clear

Criando novas perspectivas desde 2019

Como a diáspora palestina na Venezuela reagiu ao sequestro de Maduro

8 de janeiro de 2026, às 08h08

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante cerimônia no Palácio Presidencial de Miraflores, em Caracas, 27 de junho de 2019 [Yuri Cortez/AFP via Getty Images]

O sequestro por forças militares dos Estados Unidos do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, nesta semana, emitiu ondas de choque por comunidades diaspóricas em todo o mundo. Palestino-venezuelanos no país descreveram o incidente não somente como um terremoto geopolítico, mas um ponto de inflexão em potencial a sua identidade política e solidariedade transnacional.

Para sua comunidade, de 15 mil pessoas concentradas sobretudo em Valência e Caracas, historicamente alinhada com o sentimento anti-imperialista bolivariano, a reação sugere repercussões ao apoio político na Palestina, em meio a crescente pressão americana, à medida que sua diáspora conseguiu se integrar, com êxito, à sociedade venezuelana, ao mesmo tempo em que conservava sua identidade cultural e suas orientações políticas enquanto coletivo.

“Palestinos na Venezuela estão do lado do presidente Maduro, sobretudo refugiados das aldeias sob ocupação”, comentou Jehad Yousef, autor e analista palestino-venezuelano, em conversa com o MEMO.

Yousef caracterizou a ofensiva de Washington como um “precedente perigoso: invadir um país, matar dezenas e sequestrar o presidente e sua esposa de uma base militar”. Yousef classificou as ações como “violação da lei internacional e de resoluções da Organização das Nações Unidas, bem como ataque flagrante a um Estado soberano e seu povo”. Para ele, as implicações vão muito além das fronteiras venezuelanas.

Yousef, nascido em 1957 na aldeia de Iskaka, no norte da Cisjordânia, enfatizou que o seu apoio se baseia no alinhamento de longa data de Maduro à causa palestina; contudo, vai além do simbolismo, ao insistir que “Maduro é um firme defensor da Palestina e repetiu, diversas vezes, as palavras de Chávez: ‘A Palestina é a Venezuela e a Venezuela é também a Palestina”.

Segundo o analista, essa postura política se traduziu em diplomacia concreta ao longo de décadas, bem como incentivo à mobilização popular em nome dos direitos palestinos, tanto sob Hugo Chávez (1999-2013) quanto Maduro. Sob ambos, a Venezuela expressou vigorosa solidariedade à causa palestina. De fato, foi o primeiro país da América Latina a reconhecer o Estado da Palestina em suas fronteiras nominais de 1967. No ano de 2009, a Venezuela e a Autoridade Palestina estabeleceram relações diplomáticas e anunciaram a abertura de uma nova embaixada na capital Caracas.

A história reflete nas reações da comunidade hoje. Yousef observa que ativistas e mesmo palestinos comuns politicamente engajados manifestaram apoio condicional ao governo interino, “desde que continue no mesmo caminho”. A ressalva reflete preocupações, no entanto, que um distanciamento da postura pró-Palestina da Venezuela possa mitigar o papel do país em meio às redes de solidariedade global.

Um tema central do discurso palestino-venezuelano é o espectro da pressão dos Estados Unidos em reformular a política externa de Caracas. Para Yousef, “a nova liderança deve manter boas relações com os palestinos; contudo, a gestão americana deve pressioná-la a reconhecer Israel, robustecer medidas contra os palestinos e restringir suas atividades”. O receio se vincula a ansiedades regionais mais amplas da influência de operações dos Estados Unidos após a mais recente intervenção militar.

A crise na Venezuela também reacendeu debates internos dentro das redes políticas da diáspora. Ativistas temem que uma mudança na política externa de Caracas pode minar a estruturas duradouras de solidariedade, que têm conferido apoio político e material aos direitos palestinos. Para Yousef, “seria uma enorme perda para a Palestina e sua causa na Venezuela, sobretudo caso a nova gestão não siga a mesma abordagem e, ao contrário, capitule aos ditames dos Estados Unidos”.

Sua crítica se estendeu a figuras da oposição, como María Corina Machado, cuja aliança direitista tem laços no exterior. “Caso forças da oposição tomem a dianteira”, argumentou Yousef, “há relações e acordos com [Benjamin] Netanyahu, apesar de ele ser foragido sob mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional, como criminoso de guerra por matar palestinos em massa”.

Em sua comunidade, o ponto de vista prevalecente se unifica, em grande parte, em torno de Maduro, motivado pela crença compartilhada de que seu governo manteve firme apoio à Palestina e sua causa por direitos e soberania nacional. Essa postura coletiva se molda ainda por um rechaço comum do que é visto como tentativa de Washington de reaver sua dominância na América Latina.

Embora a direção futura da política externa venezuelana siga incerta, para os palestino-venezuelanos, o momento reafirma uma convicção clara: defender Maduro é inseparável de defender sua independência política, da solidariedade com a Palestina e de resistir à hegemonia americana em toda a região.

LEIA: O sequestro de Maduro e o colapso da ordem internacional

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.