clear

Criando novas perspectivas desde 2019

A doutrina ‘Don-roe’: A intervenção gangsterista de Trump na Venezuela

5 de janeiro de 2026, às 02h48

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acompanha sequestro de seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro, junto de ministros, em Washington DC, em 3 de janeiro de 2026 [Donald Trump/Truth Social/Divulgação/Agência Anadolu]

É uma acusação de longa data contra certos políticos americanos de que sua capacidade intelectual se deteriorou por uma consistente dieta de televisão, faroestes e síndrome de protagonista. Essa tradição jamais seria rompida por alguém como o presidente Donald Trump, salvo suas promessas de que manteria os dedos longe do gatilho. As promessas, todavia, foram por água abaixo, com aumento de sua presença militar no Caribe; ataques infundados a embarcações na região, sob falsa bandeira de combate ao narcotráfico; e, acima de tudo, delírios sobre atacar o Irã em caso de repressão a protestos.

Tornou-se evidente, após a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional de 2025, que essa gestão abandonaria de vez qualquer inibição imposta pela lei internacional, ao optar por seu gangsterismo de costume, porém, a céu aberto. No Ocidente, os Estados Unidos mostrariam o muque e ditariam os termos, como costumavam fazer na América Latina. A Casa Branca insistiu desejar “um hemisfério cujos governos cooperam conosco contra os narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais … que siga livre [sic] de incursões estrangeiras hostis a recursos críticos e que mantenha o apoio a redes essenciais de suprimentos”. Em outras palavras, o corolário de Trump sobre a Doutrina Monroe.

A Venezuela se tornou o alvo inaugural. Em 3 de janeiro, pouco após as duas da manhã do horário local, a capital Caracas e outras regiões do país sofreram ataques do exército dos Estados Unidos, como parte da chamada Operação Determinação Absoluta. Às 4h21, o presidente americano anunciou a captura do incumbente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores. O general Dan Caine, chefe do Estado-maior conjunto, chamou uma coletiva de imprensa ao complexo presidencial na Flórida, na qual comemorou “uma extração tão precisa que envolveu não mais que 150 aeronaves no Hemisfério Ocidental, em coordenação íntima, todas em sincronia sobre um único propósito: levar uma força de interdição ao centro de Caracas ao manter, ao mesmo tempo, o elemento surpresa”.

Caine revelou ainda que equipes da inteligência americana mantiveram vigilância sobre o casal venezuelano pro meses. Como um floreio da velha máfia, o general explicou que as equipes monitoraram Maduro para “entender como se movia, onde vivia, para onde ia, o que comia, vestia, e quais eram seus animais de estimação”.

Trump, ao pontuar a lógica por trás do ataque, falou sem qualquer modéstia — como por hábito — sobre a “Doutrina Don-roe”. Para o presidente, o regime venezuelano teria “dado abrigo a adversários estrangeiros em nossa região [sic] e obtido armas que poderiam ser um risco aos interesses e a vidas americanas”. Trump insistiu se tratar de uma “violação grosseira [sic] dos princípios-chave da política externa americana, assumida há mais de dois séculos”. A Doutrina Monroe, acrescentou, “já foi importante, mas nos a superamos muito, muito mesmo. Agora vamos chamá-la de Doutrina Don-roe [sic]”.

Pam Bondi, procuradora-geral dos Estados Unidos, não tardou em anunciar que Maduro fora indiciado no Distrito Sul de Nova York, sob uma salada de acusações inverossímeis: “conspiração com o narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e aparatos destrutivos contra os Estados Unidos [sic]”. Como em diversas ocasiões anteriores, categorias elásticas e nada plausíveis para identificar combatentes foram paridas pelo Departamento de Justiça e pela Casa Branca, no propósito de inspirar soluções falsas. Os conceitos de George W. Bush, de “combatente ilegal” e “beligerante sem privilégios”, veem à mente.

