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O teatro de Trump: O petróleo venezuelano como objetivo principal

5 de janeiro de 2026, às 02h05

Refinaria de El Palito, na Venezuela, em 9 de março de 2022 [Manaure Quintero/Bloomberg via Getty Images]

Washington não descobriu Nicolás Maduro, do nada, em 3 de janeiro. Tampouco abriu os olhos ao narcotráfico ou a corrupção na Venezuela do dia para a noite. Mas escolheu sua chance para sequestrá-lo por conta de quatro forças persuasivas: o renascimento de uma mentalidade da Doutrina Monro, sua ganância por petróleo venezuelano, a desaprovação crescente de Trump e a decisão da Suprema Corte para que os contadores do presidente revelassem ao público seus registros bancários.

Horas após a operação militar, o presidente Donald Trump confirmou que seu país estaria “fortemente envolvido” no setor petroleiro da Venezuela. O “narcoterrorismo” se tornou a maneira oportuna de validar então o uso da força bruta. A pergunta é o que precisamente fará Washington com uma nação que repousa sobre uma das maiores — senão a maior — reservas conhecidas de todo o mundo?

A Doutrina Monroe não é apenas peça de antiquário — mas sim o alicerce ideológico dos poderes imperiais dos Estados Unidos no Hemisfério Sul. Neste sentido, a América Latina é “nosso quintal”, “nossa esfera”, “nosso direito para fazer o que quisermos”. John Bolton, assessor de segurança nacional do primeiro mandato de Trump, em 2019, pronunciou em voz alta o que costumava ser desdito: “Hoje, para todo o mundo ouvir: a Doutrina Monroe está absolutamente viva”.

Há uma explicação histórica nessa coreografia: pretextos, ataques, sequestro e petróleo. Em uma série de reportagens de março passado, a agência Reuters documentou “meses de pressão crescente”, incluindo confisco e embargo do petróleo venezuelano, de modo a incorrer em cortes críticos nas exportações.

Então, o momento adequado. A gestão Trump precisava concentrar olhares americanos a ataques contra supostos barcos de cocaína. O sequestro, por sua vez, vem em hora boa, na qual a popularidade de Trump despenca. Um “grande triunfo” no estrangeiro é o truque mais velho na cartilha imperial: levar os holofotes ao além-mar enquanto busca ofuscar o descontentamento em casa. A invasão teve um clímax satisfatório, ao contrário do que é possível para a verdadeira governança. Trata-se de imagens — e não mais que imagens — de uma liderança forte, bandeiras, vitórias televisionadas, em vez da inflação, das cortes, das batalhas no Congresso e da questão implacável posta pelos eleitores: E como eu fico nessa história toda?

Então, o motivo de que não gostamos de falar: dinheiro, números, exposição.

Trump, há anos e anos, resiste à transparência e se nega a divulgar registros fiscais. Neste entremeio, ao julgar o caso Trump v. Vance, a Suprema Corte americana indeferiu o apelo trumpista por imunidade absoluta de quaisquer processos criminais, ao ressaltar que, no que diz espeito a documentos pessoais, “o dever do presidente é quase o mesmo do que aquele de qualquer outra pessoa”. Essa decisão, particularmente, tratou de documentos da empresa de contabilidade de Trump, implicada em um inquérito conduzido em Nova York. A mensagem diz: Ninguém está acima da lei. Em 2019, o procurador-geral do estado de Nova York confirmou que os tribunais ordenaram ao presidente pagar indenizações por abusos sobre privilégios beneficentes. Trump agora é compelido a revelar o extrato.

O tampão Venezuela, contudo, ajuda. Serve ainda, como se não bastasse, a outra pauta populista: o conto de fadas da imigração. A Reuters noticiou também uma série de ações de Trump para anular efetivamente o status legal de um número massivo de imigrantes da Venezuela, ao insistir na “linha dura”. Um Maduro em custódia pode dar novo fôlego a sua luta pela “lei e a ordem”.

Mas e o tráfico de drogas?

O problema não é que não há narcotráfico na região, mas que isso não basta. Caso fosse uma questão de policiamento, deveríamos debates acordos de extradição internacionais, rotas da Interpol e cooperação entre judiciários regionais. Contudo, o que transcorreu foi uma ação militar em Caracas, com a extração do presidente de um país soberano por um grupo de forças especiais. Tenha um martelo e todo problema é um prego. Ao recorrer a uma extração forçosa, seu intuito certamente não é justiça — é poder.

O olhar mais lúcido diz o seguinte: a Venezuela é onde Trump pode reaver a hegemonia de seu país nas Américas, derrubar inimigos, redirecionar o fluxo de petróleo e lhe conceber, de brinde, imagens favoráveis para a televisão. A narrativa das “drogas” dá cobertura, mas a promessa de petróleo é a verdadeira razão.

Há outro detalhe revelador nas reportagens da imprensa. A Reuters noticiou, por exemplo, que a infraestrutura de petróleo se manteve notavelmente intocada durante os ataques. Implica-se planejamento e dolo. Não se vai à guerra para destruir o que quer controlar e, então, “envolver-se fortemente”.

A prisão de Maduro não se trata do combate às drogas, mas sim à Doutrina Monroe e sua gana por petróleo. É claro, há um lembrete a toda a América Latina que Washington ainda tem autoridade para decidir quem manda e desmanda na região. É também um lembrete aos mercados de energia de que o Pentágono pode fechar ou abrir torneiras. Sobretudo, é um lembrete a todos de que Trump não aguada a tramitação da lei, mas que opera sobre ambições cinematográficas.

A tragédia sequer repousa meramente sobre a soberania venezuelana, a estabilidade da América do Sul ou mesmo o precedente que se estabelece. A tragédia é o cinismo. Se os Estados Unidos quisessem seriamente dar fim ao sofrimento do povo venezuelano teriam, há anos, promovido canais diplomáticos e institucionais, não golpes de Estado. Contudo, lembremos que a lenta política dos corredores não viraliza — apenas momentos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.