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Gaza como argamassa: Seis razões pelas quais Netanyahu prolonga o conflito

9 de janeiro de 2026, às 06h02

Presidente dos EUA, Donald Trump, recebe o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, em 29 de dezembro de 2025 [Amos Ben-Gershom/Divulgação/Agência Anadolu]

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, concluiu sua visita aos Estados Unidos, e retornou para a casa após supostamente assegurar mais uma rodada de apoio político de Donald Trump. Como em outros encontros, este concedeu a Netanyahu uma série de garantias estratégicas, bem como cobertura política, ao reforçar a capacidade israelense de manter seu posicionamento militar em Gaza e em toda a região, com pouquíssima, ou nenhuma pressão exterior.

As conversas, realizadas entre 29 de dezembro e 1º de janeiro, não sinalizaram mudanças a uma desescalada. Ao contrário, ressaltaram o objetivo central de Netanyahu: perpetuar um estado de guerra no Oriente Médio.

Não se trata necessariamente de seguir em tempo integral, sem pausas, com o genocídio em Gaza, mantê-la presa em uma instabilidade permanente — uma que permita a Israel violar a bel-prazer o acordo de cessar-fogo de 10 de outubro e recalibrar sua violência sem qualquer revés político associado abertamente ao assassinato em massa.

Esta abordagem, contudo, expõe uma contradição central da narrativa oficial. Netanyahu e outras figuras de destaque de sua coalizão extremista têm cantado, incontáveis vezes a “vitória” de Israel. Se é verdade, por que insistem em manter aberta a questão Gaza?

A resposta repousa na convergência de cálculos políticos, ideológicos e estratégicos.

Primeiro, Netanyahu continua a apostar nas chances de que a opinião pública regional e internacional eventualmente se torne receptiva à limpeza étnica dos palestinos de Gaza e — pouco depois — da Cisjordânia. Guerra contínua, colapso humanitário e deslocamento à força não são subprodutos desafortunados do conflito: são mecanismos cruciais para manter essa opção viva e presente no imaginário político.

Essa lógica explica a manipulação sistêmica de assistência por parte de Israel, inclusive sua distribuição, como não mais que esmola, de comida, medicamentos, combustível e materiais de construção. Tais itens pouco se relacionam à força da resistência palestina. Sua restrição serve deliberadamente para manter os residentes de Gaza em um estado de suspensão, entre a morte e a subsistência.

Também explica por que Israel, após tamanha pressão, concordou em abrir a travessia de Rafah de apenas um dos lados — para sair de Gaza. Igualmente, é parte de um esquema maior voltado a expulsar os palestinos do enclave exponencialmente, com base em um maquinário muito bem financiado político e logístico que opera há anos.

Segundo, o genocídio em Gaza segue ativamente explorado para degradar condições em campo na Cisjordânia. Sob o pretexto de guerra regional, Netanyahu e seus parceiros de governo aceleraram a expansão dos assentamentos ilegais, intensificaram a repressão e avançaram com um projeto colonial de longa data de anexação de facto do território, sob ínfimo escrutínio internacional.

Ao longo do genocídio, muitos observadores alertaram, com razão, para a deterioração da situação na Cisjordânia: aumento da violência, prisões em massa e limpeza étnica contra comunidades inteiras. Enquanto Gaza sofria com a aniquilação, a Cisjordânia parece ter evanescido do enfoque global. Na verdade, seguiram conectadas desde o princípio.

A escalada na Cisjordânia se volta a objetivos similares daqueles em Gaza: fragmentação, expropriação e controle — apesar de táticas distintas. Diferente de Gaza, a resistência na Cisjordânia foi, em grande parte. subjugada por uma “coordenação de segurança” em que a Autoridade Palestina colabora com Israel.

Terceiro, a perpetuação da guerra serve a interesses domésticos. Ao manter um estado de emergência permanente, Netanyahu consegue meios de preservar sua relevância política enquanto posterga qualquer reconhecimento sério dos fracassos de 7 de outubro de 2023 e da guerra catastrófica que se seguiu. A guerra procrastina a justiça, mantém a oposição fraturada e reformula a sobrevivência política como questão de segurança nacional.

O padrão se repete. Cada vez que Netanyahu enfrenta um pico de pressão doméstica, por exemplo, para investigar os eventos que incorreram na crise, desestabiliza o front político em casa, ao escalar um dos fronts externos que mantém ativo.

Quarto, fechar a pasta de Gaza inevitavelmente aumentaria a pressão sobre Tel Aviv para buscar uma solução política à ocupação da Palestina — precisamente o que Netanyahu deseja evitar. Qualquer processo político restringiria sua capacidade de governar através da força, administrar a crise e perpetuar a escalada.

Isso explica a recusa de Netanyahu de se engajar seriamente na tratativa da gestão Trump por uma capitulação regional ampla, apesar do fato de que a iniciativa fora projetada por Washington para beneficiar sobretudo Israel. Para Netanyahu, mesmo discutir eventuais acordos implica compromisso a um “processo de paz” — a antítese de sua estratégia de governança desde que se tornou premiê pela primeira vez em 1996.

Quinto, a narrativa de “negócio inacabado” em Gaza é usada para justificar uma agenda regional ampla. Gaza opera tanto como pretexto como campo de testes para amplificar as ambições políticas e militares de Israel no Líbano, na Síria e além.

Essa interpretação se reforça pela própria linguagem de Netanyahu, incluindo reiteradas referências à região como “novo Oriente Médio” ou com sugestões ao conceito ideológico de “Grande Israel” — uma longeva aspiração do imaginário israelense. De fato, Netanyahu não se omitiu em declarar este como seu objetivo exato, ao afirmar em agosto que estaria em uma “missão histórica e espiritual” para buscar sua “visão” de Grande Israel.

Por fim, sua razão derradeira, a busca por se evadir da normalidade, cujo retorno poderia colocar o premiê no centro das crises políticas e legais não-resolvidas de Israel. Dar fim à guerra o privaria de um escudo de emergência, ao expô-lo ao escrutínio pelas acusações de corrupção ou pelos fracassos institucionais que se põem contra Netanyahu. Aqui, sua equipe jurídica foi instrumental, ao invocar mais de uma vez preocupações de “segurança nacional” para adiar depoimentos e procedimentos judiciais.

O genocídio em Gaza não é, portanto, mera campanha militar, mas um elemento-chave, uma argamassa que mantém de pé a vida política de Netanyahu, bem como seu projeto ideológico e as ambições regionais de Israel.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.