A ficção de narcoterrorismo revelou os limites da literacia legal da gestão Trump. O termo, imputando vínculo entre oficiais de governo e suposto crime organizado, assim como ao “terrorismo”, supostamente concederia poderes de guerra ao executivo, como incorreu a Maduro, incluindo o sequestro de um chefe de Estado. O Congresso dos Estados Unidos, neste entremeio, foi ignorado sem qualquer pudor.

O teste de figurino para tanto começou em 2 de setembro de 2025, quando Trump alegou em notificação sobre a Resolução de Poderes de Guerra, ao parlamento, que os ataques militares a barcos supostamente ligados ao narcotráfico no Caribe e Pacífico seriam uma forma de “autodefesa”, motivada pela “incapacidade ou indisposição de certos países na região a reagir à contínua ameaça a cidadãos e interesses dos Estados Unidos, emanadas de seus territórios”.

Em outubro, um decreto presidencial tratou de converter suas vítimas em “combatentes ilegais”, ao interseccionar o léxico trumpista com aquele de Bush. Para este, a imaginação tratou de inventar armas de destruição em massa, supostamente em posse do presidente do Iraque na ocasião, Saddam Hussein, a serem utilizadas contra americanos e aliados a qualquer instante. A Casa Branca não hesitou em alegar que as armas, que não existiam, poderiam também cair em mãos de agentes não-estatais.

No caso de Trump, a fantasia sobre Maduro orbita um suposto império de drogas, bastião de abundantes grupos rebeldes. Boa parte, absurdo, dado que a Venezuela tem pouco ou nada ver com o fluxo de cocaína aos Estados Unidos. Há, contudo, petróleo, pronto a ser tomado, gerido e comercializado por corporações americanas, sob as próprias diretrizes da Doutrina Don-roe.

Em resposta ao crime flagrante de ingerência externa, países programados a insistir em uma “ordem internacional baseada no direito” se viram entre a cruz e a espada. A União Europeia se provou mansa, mais uma vez, ao caçoar da liderança de Maduro no lugar de condenar com firmeza as violações de Trump às convenções, resoluções e Carta da ONU. A reação Kaja Kallas, alta-representante europeia para política externa, foi marcante: “A União Europeia destacou, sucessivas vezes, que o Sr. Maduro carece de legitimidade, ao defender uma transição pacífica. Sob quaisquer circunstâncias, deve-se respeitar a Carta da ONU e a lei internacional. Pedimos moderação”.

No Reino Unido, o líder do Partido Reformista e tiete de Trump, Nigel Farage, demonstrou-se confuso com a própria alegria: “As ações americanas na Venezuela ao longo da noite são heterodoxas e contrárias à lei internacional, mas se fazem China e Rússia pensarem duas vezes, pode ser uma coisa boa”.

A resposta de Roderich Kiesewetter, deputado da União Democrata Cristã da Alemanha, foi mais ponderada: “O golpe na Venezuela marca um retorno à velha doutrina americana antes de 1940: uma mentalidade em termos de esfera de influência, em que governo a lei do mais forte e não a lei internacional”. O governo cubano seguiu a mesma linha, embora mais incisivo: “Trata-se de uma agressão imperialista e fascista gritante, com objetivos de dominação, a fim de ressuscitar ambições hegemônicas dos Estados Unidos sobre toda nossa América, com raízes na Doutrina Monroe, e para obter acesso e controle irrestrito a riquezas naturais da Venezuela e de toda a região”.

O sequestro de líderes internacionais por potências agressoras no pós-Segunda Guerra não é novidade. Imre Nagy da Hungria, visto como chefe do levante de 1956, foi abduzido pela União Soviética para fins disciplinares: julgado e executado. Alexander Dubcek, líder da Primavera de Praga em 1968, foi poupado da morte, mas ostracizado ideologicamente pela liderança soviética por reivindicar reformas. Dentro de sua esfera de influência, os estalinistas buscaram dissuadir a dissidência ao sugerir que suas lideranças poderiam, a qualquer instante, serem sequestradas, executadas ou reordenadas. Trump, sem saber, aderiu ao clube.

LEIA: O teatro de Trump: O petróleo venezuelano como objetivo principal

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.