A América Latina entra 2026 com situações limite. O segundo governo Donald Trump nos Estados Unidos traz o empenho ideológico de Marco Rubio, autêntico representante da extrema-direita cubana e republicana. O representante do setor gusano na Casa Branca projeta o poder colonial como um pró-cônsul romano. Mesmo vindo de um território que foi invadido pelos EUA, Rubio é tão eficiente como um desembarque de fuzileiro navais (marines) ou uma ação desestabilizadora da CIA. Assim como o alinhamento entre direita oligárquica latino-americana e a administração imperialista, esta lealdade subordinada se vê espelhada na relação com Israel. O Estado Colonial do Apartheid na Palestina Ocupada é uma cabeça de ponte da OTAN, de Washington e do Ocidente no Levante, Ásia Ocidental e norte da África.
Simultaneamente, o criminoso confesso Benjamin Netanyahu envia emissários buscando ampliar a penetração dos interesses de Tel Aviv no Continente. O fenômeno observável é um choque de identidades. Governos posicionados com a centro-esquerda ou o chamado campo nacional-popular, tendem a apoiar a Causa Palestina (em geral) e buscar alianças na região, como acordos econômicos com potências médias, a exemplo de Turquia e Irã. Já a nova extrema-direita latino-americana se alinha com Israel e permite a penetração da inteligência e espionagem sionista em setores sensíveis. Neste caso, vemos o paradoxo. Governos progressistas como o de Claudia Sheinbaum no México, não prioriza sua ascendência judaica e tem um comportamento digno. Mais tímido do que o de Gustavo Petro na Colômbia, mas muito distante da subordinação de quem deveria ter Israel como inimigo estratégico.
O caso limite é representado pelo descendente de palestino Nayib Bukele, em El Salvador, fecha acordos vergonhosos com Trump, critica o Hamas e adquire tecnologia de vigilância de Israel. Outro de origem palestina é Nasry Asfura (Nasry Juan Asfura Zablah, alias “El Tito”) candidato da Casa Branca para as eleições em Honduras, acusado de fraude e aliança com o narcotraficante indultado por Washington, o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (alias “JOH”). Seu adversário político direto, Salvador Nasralla, tem origem libanesa e fez carreira como apresentador de TV e evangelizador. Nenhum dos dois descendentes de árabes jamais se posicionou como a derrotada candidata Rixi Moncada, indicada a sucessão da presidenra Xiomara Castro. Em seu governo (iniciado em 2022 e em plena crise sucessória), o apoio para a Palestina foi presente.
Os “Acordos de Isaac”, a ofensiva diplomática israelense
No final de novembro de 2025 o ministro de Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, recebeu o chanceler de Israel, Gideon Sa’ar, durante visita oficial ao país. No encontro, as autoridades destacaram a importância de ampliar a cooperação em múltiplos setores e de explorar novas oportunidades nas relações econômicas e comerciais entre as duas nações. Foram assinados dois Memorândums de Entendimento: o primeiro, em Cooperação Diplomática, busca estruturar projetos conjuntos de capacitação e desenvolvimento profissional; o segundo, em Diplomacia Pública, tem como foco alegado a promoção de plataformas digitais, comunicação estratégica, gestão digital e diplomacia cultural. Ou seja, softpower do Estado genocida.
Vale observar que durante o governo Mario Abdo Benítez (agosto de 2018 a agosto de 2023), pertencente a outra ala rival do Partido Colorado (Associação Nacional Republicana, ANR), o Paraguai teve um saudável afastamento de Israel. Com a eleição de Santiago Peña, o ex-banqueiro empregado de Horácio Cartes (sócio de Darío Messer e Mauricio Macri), o Poder Executivo em Assunção se coloca totalmente submisso aos Estados Unidos e a Israel, incluindo autorização para presença militar e policial estadunidense e absurdas buscas por “inimigos internos” na Tríplice Fronteira.
No congresso paraguaio, Gideon Saar, acusou a República Bolivariana da Venezuela sob governo Nicolás Maduro de servir como o principal “elo” na América do Sul para forças políticas árabes como o Hezbollah e o Hamas, bem como para o Ansar Allah no Iêmen. O que seria algo elogioso para a cidadania latino-americana e apoiadora da Palestina soa como “um perigo anunciado” para oligarcas colonizados.
Em 27 de novembro, o presidente Javier Milei anunciou oficialmente o lançamento dos Acordos de Isaac, uma nova plataforma de cooperação entre Israel e a América Latina que coloca a Argentina como principal força motriz. O anúncio foi feito na Casa Rosada durante a visita do ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, com quem Milei realizou uma reunião de trabalho supostamente focada no alcance diplomático, técnico e político desta iniciativa regional. O ministro de Netanyahu firmou compromisso com Javier Milei pela transferência da embaixada argentina para Al Quds ocupada e abriu caminho para a conquista territorial através das compras de terras na Patagônia por capitais israelenses. Em dezembro de 2025, Gideon Saar, teria “pedido desculpas”em nome de seu país pela incursão da empresa petrolífera israelense Navitas Petroleum, sócia águas da região disputada pela Argentina e pelo Reino Unido. O emissário sionista alega que a petrolífera opera conforme seus interesses privados. A sócia da britânica Rockhopper Exploration PLC adiou o investimento de USD 1,4 bilhão de dólares pela pressão popular sobre a Casa Rosada, levando ao recuo público do governo da extrema-direita argentina.
Ainda que tenha havido este revés pontual, Os Acordos de Isaac contam com o apoio de organizações estadunidenses, como a American Friends of the Isaac Accords, além de financiamento da Genesis Prize Foundation. Seus alvos iniciais incluem Uruguai, Panamá e Costa Rica, com projetos focados em segurança, tecnologia e comércio. A estratégia prevê um bloco multinacional capaz de manter laços estreitos com Israel por meio de governos ideologicamente alinhados, unidos em torno de falsas narrativas de “combate ao terrorismo” e “defesa regional”.
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A libertação da Palestina é co-irmã da soberania latino-americana
Como já escrevemos em artigos anteriores, infelizmente a posição na pirâmide social de descendentes de árabes na América Latina (árabes latino-americanos como caracteriza a UNESCO) nos torna socialmente brancos e de classe média para cima. Esta condição, na ausência de engajamento político e organização social, posiciona o senso comum da colônia como alinhada de forma subalterna ao Ocidente.
Os exemplos são abundantes e sem nenhuma desfaçatez. O genocídio do povo palestino, financiado pelos Estados Unidos e executado por Israel, se encontra espelhado nos sentidos de projetos de governo em nossos países. Na troca de governo, o posicionamento muda. O caso chileno é gritante. Mesmo um tímido social-democrata como Gabriel Boric defende a Palestina. O presidente eleito José Antonio Kast, empresário de extrema-direita, com fortuna resguardada em Miami e de família nazista, apoia Trump e Israel sem pudor algum.
Na década de 70 do século XX, ainda havia algum rasgo de direita nacionalista latino-americana mas com uma visão nacional e desenvolvimentista. Essa posição já não se encontra mais. Findando o primeiro quarto do século XXI o espelhamento é absoluto. A soberania de nosso Continente é defendida pelos solidários com a luta palestina. O inverso é tristemente verdadeiro.
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