tornou-se claro que Moscou, Pequim e mesmo Teerã adotaram uma ideia de “transnacionalismo estratégico”, em vez de uma aliança constante e efetiva. Passada a guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025, o isolamento do Irã se evidenciou por um posicionamento morno da China, no sentido de lhe oferecer, apenas ligeiramente, algum guarda-chuva, senão nada mais que retórica.

O retorno das sanções das Nações Unidas no final de 2025 reduziu ainda mais as vendas de petróleo iraniano, hoje estimadas em não mais que 1.5 milhão de barris por dia. Para a China, Teerã ainda é uma “fronteira contra-hegemônica” com os Estados Unidos; porém, em termos comerciais, tornou-se um fardo, com 40% de déficit orçamentário.

Os americanos se avizinham

O iminente ataque de Israel e Estados Unidos ao Irã, sob o verniz de “libertação”, decerto não abrirá as portas a uma nova democracia. Será um golpe. Impérios podem até carregar os explosivos, mas a história prova que não são capazes de semear o espírito cívico que deflagra as revoluções.

Ao atacar o Irã, Washington dará ao regime a única coisa que não pode produzir sozinho: legitimidade. O regime iraniano, já subjugado pela indignação justa de seu povo, fará tudo que pode para converter o ataque em um conto de sobrevivência nacional. Limpará suas mãos sujas de sangue na bandeira nacional, ao descrever os jovens nas ruas como nada mais, nada menos que quintas-colunas de uma força imperialista.

Embora possa enfraquecer o maquinário repressivo em um primeiro momento, o povo do Irã não é alheio à memória de “libertações” desastrosas que incidiram ao Iraque e à Líbia. Os mísseis não derrubarão os aiatolás. Ao contrário, farão com que o nascimento de um novo Irã seja prematuro, malformado, sufocado pelo abraço de papai na figura do império. Tampouco chamarão os revolucionários às armas, senão uma marcha fúnebre contra um renascimento. Ao povo iraniano restará apenas uma barganha faustiana entre um ditador em casa e outro no exterior.

Conclusão: Panela e fervura

Os mulás estão divididos diante de duas narrativas mutuamente excludentes: o “complô externo”, disseminado como narrativa pelo aparato militar, e o “fracasso de governança”, admitido somente há pouco pelo presidente. Ainda assim, a elite securitária parece, ela mesma, exaurida. A lealdade interna já não é mais uma certeza. Recrutas, afinal, sofrem dos mesmos males econômicos que os manifestantes.

O Irã não é um monolito. É um país de 88 milhões de pessoas entre uma cruz climática e a espada de um sistema político envelhecido e rígido. O ponto de fervura para 2026 não se trata, ao menos não mais, da moeda ou do véu, mas sim do fracasso fundamental de um Estado revolucionário do século XX de lidar com as crises de uma nova era. A nação, sob pressão tremenda, já são suporta mais pequenas ataduras, incapazes de enfim estancar tamanha hemorragia.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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