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O que 2025 revelou sobre Gaza e a ordem global

6 de janeiro de 2026, às 02h31

Protesto pró-Palestina em Berlim, na Alemanha, em 27 de dezembro de 2025 [Ilkin Eskipehlivan/Agência Anadolu]

Ao começarmos 2026, os eventos do ano anterior exigem mais do que uma retrospectiva — demandam justiça. Ao longo de 2025, Gaza não apenas sofreu mais um capítulo de sua catástrofe, como se tornou um espelho drástico da ordem global contemporânea. O que transcorreu nesses doze meses não foi somente violência contínua, mas a exposição de uma verdade ainda mais profunda: a fragilidade de um sistema que afirma ser governado pela lei, moralidade e normas universais.

Ao fim do ano, Gaza deixou de ser discutida meramente como catástrofe humanitária, em uma realidade inconteste. Mais assustador é como Gaza expôs as engrenagens com que que operam verdadeiramente os poderes globais, quando princípios legais colidem com interesses estratégicos — uma questão cada vez mais difícil de ignorar. O que chamamos de sistema internacional não está funcionando mal, mas se comportando precisamente como planejado.

Gaza e a ficção da lei

Um dos aspectos definitivos do ano de 2025 foi a obstinada invocação da lei internacional junto de sua meticulosa neutralização. Cortes emitiram medidas cautelares, agências das Nações Unidas divulgaram alertas e a linguagem diplomática se manteve saturada com expressões de preocupação. Contudo, nenhum desses mecanismos alterou a realidade vivida pelos palestinos em Gaza. A lei não se omitiu — sua aplicação, sim.

Tamanha contradição não é acidental. Desde o período posterior à Segunda Guerra, a lei internacional repousa em tensão estrutural entre princípios universais e poderio desigual. Embora prometesse comedimento das partes, jamais escapou da dominância daqueles que poderiam aplicar — ou ignorar — suas regras. Gaza, em 2025, deixou nus os reis e seu código de regras.

As instituições legais internacionais não falharam porque foram negligenciadas, mas sim porque jamais se apartaram da geopolítica. A lei funcionou menos como escudo para os vulneráveis do que como rito de legitimidade aos poderosos, ao ofertar reconhecimento e retórica sem ação — tramitação sem consequência.

Para os palestinos, isso produziu um paradoxo cruel. Tornaram-se as vítimas de violência mais bem documentadas do mundo; ao mesmo tempo, as menos protegidas. Sua dor foi devidamente reconhecida, arquivada e debatida em todos os fóruns globais, no entanto, raramente interrompida. Ao final de 2025, Gaza permaneceu como exemplo marcante da vitimização avalizada: injustiça reconhecida, porém intocável.

A erosão da credibilidade legal vincula-se de maneira inextricável ao colapso de qualquer autoridade moral ocidental. O contraste entre respostas ocidentais a conflitos distintos não é mais sutil, mas despudorado. Normas supostamente universais se provaram, mais uma vez, condicionais. Em todo o Sul Global, Gaza acelerou um ceticismo em fogo baixo às alegações de liderança ética ocidental. O discurso de direitos humanos, certa vez uma espécie de vantagem moral, torna-se exponencialmente vazio, caso seletivo.

Não se trata apenas de danos à reputação, mas um ponto de inflexão estrutural. Estados ocidentais podem seguir como potência econômica e militar, todavia, sua habilidade para definir os horizontes globais se deteriorou. Gaza não começou essa tendência, somente confirmou a decadência.

Estabilidade sem justiça

No Oriente Médio, o ano de 2025 expôs uma fissura cada vez maior dentre a estabilidade dos regimes e a legitimidade popular. Muitos governos optaram por evitar uma escalada, ao preservarem alinhamentos diplomáticos e insistirem no controle interno das ruas. De um ponto de vista securitário bastante estreito, a região pareceu estável. Entretanto, Gaza ascendeu como referência moral contundente aos povos árabes e islâmicos, mesmo se respostas oficiais seguissem cautelosas, concisas ou inexistentes.

Tamanha desconexão não desestabilizou, de imediato, os regimes, contudo, esvaziou sua narrativa ética. A estabilidade perdurou, porém sem sentido de ser. Gaza não engendrou uma revolução, mas intensificou a alienação dentre o público e seus governantes. O que surgiu foi uma forma de resiliência autoritária cada vez mais desligada dos sentimentos morais da sociedade.

O ano também compeliu um acerto de contas com a lógica da normalização. A crença de que relações econômicas e diplomáticas mais próximas com Israel geraria comedimento se provou ilusória. Em vez de influência, a normalização incitou impunidade. Gaza expôs um erro fundamental de leitura por parte do poder: engajamento sem justiça jamais seria capaz de moderar comportamentos, senão institucionalizar assimetrias.

Historicamente, a ordem no Oriente Médio se manteve via garantias externas no lugar de consentimento interno. Gaza, em 2025, revelou os limites do modelo. A ordem pode até persistir sem justiça, mas não a legitimidade. Quando populações inteiras testemunham fracassos morais reiterados, sem qualquer consequência política, o silêncio se converte em estranhamento e não aceitação.

Com o início de 2026, Gaza permanece materialmente devastada, embora sua relevância tenha se expandido para muito além de suas fronteiras. De fato, tornou-se uma referência global não apenas ao sofrimento do povo palestino, como aos fracassos institucionais da governança contemporânea.

O perigo à frente não é continuidade da injustiça, mas que se normalize. Quando a dor e o luto se tornam cotidianos, e a impunidade, previsível, a indignação ameaça dar espaço à resignação. Ainda assim, a maior lição de 2025 é mais perturbadora àqueles que insistem em investir no status quo: legitimidade, uma vez perdida, raramente se restaura.

Gaza não rematou a ordem internacional baseada no direito. Revelou, não obstante, que, para muitos, essa sequer existiu. O que vem a seguir depende se tamanha revelação for tratada como nada mais, nada menos que inconveniência, ou como um chamado para repensar o poder, a lei e a ética na encruzilhada da política global.

Caso lembremos de 2025, não será como um ano de justiça, mas o ano em que o mundo soube — e ninguém mais pode alegar ignorância — o custo de lavar as mãos.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.